page view

BENDITO E LOUVADO O CONTO CONTADO

António Fontinha, o primeiro português contador de histórias profissional, é há sete anos encarado com desconfiança, mas tem hoje a agenda cheia...

19 de agosto de 2002 às 21:20

Correio da Manhã - Termina sempre os contos com esta frase: ‘Bendito e louvado o conto contado’. Porquê?

António Fontinha - É uma forma de fechar o conto, uma porta de saída. O "Era uma vez" é a única convenção de entrada de contos que sobreviveu até aos nossos dias mas formas de fechar há ainda algumas: "Bendito e louvado o conto contado" é da zona a norte do Tejo e interior. Foi a que escolhi mas está incompleta. "Bendito e louvado o conto contado e quem não se levantar tem o cu cagado", era assim que se dizia e significava que a história era de terror e as pessoas tinham sentido medo, logo, o contador tinha sido bem sucedido. Para lá do Guadiana a fórmula é outra... "E a esta hora ainda lá estarão a comer pão com melão" ou "Vitória, vitória acabou-se a história".

- O acto de contar faz sentido nas sociedades modernas?

- É importante pensar que o acto de contar tenta recuperar um espaço perdido mas necessário. Só não sabemos bem como será esse espaço nas sociedades futuras. Dou um exemplo palerma: quando cheguei de África, onde não tinha televisão, fiquei fascinado pela 'caixa'. A série de que mais gostava era "Espaço 1999".

Fazia contas e achava que todas aquelas coisas chegariam quando eu tivesse 30 e tal anos. Afinal já passaram três anos dessa data e não só nunca fui à Lua como a realidade não é nada daquilo que a série fazia prever. Sou contador de histórias e nunca vi um filme de ficção científica com um contador de histórias... Isto significa que a sociedade moderna está em transformação e muito rapidamente...

- Quando e como começou a contar histórias?

- Comecei a contar histórias por acaso há dez anos. Nasci em Lisboa e com dois meses fui para o interior de Angola, onde vivi até aos oito anos, num ambiente nada comunitário. Voltei para Portugal e fui viver para Oeiras. Era, portanto, completamente urbano, nunca tinha ouvido falar de histórias até começar a contá-las. E isso aconteceu porque trabalhava com crianças, como animador cultural no Colégio da Bela Vista, ao mesmo tempo, era actor. Quando decidi definir o meu futuro, optei pela carreira de actor. Mas tinha um relação boa com os miúdos e, apesar de cortar com o emprego, não consegui cortar com eles. Passei a ir lá visitá-los à noite e nas folgas, conversávamos e os mais pequenos pediam uma história. Descobri que o acto de contar histórias tem um encanto extraordinário para os outros e também para mim.

- E apelar à memória dos idosos não é também uma proposta interessante?

- É, mas a memória pode ser muito dolorosa. Imagine que estou a fazer uma sessão num lar em Lisboa e, de repente, estou a fazer lembrar-lhes a terra onde nasceram, o tempo que já passou, o sítio onde estão e de que, se calhar, não gostam!

- Tem razão, esse confronto pode ser cruel…

- É preciso ter-se muita atenção quando se trabalha com idosos. Fiz uma série de experiências com eles mas o que mais me anima agora fazer é a recolha dos contos. Estive em Trás-os- Montes há pouco tempo, em dez freguesias do concelho de Alijó, para uma recolha sistemática junto dos mais velhos. Desse trabalho resultaram dez CD.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Exclusivos

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8