“O álbum não apresenta pontos fracos. Mas há um pentágono mágico que o torna num marco para que a tradição mostre já o que pode vir a ser nas nossas vidas e nos nossos ‘reencontros’ com as verdades que passam indiferentes ao tempo”
Primeiro aviso, prático, para evitar confusões: o quarto disco de originais do galego Carlos Nuñez – de fora da contabilidade fica a colectânea "Todos Os Mundos" – será distribuído em Portugal, ao que tudo indica, com o título francês: "Un Galicien en Bretagne" (ed. Sony Music). Quem der de caras com a edição espanhola, constatará que o título muda para "Almas de Fisterra".
Pouco importa, que a substância é a mesma. Segundo aviso, de cariz mais "teórico": aqueles que não se arrepiam com a força das tradições, com a alma única que continua a renascer das raízes celtas, bretãs e (porque não?) galegas, talvez possam passar adiante. Porque este é um momento de rendição incondicional, sem limites, a mais uma das peregrinações de Carlos Nuñez, desta vez rumo à Bretanha para continuar o seu trajecto que, entre outros feitos, agora que chega à casa dos 30 anos, já lhe permitiu ser eleito como "o sétimo dos Chieftains" (antes da morte de Derek Bell), apontado como "o novo rei dos Celtas" ou, de um jeito mais abrangente, receber a designação de "Jimi Hendrix das gaitas de foles".
Falamos de um virtuoso, portanto. Com todos os riscos que a qualificação comporta. Porque não é invulgar quem, dominando em rigor a técnica de um instrumento (ou de uma série deles, como é o caso…), resvale para um exibicionismo gratuito, capaz de esquecer uma das grandes verdades da música: a alma que tem que morar lá dentro. Nesse domínio, "Un Galicien En Bretagne" revela-se especialmente compensador: se Nuñez é o pólo de ligação, o "interface" de tudo o que vai acontecendo, há infinitos espaços para a música e para os músicos. Não é um pormenor de somenos: quem pode contar com um Alan Stivell "reencontrado", com o poder lírico da guitarra e das composições de Dan Ar Braz, com o canto profundo de Gilles Servat, só perde se for egoísta. E, se ainda era necessário revelar algo de novo, é essa maturidade distributiva que aqui se conquista em definitivo.
O álbum não apresenta pontos fracos. Mas há um pentágono mágico que o torna num marco para que a tradição mostre já o que pode vir a ser nas nossas vidas e nos nossos "reencontros" com as verdades que passam indiferentes ao tempo. Um: "The Three Pipers", em que se juntam a Nuñez o irlandês Liam O'Flynn e o bretão Patrick Molard. Gravada numa basílica, é uma demonstração do as "irmandades" podem valer.
Dois: "Un Galicien Libre À Paris", escrita por Dan Ar Braz para o pai de Carlos, exilado em França ao tempo de Franco. A prova de que o simples, mesmo em crescendo épico, pode ser sempre o mais belo. Três: "Yann Derrien", tradicional que abre espaço à voz celestial da irlandesa Eimear Quinn (de que "perdemos" um belíssimo álbum, inspirado em Tristão e Isolda, "Through The Lens Of A Tear"). Quatro: o encontro de Nuñez com o exigentíssimo Jordi Savall e a sua viola de gamba, no notável "Ponthus et Sidoine". Cinco: "Karante Doh Doue", gravado numa igreja com um coro masculino bretão, o Kanerion Pleugnier, "banda sonora" que passa, agora, a evocar a tragédia ecológica do "Prestige" e a contaminação da costa galega. Posso prometer que não se esquecem mais, nem o facto nem a música.
No todo, apetece chamar-lhe obra-prima. Descomprometida mas empenhada, saltitante de ritmos mas de uma emoção verdadeira como há muito não se ouvia. Apetece perguntar: e ao vivo, cá, é para quando?
Andaram por outros mundos – dos retiros espirituais às maternidades, passando por outras aventuras musicais – mas, a bem de nós todos, decidiram reunir-se e testar se a respectiva "chama" é mesmo "eterna".
No caso das BANGLES, as quatro originais, a frescura de "Doll Revolution" (ed. EMI-VC) é tanta que se pode garantir que já chegou o primeiro álbum de Primavera. O single, "Something That You Said", é óptimo e, logo a abrir, há uma canção de mestre Elvis Costello. Que mais poderíamos querer?
Vini Reilly, mais conhecido como THE DURUTTI COLUMN, tornou-se numa companhia há mais de vinte anos. Apesar de algumas oscilações, ainda é um dos magos a trabalhar as melodias e os efeitos nas guitarras eléctricas. Triste mas irresistível, "Someone Else's Party" (ed. Edel) é um disco dominado pela morte da mãe do autor. E não surpreende que "Requiem For My Mother" seja mais uma das suas peças incontornáveis, a juntar às "velhinhas" de "LC" e "Sex and Death". Um eleito, sem margem de erro.
Nem tudo o que envelhece melhora. No caso, a "máxima" do Vinho do Porto não se aplica à ofensiva de PETER GREEN e do seu Splinter Group, assinantes de um álbum a meio caminho entre os "blues" e o "light", parco na matéria-prima, inconsistente mesmo para os saudosistas do virtuoso fundador dos Fleetwood Mac.
"Reaching The Cold 100" (ed. Edel) não convence… nem os próprios. Senão, o que estaria aqui a fazer um EP de bónus, uma bóia de salvação, outra vez com "Albatross" e "Black Magic Woman"?
Há exemplos em que bem se tenta perceber a razão de um êxito, mas a que continuam a faltar respostas satisfatórias. Refiro-me, em concreto, aos germânicos GUANO APES, com mais um álbum, "Walking On a Thin Line" (ed. BMG), que volta a não ultrapassar a total banalidade, a "descarga eléctrica" gratuita, a mediocridade dos textos. No entanto, o grupo mantém a sua invejável popularidade. Mas, pelo que se ouve, absolutamente irrelevante, só gostava que tivessem a amabilidade de me explicar porquê…
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