Luís Buchinho diz que nunca pensou desistir da profissão, mas chegou a ter de "reequacionar as coisas".
O amor pelas ilustrações despertou a atenção de uma professora que 'obrigou' Luís Buchinho a seguir design de moda. O criador, hoje com 25 anos de carreira, cedo apurou a visão comercial para que as coleções não morressem num caixote.
Em entrevista à agência Lusa a propósito das bodas de prata como criador, Luís Buchinho - que na quinta-feira apresenta a coleção para o próximo outono/inverno no 36.º Portugal Fashion - não consegue eleger o momento mais marcante de uma carreira que nasceu da paixão pelas ilustrações e pela banda desenhada, porque "o fenómeno mais recente é sempre aquele que está mais presente".
Quando se lhe pede para entrar na máquina do tempo e relatar o motivo que o fez escolher esta profissão, o designer não faz qualquer esforço e recorda que com 15 ou 16 anos "já desenhava muito a partir de livros de banda desenhada e através de capas de discos", começando a ver nas revistas de uma namorada que tinha na altura "as primeiras imagens de moda", que, confessa, o seduziram imenso.
As ilustrações criadas a partir dos editoriais "começaram a circular nas aulas" e a sua professora de arte e design, Isabel Cunha, "achou que era uma vocação que estava muito latente" e praticamente o 'obrigou' a concorrer ao CITEX - atualmente Modatex -, onde se formou em design de moda.
Nascido em 1969 em Setúbal, mas desde os 16 anos a viver e a respirar o Porto, Buchinho assegura que nunca pensou em desistir da profissão, mas chegou a ter de "reequacionar as coisas" aos 22 anos, quando, depois da terceira coleção, estava "falido e não tinha dinheiro para mais nenhuma" apresentação em passerelle.
"Não queria desistir e então a parte comercial falou muito mais forte e eu percebi que não podia estar continuamente a amealhar dinheiro para conseguir fazer coleções para desfile que depois morriam dentro de um caixote", confessa.
Para o estilista, que já recebeu diversos prémios, "a moda não 'fala' enquanto não estiver na rua e não pode ser um fenómeno exclusivamente de passerelle". Há grandes marcas, por exemplo, cujo "fenómeno de admiração vem porque há um capital financeiro muito alto", apontou.
Sobre o processo criativo, o designer de moda partilha que as coleções que desenha são sempre uma metáfora daquilo que está a viver a nível pessoal. "[A metáfora] é sempre encontrada, nunca é literal, e de certa maneira vai ao encontro do público, que não tem que perceber a minha história, mas sim a história da coleção, e geralmente é algo que, semestre após semestre, se muda", explicou o estilista, referindo que o tema da coleção para a próxima estação quente ainda não está definido.
Presença constante desde a primeira edição do Portugal Fashion, há duas décadas, Luís Buchinho considera que "muita coisa mudou", sobretudo em termos comerciais, desde um arranque em que todos no setor começaram "muito verdes, muito novos e num panorama muito estéril".
Atualmente o criador admite que consegue "desenhar de uma maneira mais objetiva e mais clara" e entende que as suas coleções "conseguem ter uma mensagem única do primeiro ao último coordenado".
Feito o balanço sobre os 25 anos de carreira, Buchinho não se atreve a fazer prognósticos sobre o futuro enquanto criador: "Penso muito no presente porque fazer mais e melhor agora tem sempre consequências no futuro, que são uma mais-valia em relação àquilo que eu tinha há um ano. Prefiro continuar com esta doutrina".
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