Sérgio Tréfaut filmou durante cinco anos um documentário na maior necrópole do mundo, habitada por um milhão de pessoas, no Cairo, Egipto. Inovador.<br/>
Correio da Manhã - Como é que conheceu esta necrópole no Cairo e decidiu filmar ali?
Sérgio Tréfaut - Um grande amigo arquitecto, Paulo Fonseca (a quem dedica o filme no final), tinha uma grande paixão por aquele lugar e chateava-me muito para fazer um filme ali. E um dia resolvi lá ir e decidi que tinha mesmo que fazer e que era um desafio para mim. Mas entre pensar que se quer e fazer-se...é brutal.
Quando foi lá pela primeira vez?
Em Novembro de 2004. E aproveitei logo para me inscrever num curso de árabe e passei logo os primeiros dez dias no Cairo a ter aulas intensivas da língua. Passado um mês voltei com o director de fotografia para captar imagens e perceber como seria a nível de autorizações. E aí começou o inferno...
Que temporadas passava lá?
Foram oito viagens e o período mais longo foi de três meses e pouco. Fui variando e vendo o que ia conseguindo fazer até poder terminar o filme.
Que dificuldades teve?
A primeira pergunta que me faziam logo era: "Você tem autorização?" Muitos egípcios tinham receio de quem chega e quer dar uma visão miserabilista do País e eles são muito nacionalistas e têm uma enorme paixão pelo seu País. E protegiam-se muito. E depois, na minha ingenuidade de acreditar que era possível obter autorizações para filmar, fiz uma via sacra de repartições públicas.
Quem é que tinha de autorizar?
Se alguém soubesse seria maravilhoso. O problema é que uns empurravam para os outros. Era muito cómico. A burocracia do tempo do Mubarak era deste estilo: um departamento do Estado numa sala com mesas de um lado e do outro, com cerca de 15 funcionários e todos a ler o jornal!
Conseguiu autorização?
Nenhuma, nada. E passadas três viagens ao Cairo - numa delas até tentei ter um dos maiores produtores egípcios comigo - decidi que era naquele momento ou não era. Eles só querem filmes sobre faraós ou pirâmides. Não queriam um filme sobre o cemitério onde vivem pessoas.
Então teve de ir ganhando a confiança dos moradores do cemitério...
Exactamente. Eu já tinha apoios financeiros. Como não filmar?
Foi um filme caro?
Oito viagens ao Cairo e várias equipas...O orçamento total ronda os 280 mil euros. Num projecto de cinco anos.
Como foi então ganhar a confiança das pessoas?
Eles começam a meter conversa, apresentam-se e depois tive de ser eu a tentar conhecer as pessoas que abririam as portas. Fui às mesquitas, falei com coveiros e guardiões dos túmulos, fiquei amigo das pessoas dos cafés que frequentei, dos polícias de serviço... A pouco a pouco, há algumas pessoas com que se cria alguma intimidade.
Mas o cemitério é muito grande...
Sim, é uma área de 10 quilómetros ou mais, uma extensão como se fosse da Expo a Algés.
É fácil entrar ali?
O Cairo é uma cidade muito tranquila, apesar do que se possa imaginar depois dos acontecimentos recentes. Há um policiamento enorme e é uma cidade que nunca dorme, sempre com supermercados abertos até de madrugada. E eu não me meti nas zonas mais ligadas à droga, por exemplo. Porque isso não era representativo daquele milhão de pessoas que vive naquele cemitério.
O filme tem uma estrutura pouco tradicional: há uma narração do coveiro, depois há os depoimentos e depois as imagens da vida de todos os dias. Foi uma estrutura pensada?
É uma mistura. Comecei por pensar em fazer um documentário observacional mas percebi que não ia funcionar porque aquele lugar carece de cometário, de explicação. Os túmulos (pintados a laranja e verde) não parecem túmulos. Aos olhos de um ocidental, aquilo não parece um cemitério. E o sistema funerário é completamente diferente do nosso, não há caixões...
Como é então?
Os mortos são transportados numa base de madeira e estão envoltos apenas num tecido branco e são enterrados assim. Há uma grande herança do tempo dos faraós e da mumificação. Passado um ano ou dois, restam só ossos. E são deitados virados para Meca, uns ao lado dos outros, todos da mesma família.
Os egípcios lidam bem com a ideia de coabitar com os mortos?
Que não se pense que o acontece naquele cemitério espelha a cultura islâmica. O Egipto tem uma cultura faraónica e cada marco no cemitério é uma entrada para um subterrâneo onde estão, de um lado, as mulheres, do outro, os homens. E aquelas casas tumulares foram construídas para os familiares visitarem os mortos. A certo momento, quando o Cairo passou de quatro para 20 milhões de habitantes ultrapassou-se um tabu e as populações ocuparam aquelas casas dos mortos no cemitério. Mas a ideia de viver ali era um tabu.
Sentem então alguma vergonha por viver com os mortos...
Sim. O que aconteceu quando o cemitério começou a ser habitado foi traumático para o Cairo. A existência de cemitérios habitados era como a existência do Casal Ventoso para Lisboa ou as favelas para o Rio de Janeiro. E ainda hoje há esse peso.
O que mais o impressionou na rodagem?
É uma surpresa existir aquele cemitério, com aquelas vivências. E o facto de eles terem uma consciência plena da finitude do corpo e, ao mesmo tempo, uma enorme espiritualidade. Há uma enorme alegria de viver e fotograficamente é um local muito bonito.
O Egipto vai ver o filme?
O filme foi totalmente clandestino no início mas hoje já há condições de mostrar lá o filme nos circuitos paralelos (centros culturais, etc), através de uma parceria entre o Instituto Camões e o Instituto Cervantes. E quero mostrar o filme aos intervenientes que vivem no cemitério. Mas a Al Jazeera quer o filme, apesar de ter de tirar algumas cenas, como a de uns jovens rapazes que vão de carro e dizem muitos palavrões... Há limitações e grandes diferenças culturais. Por exemplo, o meu professor de árabe tinha 34 anos e era virgem.
Porquê isolar uma curta-metragem ('Waiting for Paradise'), sobre os casamentos, do documentário sobre o cemitério (é exibida no final do filme)?
Porque a parte dos casamentos tinha graça sem nenhum comentário para o espectador descobrir aquela delícia com ambiente meio Astérix. E é uma forma de relaxar depois de ter visto o filme...
Ganhou o prémio de Melhor Filme no Documenta Madrid. O que representou para si?
É muito divertido para mim ganhar um festival de documentário espanhol. Importante mesmo foi ter o filme no IDFA (International Documentary Film Festival of Amsterdam), que é o equivalente ao festival de Cannes para o documentário. E este filme estreou mundialmente em competição no ITFA.
Que projectos tem em mãos agora?
Agora tenho uma ficção - ‘Viagem a Portugal' - que estreia em Junho e um documentário em produção que vai levar um ano e meio a fazer, sobre a Marceline Loridan, viúva do realizador Joris Ivens, uma sobrevivente de Auschwitz, com 80 e tal anos, 1,43 m e uns cabelos vermelhos incendiários. Tem uma sabedoria de vida que impressiona. E vê o mundo a uma certa distância e sem desencanto. E vai agora para a China filmar. A rodagem do documentário é em Paris, China e Vietname. E é a viúva do pai do documentário.
E a ‘ Viagem a Portugal'...
É o duelo entre aquelas que considero as duas maiores actrizes de Portugal: a Maria de Medeiros e a Isabel Ruth. A Maria só fala russo no filme e vão vê-la como nunca a viram até aqui. São 24 horas num aeroporto e o filme é baseado numa história real em que uma ucraniana é bloqueada e interrogada, passando uma verdadeira tortura psicológica durante um dia inteiro. É um filme simples e conceptual.
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