Companhias e artistas juntaram-se esta sexta-feira na sede do CENA – Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual, em Lisboa, numa conferência de imprensa onde foi denunciada a situação de incumprimento contratual de Guimarães 2012 - Capital Europeia da Cultura. O presidente da estrutura sindical, Luís Pacheco Cunha, disse que uma das soluções seria interpor acção judicial.
"No ano em que a Cultura em Portugal está de luto, é lamentável ver Guimarães 2012 entre os seus coveiros", começou por dizer a actriz Carla Bolito, membro da direcção do CENA.
Em representação de Opus Ensemble, Olga Prats disse que a estrutura recebeu um comunicado da Fundação Cidade de Guimarães a dizer que não tinha dinheiro, mas ainda assim, decidiram fazer o concerto, graças a um empréstimo.
O pagamento deveria ter sido depositado na conta do Opus Ensemble a 5 de Agosto. "Foi-me dito pessoalmente pelo representante e director artístico que a culpa de não haver dinheiro é que os fundos europeus [da QREN] não tinham chegado".
Teresa Soares, de Máquina Agradável, aponta ainda outra falha da fundação que gere a Capital Europeia da Cultura. "As equipas falharam bastante, principalmente a nível de divulgação do projecto - falharam a 100 por cento - e acabámos por ter muito pouco público. Foi dada prioridade a projectos internacionais", lamentou.
João Paulo, da Avondano Ensemble, referiu que, apesar da falta de pagamento, a associação decidiu levar o concerto avante, reclamando um adiantamento para pagar despesas de transporte e alimentação. "Acho que é uma vergonha não estarem a cumprir contratos acordados com os artistas. Nós, enquanto artistas e representantes de associações que promovem concertos, acabamos por ser quem paga a dificuldade", explicou.
"Para podermos pagar às pessoas que tínhamos contratado tivemos de pedir empréstimos para poder realizar o espectáculo. Contudo, Guimarães falhou e só conseguimos pagar honorários com dinheiro privado", lamentou Mónica Garcez, da Karnart.
Tiago Guedes, de Materiais Diversos, disse que tiveram de avançar com 37.200 euros da associação, "acreditando na boa-fé da Capital Europeia da Cultura". "Mas neste momento estamos a arder. Guimarães - Capital Europeia da Cultura continua em Portugal, à custa dos artistas", salientou.
Ana Amorim afirmou que os Erva Daninha "estão a rebentar pelas costuras com a situação e dizem que irão demonstrá-lo durante o espectáculo". A representante fala de um caso polémico, como o facto de a pessoa responsável pela produção lhes ter dito que teriam de contratar um segurança para salvaguardar o material, tendo em conta que se trata de um espectáculo circense, de rua.
Luís Pacheco Cunha, presidente do CENA, relembrou que os Erva Daninha não realizarão o espectáculo em Maribor - que é a outra Capital Europeia da Cultura, e com a qual Guimarães 2012 tem uma co-produção -, por não terem meios económicos para se deslocarem à cidade eslovena.
O presidente do CENA disse que o sindicato tinha duas possíveis soluções: interpor uma acção judicial e/ou estudar formas de intervenção dos artistas em Guimarães 2012, tendo em conta que o evento "vai a pouco mais de metade da sua concretização".
Relativamente às informações prestadas aos órgãos de comunicação social sobre a situação, Luís Pacheco Cunha lamentou que a Fundação não tenha tido a preocupação em falar dos artistas, mas sim dos projectos.
O presidente do CENA refere que a dívida vai dos 2,5 milhões aos oito milhões de euros. "Guimarães não nos respondeu a nenhuma das tentativas que de contacto e elucidação das verbas em presença. Não temos forma de fazer esse levantamento de outra forma".
Por fim, Carla Bolito deixa o repto: "Estamos à espera que alguém, seja do Ministério das Finanças, seja da Fundação Guimarães da Capital Europeia da Cultura 2012, venha finalmente dizer quando acaba de vez esta falta de respeito total para com os artistas e quando querem ter uma Capital Europeia da Cultura decente".
Máquina Agradável, Materiais Diversos, Erva Daninha, Karnart, Opus Ensemble e Avondano Ensemble foram algumas das estruturas artísticas que informaram o CENA de situações de falta de pagamento.
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