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Correio da Manhã

Cultura

BRASILEIRINHO: O MAIS MUSICAL DOS DIMINUTIVOS

Depois do marasmo, o renascimento. Depois da infelicidade, o reencontro com a paz de espírito e o talento próprio. O mais recentre trabalho de Maria Bethânia, ‘Brasileirinho’, é tudo isso e mais alguma coisa que só a própria cantora conseguirá explicar.
4 de Outubro de 2004 às 00:00
Para já os factos conhecidos é que Bethânia trocou de editora e reencontrou o prazer de voltar a gravar discos sem a pressão natural exercida por um contrato discográfico com uma multinacional. “Eu estava infelicíssima lá, sem incentivo nenhum. Pensava em não fazer mais nada, nunca mais”, confessa.
O facto é que a troca de editora concedeu-lhe liberdade de movimentos. Pela primeira vez, desde 1971, Bethânia voltou a gravar ao vivo, com mais três músicos, “sentados em estúdio, lado a lado”, hábito que nas práticas industriais recentes foi substituído pela gravações separadas.
E assim nasceu ‘Brasileirinho’, um disco que inicialmente era fechado sobre a temática e a referência dos índios e que com o tempo acabou por se abrir ao Brasil inteiro, muito graças à ajuda de Chico César que ajudou Bethânia na escolha do repertório.
Embora revele uma cantora de alma renovada como há muito não se via (até a voz parece que ganhou num fulgor), ‘Brasileirinho’ avança de novo pela religiosidade à semelhança do que tinha acontecido com o álbum anterior lançado no início do ano passado, ‘Cânticos, Preces, Súplicas à Senhora dos Jardins do Céu’.
Com canções dedicadas aos santos Antônio, Jorge e João, o novo disco de Bethânia inicia com uma mistura de uma canção de Gerônimo e Ildásio Tavares, ‘Salve as Folhas’ e conta com o tema ‘São João Xangô Menino’, uma composição que Caetano Veloso e Gilberto Gil escreveram para o grupo Doces Bárbaros que outrora reuniu Bethânia e Gal.
Sendo provavelmente um dos mais espirituais discos da irmã de Caetano Veloso, ‘Brasileirinho’ é simultaneamente um hino à poesia popular, abrindo com um poema de Mário de Andrade e encerrando com um trecho do conhecido ‘Pátria Minha’ de Vinicius de Moraes. ‘Brasileirinho’ é só diminuitivo por ironia. Na verdade é um disco grande, tão grande quanto a própria Maria Bethânia.
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