Convém começar por um aviso: os dois discos que servem como "aviso à navegação" sobre aquele que é, com uma margem de erro mínima, o mais completo e entusiasmante autor e cantor da música argentina contemporânea, não se encontram no mercado português.
Mais do que lamento, valem as alternativas para chegar a estas duas antologias que valem como um retrato de Fito Paez, 40 anos, quase vinte de carreira: "Musicos, Poetas y Locos" (relativo ao seu período como artista EMI) e "Antologia" (que diz respeito à fase Warner) podem descobrir-se em "lojas" net (confirmadas: www.amazon.fr e www.discoweb.com) e justificam plenamente o investimento.
E vamos à história: nascido em Rosário, em Março de 1963, Rodolfo "Fito" Paez nunca terá pensado noutra carreira. Primeira banda aos 13, profissionalização como teclista aos 19, estreia em nome próprio aos 21. Pela parte que me toca, descobri-o mais tarde, quando o seu nome começou a "circular", como autor e parceiro vocal, de alguns dos meus heróis brasileiros. Ora de um país singularmente musical, o de Piazzolla, de Ariel Ramirez, de Atahualpa Yupanqui, da divina Mercedes Sosa, nascia a curiosidade: e os modernos? Paez, sozinho, responde à questão. Antes de mais nada, porque é um misturador descomplexado de linguagens que vão do rock às proximidades do rap (em espanhol, não deixa de ser muito curioso), da canção clássica, por vezes com arranjos orquestrais sumptuosos, às raízes do seu país, Fito é um autêntico "faz tudo". Com um pormenor que não é de mais realçar - é que faz tudo bem, variando sem truques, mostrando-se um melodista ímpar, em casos categóricos como "Y Dale Alegría A Mi Corazón", "Mariposa Tecknicolor", "El Amor Después del Amor" ou "Ciudad de Pobres Corazones".
Depois, este homem é um combatente. Capaz de se transformar num implacável guerreiro do amor (ouçam-se "Tu Sonrisa Inolvidable" ou "Fue Amor"), num nómada que aplica as suas capacidades visionárias aos locais por onde vai passando que assimila ao seu jeito ("Un Rosarino En Budapest" ou "Lejos de Berlin"), num porta-bandeira que se recusa a pactuar com os "sistemas" e com as "assimetrias" (como pode conferir-se em "Habana", "Yo Te Ame En Nicaragua" ou "Acerca del Niño Proletario"). Resumindo, não é do género alienado e fútil, mas recusa liminarmente o panfleto como arma de arremesso.
Como se disse, o percurso começou bem lá atrás, vale hoje uma dúzia de trabalhos originais (três deles em colaboração aberta: com o seu compatriota Luís Alberto Spinetta, com o espanhol Joaquin Sabina, com… Caetano Veloso) e ainda um vibrante disco de palco intitulado - e sem qualquer exagero - "Euforia"(1995).
A questão que se coloca, em tempos de globalização e de queda de fronteiras, como é possível que um talento com "coluna vertebral" como o deste notável argentino seja, para nós, um glorioso desconhecido e que, só de tempos a tempos, se descubra um qualquer álbum do homem (por norma, um dos mais velhinhos) numa ou outra loja de importação. Não poderiam as editoras nacionais, ao menos por uma vez, ter em conta este par de antologias que, em conjunto, afloram todos os trabalhos do autor? Ou, em termos mais prosaicos, alguém consegue explicar as sucessivas "tampas" a este mestre do país das "pampas"? Se calhar é apenas mais um sinal da nossa apagada e vil tristeza, diante da diferença, seja ela estética ou apenas de origem. Mas ao menos no intervalo das Ketchup ou do inenarrável Luís Miguel, não se arranjaria um espacinho?
Por falar em Argentina, o tango. Ou, para ser mais rigoroso, o Tango Nuevo de Astor Piazzolla e Osvaldo Pugliese. Ambos foram mestres de um holandês (!) de 44 anos, CAREL KRAAYENHOF, que assina "Tango Royal" (ed. Universal). Um álbum surpreendente, e, atrevo-me a dizer, sublime, com trechos em sexteto, outros com orquestra e coro, mas sempre com a alma "tanguera" a ocupar primeiro lugar. E, claro, do princípio ao fim, é o bandoneón que dá cartas. Um repouso para quem queira escapar às modas… n Disco português a que os textos de apoio aumentam a margem do prazer. Duplo: "Memórias da Guitarra Portuguesa", no primeiro, "A Guitarra do Século XVIII", no segundo (ed. Tradisom). Para o desafio - com companhias discriminadas de viola (Fernando Alvim), contrabaixo, cravo, violoncelo e violone barrocos, pedia-se um mestre: PEDRO CALDEIRA CABRAL, que vai de Carlos Seixas a Carlos Paredes, com rigor e emoção insuperáveis. Nota: as sessões foram gravadas na Igreja da Cartuxa. O som é que ganha.
Apesar da simpatia conquistada inicialmente, até pela originalidade cénica, fica-se com a sensação de ser "Namaste" (ed. Metrodiscos) um passo em falso na carreira dos portugueses BLASTED MECHANISM. Em termos simplistas, diria que eles tentaram "meter o Rossio na Rua da Betesga", carregando as canções de instrumentos e efeitos que só distraem, não acrescentam. Há ideias boas e originais: mas as originais não são boas… e as boas não são originais. Além disso, o "gimmick" das máscaras já cansa. n Mais uma "falta a vermelho": no meio das centenas de colectâneas anglo-americanas, não haveria espaço para "Pop À Paris, Psyché-Rock et Minijupes" (ed. Universal… francesa), retrato da música "ié-ié" francesa, entre 1965 e 1970? Ingenuidade, belos temas, a libertação das malhas da "chanson", um tom "retro" irresistível e uma colecção quase sem esquecimentos, de Gainsbourg a France Gall, de Michel Polnareff a Marie Laforêt. Sem esquecer uma BRIGITTE BARDOT no auge da forma. Tão divertido!
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