Fernando Vendrell, realizador, apresentou ontem a sua terceira longa-metragem no IndieLisboa. ‘Pele’ é uma adaptação livre do romance de Henrique Galvão e estreia nas salas nacionais na próxima semana.
Correio da Manhã – Apesar do racismo ser um tema implícito, ‘Pele’ não é uma película racial?
Fernando Vendrell – Este filme levanta questões sobre o racismo, sem ser propriamente um filme racial. Senti que o rosto, o movimento e a presença da Daniela [Costa, protagonista] levavam ‘Pele’ para uma plataforma diferente do previsto, mas aumentavam a inquietação do mistério. A Daniela é uma rapariga branca, com traços mestiços que foram realçados e africanizados. Houve um grande trabalho de maquilhagem, também para recriar os anos 70.
– Pretende que seja um retrato social ou quer tocar os espectadores pelo problema da marginalização racial?
– Fiz vários filmes africanistas e este é quase uma conclusão desse périplo. O que me perturba mais é que o racismo pode ser uma coisa nossa, intrínseca. Ou seja, eu posso sentir uma disfunção em relação à minha cor de pele. Sinto muita hipocrisia nas pessoas que dizem que já não existe racismo. Ainda existe, sim. Por isso me interessam personagens que vão para além dos seus limites.
– Como surgiu a ideia do filme?
– O filme trabalha muito o universo feminino e a Carla Baptista [argumentista e mulher do realizador] tem uma sensibilidade muito própria. As mulheres, nos meus filmes, são muito importantes. Aqui prolonguei o mistério do ser feminino. As mulheres transportam uma enorme perturbação que faz o Mundo rodar.
– Mas esta não é uma película pesada, apesar do tema…
– É quase uma telenovela. O filme é quase todo um ‘cliché’, mas os níveis de profundidade da história estão latentes. Há uma socióloga brasileira que diz que “o ‘cliché’ é o ‘fait divers’ do espírito”. Esta frase resume muito o filme.
– O que espera de ‘Pele’?
– Que leve pessoas às salas de cinema. Não é, no entanto, um filme fácil para festivais de cinema. Além disso, os grandes festivais estão a servir muito de rampa de lançamento do cinema americano e não me identifico com este tipo de selecção. Daí ter alguma dificuldade em integrar os meus filmes, já que também não sou uma vedeta internacional como o Woody Allen…
Aos 44 anos, ‘Pele’ é já o terceiro filme de Fernando Vendrell, depois de ‘Fintar o Destino’ (1998) e ‘O Gotejar da Luz’ (2001). O cineasta lisboeta estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e iniciou-se na Sétima Arte como assistente de realização, ao lado de Manoel de Oliveira, João César Monteiro, José Fonseca e Costa, entre outros.
Em 1992, produziu ‘Belle Époque’, de Fernando Trueba, vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1994. Antes fundara a David & Golias, dedicada aos seus projectos de realização, produção e escrita de argumentos.
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