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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Armadas até aos dentes em fantasia de acção

Depois da dose de testoterona de ‘300’, o realizador Zack Snyder escolheu uma fantasia de acção no feminino para se estrear na escrita de um argumento verdadeiramente original. Protagonizado por cinco belas mulheres, ‘Sucker Punch – Mundo Surreal’, que chega esta quinta-feira aos cinemas, é um divertimento desmiolado, uma sátira aos filmes de acção e um jogo de caricaturas que pouco devem à contenção.

31 de março de 2011 às 00:30

Se há algo que salta à vista neste filme excessivo é a beleza plástica que define cada vez mais o estilo do realizador do complexo mas surpreendente ‘Watchmen - Os Guardiões'. Algo que agradará aos adeptos das imagens de cores fortes, planos carregados em câmara lenta, enquadramentos arrojados e muitas tentativas na arte de manipular o olhar. Aí, Snyder é um mestre.

Já no que diz respeito à história de ‘Sucker Punch - Mundo Surreal', esta é uma ‘actriz secundária', numa obra em que o que importa é o efeito-surpresa, as cenas de luta de encher o olho, o divertimento em larga escala que aposta nos mundos paralelos.

A premissa pode até parecer rebuscada, mas percebe-se onde a narrativa quer chegar num ápice. Depois de acusada injustamente de um crime, ‘Babydoll' (Emily Browning, a menina que tentava escapar às armadilhas de Jim Carrey em ‘Lemony Snicket - Uma Série de Desgraças', hoje mulher feita e platinada) vai parar a um hospício. Este é o plano real... até que, por uma questão de sobrevivência, a protagonista imagina estar num bordel de onde precisa desesperadamente escapar.

Os mundos de ficção não ficam por aqui: para conseguir elaborar o tal plano de fuga - com a ajuda de outras quatro parceiras de escapismo (Abbie Cornish, Jena Malone, Jamie Chung e Vanessa Hudgens) - a sinuosa ‘Babydoll' precisa de imaginar que está em cenários tão inusitados quanto as trincheiras da Segunda Guerra Mundial ou o aspecto lendários dos contos com dragões.

É neste ponto que o esquadrão de guerreiras se assume em toda a sua dimensão de espectáculo, caindo numa inverosimilhança digna de desenhos animados ‘anime'.

Entre a paródia a múltiplos géneros e a estilização das cenas, ‘Sucker Punch - Mundo Surreal' não perde o fio à meada. Resiste às tentativas de drama sério e limita-se a ser uma espécie de ‘Moulin Rouge' articulado com ‘Alice no País das Maravilhas' e ‘The Matrix'.

Confusos? É essa a ideia. Mais do que a linearidade, o que importa aqui é a emoção descomplexada. A euforia dos movimentos e das peripécias, num apelo aos sentidos que ora se adora, ora se odeia.

Foi uma recepção mista aquela que se fez sentir nos Estados Unidos, levando a longa-metragem a não estrear-se no primeiro lugar como muitos previam... Mas rapidamente se poderá tornar objecto de culto.

Excessivo, inclassificável e bastante desempoeirado, ‘Sucker Punch - Mundo Surreal' quer ser a polémica do ano. Vai no bom caminho.

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