Sharon Dogar baseou-se no ‘Diário de Anne Frank’ para escrever ‘No Anexo’, livro centrado em Peter van Pels, um jovem que dividiu esconderijo e amou a famosa judia.
Correio da Manhã - De que forma o ‘Diário de Anne Frank' influenciou a sua vida?
Sharon Dogar - Eu tinha 12 anos e apaixonei-me pela Anne. Identifiquei-me fortemente com ela. Também eu pertencia a uma minoria étnica, pelo que sempre sonhei em me tornar escritora, à sua semelhança. O livro ajudou-me a perceber que não devemos permitir que o preconceito e o ódio dos outros definam quem somos.
- Porque decidiu escrever a obra ‘No Anexo'?
- Há tantas razões, algumas das quais sou consciente e outras que ainda estou a descobrir. Queria imaginar como um rapaz conseguiria encarar o cativeiro, ao invés de uma menina. Queria questionar e explorar a subjectividade dos diários mas, acima de tudo, queria escrever sobre o que aconteceu após o anexo. O diário de Anne é um documento importante, na medida em que nos fala sobre a vida na clandestinidade, com a constante ameaça de captura. Mas não nos conta sobre a tentativa sistemática dos nazis eliminarem uma raça.
- Escolheu como personagem central Peter van Pels.
Queria escrever sobre um rapaz. Margot (irmã de Anne) e Peter têm ambos potencial para boas personagens, por serem tão pensativos e silenciosos. O diário de Anne dá-nos informações suficientes para formar noções acerca do seu carácter, mas deixa espaço suficiente a um escritor para preencher as lacunas e imaginar.
- O que sentiu ao visitar o espaço que escondeu oito pessoas durante vários meses na Holanda?
- Fui ver o espaço numa noite de Outono. A primeira coisa que pensei foi que era muito escuro. Estive sozinha no anexo cerca de meia hora e foi uma experiência extraordinária. Durante esse período imaginei a importância dos sinos e a forma como marcavam o passar do tempo. Também consegui sentir uma forte ligação com a mãe de Peter, que ficava sempre junto à pia da cozinha. Muito do que vi foi profundamente comovente, mas não quero falar demasiado sobre isso, pois acredito ser algo que cada pessoa deva experimentar em primeira mão, sem preconceitos.
- Visitou algum campo de concentração para conseguir perceber o que sentiam os prisioneiros da II Guerra Mundial?
- Não. Pensei muito sobre se deveria visitar Auschwitz mas, no final, decidi não o fazer por vários motivos. Escrever sobre o Holocausto é desafiante e questionamo-nos sempre se é possível fazê-lo bem o suficiente. Na altura em que escrevia sobre os campos de concentração senti que uma visita poderia ser ‘esmagadora', pelo que tornaria a escrita mais difícil. Tive esperança de que as palavras dos sobreviventes fossem suficientes. Ainda penso em visitar Auschwitz. Pergunto-me se alguma vez acontecerá.
- O livro conta-nos a história a dois ritmos: cronológico e em jeito de relato das memórias de Peter após a captura pelos nazis. Porque optou por estas intercalações?
- Queria que os leitores pudessem ver os efeitos de uma tremenda crueldade exercida sobre um rapaz normal. Queria deixar claro que a vida num esconderijo foi, de facto, bastante normal, em comparação com a vivência num campo de concentração. Penso que este simples dispositivo permite ao leitor perceber como os nazis despojavam as pessoas da sua humanidade, algo que fizeram sistematicamente. Os nazis não queriam apenas eliminar os judeus (e outros) fisicamente. Queriam destruí-los mentalmente, de forma a que se sentissem inúteis antes de os matarem. Ao colocar Peter, o jovem, lado a lado com o Peter dos campos de concentração, o leitor poderá ver como a recém-formada identidade de Peter foi afectada por todo o processo: como ele é obrigado a tomar decisões impossíveis que ameaçam a sua própria humanidade, num esforço para sobreviver. Finalmente, queria envolver a razão pela qual um número de sobreviventes escolheu morrer, ao invés de permanecer vivo, e para isso é preciso mostrar a natureza da luta entre a normalidade e a loucura que foi Auschwitz
- ‘No Anexo' pode ser visto como um complemento ao ‘Diário de Anne Frank'?
- Tenho esperança que sim. Mas também pode ser lido individualmente.
- Peter está apaixonado por Liese mas, depois desta ser detida, desenvolve sentimentos por Anne. É uma reacção motivada pelo medo do mundo exterior?
- Liese foi um instrumento criado por mim para que o leitor conseguisse perceber o medo que Peter sentia pelo que estava a acontecer ‘lá fora'. Também no início do diário de Anne, Peter é acusado de ser ‘um cachorrinho perdido de amores'. Perguntei-me sobre o quê ou quem ela se estaria a referir. A trasformação acontece de acordo com o que está escrito no diário. Acontece porque Pedro está a crescer e, talvez, também porque Anne parece muito determinada a que ele não se apaixone pela sua irmã! Está bem documentado que, para alguns, o medo promove um desejo ainda mais forte de sentir. Para viver e amar antes que a escuridão caia.
- Na sua obra, Peter morre quando a ajuda militar chega ao campo de concentração. No entanto, existem registos de Peter ter morrido durante uma marcha de morte, tal como depois refere no epílogo de ‘No Anexo'.
- Há provas contraditórias quanto a este assunto. A Cruz Vermelha registou a morte de Peter van Pels no dia 5 de Maio. Há registos da sua admissão em Mauthausen, em Janeiro, e da sua entrada em quarentena. É, portanto, pouco provável que tenha morrido numa das marchas. Não refiro que ele tenha perecido assim, apenas saliento que há quem defenda essa teoria.
- O seu livro não termina no momento em que são capturados, ao contrário do ‘Diário de Anne Frank'. Porquê a decisão de continuar?
- Tal como mencionei antes, o diário de Anne não explica o que acontece depois. De alguma forma, essa é a sua maior força. Para alguém que já tenha lido, não conseguirá mais esquecer a angústia, a voz inteligente intensamente viva que parou de forma tão brusca. Ainda assim, Anne sobreviveu mais sete meses e Peter foi mais longe. É nesses meses que o verdadeiro horror do holocausto é revelado. Foi por isso que decidi continuar.
- Que mensagem pretende enviar com este livro?
Foi o que aconteceu. Poderia ter acontecido consigo ou com os seus entes queridos. E, actualmente, ainda acontece. Há locais no Mundo onde a cor, a raça ou o género continuam a ser a sentença de morte. Todos somos capazes odiar, bem como de amar, precisamos estar conscientes disso para podermos reconhecê-lo quando a sociedade apela ao nosso egoísmo, cobiça ou ódio, em vez da nossa melhor parte.
- Quanto tempo demorou a pesquisar toda a informação necessária para escrever?
- Demorei três anos a terminar a obra. Ia pesquisando ao longo do tempo, pelo que é difícil precisar quanto demorei a recolher a informação.
- No final, agradece a Barry Cunhingham por não lhe ter permitido que voltasse a guardar novamente o livro numa gaveta. Por que não o publicou antes, se estava terminado?
- Inicialmente, há cerca de 15 anos, escrevi um prólogo para o romance, antes de perceber que era um assunto demasiado extenso e desafiante. Mais tarde, após terminá-lo, os meus editores nos Estados Unidos da América rejeitaram-no. Fiquei chocada. Estava mesmo decidida a desistir de o publicar quando o Barry me disse que seria uma grande pena se tal acontecesse.
- A Sharon é psicoterapeuta infantil. A sua profissão ajudou, de alguma forma, a perceber a mente de Anne Frank e Peter Van Pels?
- Talvez. Às vezes penso que o processo de ficar enclausurada num quarto com outra pessoa está na novela, mas além disso é também um monólogo interno que todos temos dentro de nós e uma grande quantidade de experiências que os adolescentes podem ter. No entanto, todos temos imaginação e isso é tudo o que é necessário para escrever.
- O jornal ‘The Times' acusou-a de estar a tornar Anne Frank mais feminina, quase sexualmente activa. O que tem a dizer sobre esta acusação?
- É óbvio que eles não leram o livro. Suspeito que pensaram que com esse comentário iam desencadear uma ‘briga', o que lhes daria uma história para seguirem. Eu não penso muito nesse assunto
- Miep, a mulher que protegeu os oito habitants do anexo, morreu em Janeiro de 2010. Conseguiu falar com ela antes?
- Este é o seu terceiro livro. No entanto, os anteriores não se baseavam em eventos reais. Basear-se numa história real foi mais fácil?
- Foi mais fácil mas também mais difícil! Mais fácil pelo facto de ter uma sequência de eventos mas mais difícil em termos de pesquisa, bem como por necessitar de uma certa exactidão histórica.
- Está a trabalhar nalgum projecto novo?
- Desculpem, mas nunca falo sobre o que estou a escrever...
- Existe algum momento ou um local especial onde prefere escrever?
- As manhãs são o melhor momento para mim. O mais cedo possível. No meu caso, depois de levar as crianças à escola. Adoro escrever mentalmente enquanto passeio, em cafés ou na biblioteca.
- Como descreve as suas obras?
- Como questões transformadas em possíveis respostas.
- Que conselho gostaria de deixar aos jovens escritores?
- Que o façam. Que o façam já.
PERFIL
Sharon Dogar nasceu em Oxford, no Reino Unido, em 1962. 'No Anexo' (ASA) sucede a 'Waves' (2007) e 'Falling' (2009), sendo o primeiro romance que tem por base eventos reais. Descobriu o ‘Diário de Anne Frank' quando ainda era criança, voltou a lê-lo mais tarde, tendo decidido escrever ‘No Anexo' quando a filha também começou a lê-lo.
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