Quantos anos – e quantas modas, e quantos cometas, de luminosidade e calores passageiros – já vivemos desde 'Moon Safari', a aventura que veio depositar, com graça e eficácia, a França no mapa da modernidade?
Cinco, já? Cinco, só? O ponto de vista fica com quem o escolhe, mas qualquer que ele seja, já fazia falta uma continuação à altura da surpresa de 'Sexy Boy' ou de 'Kelly Watch The Stars'. E, para falar verdade, verdadinha, o 'quadrado' de edições entretanto lançado pela dupla formada por Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin não tinha, por uma razão ou outra, enchido as medidas: 'Premiers Symptomes' era, como o título indica, uma viagem no tempo, até aos primórdios; a banda sonora de 'The Virgin Suicides', com o devido respeito, ficava aquém do filme de estreia de Sophia Coppola, agora reconhecida como merece por uma generosa Academia de Hollywood; o disco em colaboração com o escritor Alessandro Baricco, 'City Reading', embora assumisse o papel de um risco, não poderia passar de um trabalho de consumo limitado; finalmente, o 'oficial' '10,000hz Legend' tinha revelado uma mal digerida paixão pela electrónica em detrimento dos sumptuosos arranjos e das melodias de pura sedução de 'Moon Safari'.
Felizmente, 'Talkie Walkie' (ed. EMI-VC) vem repor a verdade que queremos sentir para sempre colada aos Air, capazes de, como já li, agir e praticar canções "com um ouvido no passado e um olho no futuro". Aqui, a magia dos contrários impõe-se desde o primeiro momento, desde o primeiro acorde, desde os primeiros versos: "You could be from Vénus / I could be from Mars". Fica lançada a ideia de uma extrema fragilidade, entre o 'kitsch' e o 'intencionalmente puro', que há-de manter-se até final deste álbum abençoado por alguns dos melhores arranjos (com destaque para as cordas, daquele estilo "parece que nem estão lá mas, afinal, sentem-se por toda a parte", assinadas por Michel Colombier, um veterano que até foi 'compagnon de route' de Serge Gainsbourg) e por algumas das melhores soluções 'gráficas', em simbiose constante entre o acústico e o electrónico, mas sem um único sobressalto, sem nada que pareça forçado ou 'contra natura' (não será por acaso que a mistura final é assinada por Nigel Godrich, conhecido pelos seus trabalhos com os Radiohead e Beck).
De resto, se quiséssemos ficar pela rama, dir-se-ia que 'Talkie Walkie' é um disco escorreito e variado, capaz de surpreender até nos belíssimos instrumentais que, por uma vez, não são tratados como 'enchidos'. Se 'Cherry Blossom Girl' é – sem 'vocoders' a atrapalhar – a digna herdeira de 'Sexy Boy', se o segundo êxito será quase sem margem de erro a mais mexida 'Surfing On A Rocket', as pérolas multiplicam-se: da dolência de 'Biological' ao jogo infantil de 'Run' (com coros que oscilam entre os 10CC e Enya), passando por um espantoso 'Universal Traveler' (em que, valha-me Deus!, até descubro um aroma distante a Afonsinhos do Condado, imagine-se), este é um daqueles álbuns que vai demorar até cansar, que nos faz acreditar na inesgotável imaginação do "baralha e volta a dar", que é um complemento elegantemente directo à amargura de Maximilian Hecker ou ao tom rústico de Joseph Arthur. Não o percam, por razão alguma, que há por esta banda uma linha directa e exclusiva com a mais pueril e surpreendente música da actualidade. Francesa, para quem não se lembre…
É, logo ao primeiro julgamento, matéria-prima para aperfeiçoar nas 'cenas dos próximos capítulos', de forma a evitar algumas soluções mais corriqueiras e que fazem parte do 'déjà-entendu'. Mas há um charme, uma elegância e uma alma em 'Eternal Première' (ed. Zona Música), do duo NICORETTE, de cepa nacional. Bons 'beats', boas ideias, alguns delírios musicais ('L'Afrique', 'Windtalker'), algumas provas de total entrega vocal ('Nana', 'Miss Daisy'). Apetecível: só falta crescer e multiplicar.
Para a semana dos novos portugueses, acrescentem-se, também com aplauso o nome THE ULTIMATE ARCHITECTS e o registo do seu primeiro EP, 'Elevata' (ed. Musicactiva). Quatro canções, mais um 'remix' de 'Neon Moon' chegam como cartão de visita de uma banda que aparece a dominar a electrónica – e, finalmente!, a não se deixar dominar por ela. Há muito New Order nestes ouvidos, mas as canções valem por si mesmas. Falta: melhorar voz e manter força. O resto, a base e o conhecimento, já aqui mora.
Decididamente, nem sempre o DVD, mesmo que dedicado à memória, consegue salvar aquilo que, uma dúzia de anos depois, se percebe que era realmente inconsistente e fugaz. Acontece, de forma flagrante, com 'Live Baby Live' (ed. Som Livre), dos INXS, gravado em Wembley ainda nos anos de glória de Michael Hutchence. Mas o que fica, mesmo? As canções do costume ('New Sensation', 'Mystify', 'Suicide Blonde', 'Need You Tonight' e pouco mais), um 'show' insuficiente. Nada a fazer para dar a volta...
Outro enorme, rotundo e quase dramático equívoco, o que é protagonizado por SARAH CONNOR no DVD 'Pop Meets Classic- Live In Concert' (ed. Sony Music): a cantora alemã que mais se aproxima do sexo explícito nas letras de alguns dos seus êxitos decide ampliar o público-alvo e alterar a imagem. Tenta fazê-lo com uma orquestra de 35 peças e com uns quantos 'standards', de Gershwin a Bacharach. E é o desastre completo, só piorado pela banalidade uma entrevista que não merecia ver a luz do dia…
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