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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Aldeia em pé de vento

No novo filme de Luís Galvão Teles, que ontem começou a ser rodado perto de Ferreira do Zêzere, o choque tecnológico é real. A personagem central de ‘DotCom’ é uma aldeia isolada do Mundo que a internet põe em pé de vento. Uma comédia marcada pela ruralidade com estreia prevista para 2007 em cinco países.

28 de março de 2006 às 00:00

Sem pretender ser uma crítica social, ‘DotCom’ retrata a transformação no quotidiano de uma comunidade pacata, onde, por causa das novas tecnologias, há amizades desfeitas e casais separados. “O que me interessa é a forma como as pessoas se confrontam com a evolução da sociedade”, explicou o realizador ao CM no final da primeira manhã de filmagens, antecipado pela chuva.

Dispondo de um orçamento de 2,3 milhões de euros, a comédia tem João Tempera, Marco Delgado, Isabel Abreu e a espanhola Maria Adanez nos papéis principais, secundados por Margarida Carpinteiro, José Eduardo, Lia Gama e Toni Correia. Nas próximas sete semanas, a equipa estará instalada em Dornes, um lugar mágico na margem do Rio Zêzere, onde vivem 13 pessoas, que Luís Galvão Teles escolheu à primeira visita. “A aldeia é fundamental. A paisagem é belíssima e há um pouco a sensação de estar no fim do Mundo. Para mim, é a personagem principal”, disse o cineasta.

A chegada do cinema promete alterar as rotinas locais, à semelhança do que sucede em ‘DotCom’. Vão ser recrutados 300 figurantes na região – os cachês oscilam entre os 25 e os 100 euros – e várias casas foram escolhidas para servir de cenário. É o caso da residência de Maria da Conceição Dias, de 63 anos, que ontem assistia, atenta, às filmagens. “Nunca pensei que desse tanto trabalho”, comentou, satisfeita por ver de perto as caras que conhece da televisão.

No filme, Dornes é Águas Altas, uma povoação sem estrada de alcatrão, mas com página na internet, que se vê envolvida na luta pela posse do domínio electrónico com uma empresa multinacional que tem o mesmo nome. A ameaça vem de Espanha e a disputa atrai a Imprensa nacional e estrangeira, transformando Águas Altas numa aldeia global e irredutível.

Margarida Carpinteiro é ‘Luísa’, uma aldeã que expulsa o marido de casa porque não concordam entre renunciar ao domínio ou defender orgulhosamente o ‘site’. “É uma história com um forte sentimento de humanidade e verdade”, adiantou a actriz.

Quanto ao marido, ‘Mário’, é interpretado por José Eduardo que avançou: “Vamos tentar tornar isto uma comédia rural, mas é importante que as personagens sejam sinceras.”

A equipa de filmagens tem sido muito bem recebida em Dornes e até o pároco local deu uma ajuda, anunciando na missa que vão ser precisos figurantes. Ontem, Maria Júlia Adevinha e Silvino Antunes, de 55 e 60 anos respectivamente, integraram o primeiro grupo. Do filme nada sabiam, mas tinham “as melhores expectativas”.

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