A notícia caiu como uma bomba na comunidade artística mundial: toda a gente sabe que Andy Warhol não participava directamente na realização de muitas obras de arte que depois assinava como suas. Era o seu método de trabalho no estúdio que fundou e tornou famoso, The Factory.
Mas agora a Comissão de Avaliação encarregue de autenticar o trabalho do artista – por muitos tido como o ‘pai’ da Pop-Art – ‘decidiu’ que tudo aquilo em que ele não interveio directamente não deve ser considerado autêntico.
Isto, é claro, não agradou minimamente aos coleccionadores, que, de um momento para o outro, se viram na posse de trabalhos que, contas feitas, valem pouco mais do que nada.
Um dos mais lesados foi o produtor de cinema Joe Simon, que possui diversas obras de Andy Warhol, entre as quais um auto-retrato que há 14 anos lhe custou cerca de 195 mil euros e que agora a Comissão garante que não tem qualquer valor.
ÁGUA NA FERVURA
Com os ânimos a ficarem exaltados, um dos advogados da Comissão de Avaliação já veio tentar minimizar a questão. Diz ele que basta que Warhol tenha supervisionado a obra – ou que a tenha assinado – para que esta seja considerada autêntica.
“Se Andy Warhol teve a ideia e mandou alguém executá-la, se supervisionou o processo de produção e se, no fim, assinou o trabalho, é porque a obra é sua. É tão simples quanto isto”, garantiu.
O que fica de fora, são aquelas obras feitas ‘à maneira’ de Warhol, se calhar até no seu estúdio mas sem o conhecimento ou a sua supervisão. Ou as obras imprimidas a partir de acetatos originais mas por pessoas que o artista nem sequer conhecia.
A questão, agora, é, portanto, a de separar o trigo do joio – o que não se oferece como tarefa fácil, até porque todos aqueles que agora se consideram directamente lesados em milhares de euros já anunciaram que, obviamente, não tencionam ficar de braços cruzados.
São eles cerca de 20 negociantes e coleccionadores de obras de Warhol que se juntaram para defender os seus interesses e garantem que vão levar o caso até às últimas consequências, ou seja, o tribunal.
IRONIA DAS IRONIAS
Entretanto, de acordo com os jornais ‘The Independent’ e ‘Sunday Telgraph’, até ao momento a Comissão de Avaliação já questionou a autenticidade de 15 por cento das obras de Warhol que lhe passaram pelas mãos.
O mais irónico da questão – e que os especialistas não se cansam de sublinhar – é que Andy Warhol sempre contestou a obsessão ocidental com a ‘originalidade’ da obra de arte.
E foi precisamente para contestar essa noção que ‘inventou’ a produção artística em massa.
As famosas latas de sopa Campbell ou os retratos de Marilyn Monroe, de Elizabeth Taylor e de Elvis Presley – todos produzidos em série no ‘atelier do ‘génio’ – representaram grandes machadadas no mundo artístico do século XX e obrigaram os especialistas a repensar todas as teorias sobre a arte existentes até à altura.
E no entanto, apesar de haver centenas de ‘Marilyns’ e centenas de latas de sopa Campbell, cada uma vale, respectivamente, 15 mil e 14 mil euros...
Com polémica ou sem ela, o facto é que a Comissão de Avaliação está a elaborar uma lista de todos os trabalhos de Andy Warhol para – depois de serem devidamente reavalidados – serem incluídos num catálogo definitivo das obras do artista. Ou seja, dezasseis anos depois da sua morte, o homem das latas de sopa continua a mudar o mundo da arte.
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