Disco de Outono, para ouvir sem pressa e(...) para ir descobrindo canção a canção, ‘Life in Slow Motion’ será um álbum de consulta, um ‘case study’.
Para a maioria, nestes casos infelizmente dominante, porque pouco desperta para a aventura, David Gray nasceu em ‘White Ladder’, o álbum que em 1999 o retirou do limbo e o colocou como um dos fenómenos comerciais da música das Ilhas Britânicas – até hoje, por razões territoriais difíceis de entender, é o álbum mais vendido de sempre na Irlanda. E convém lembrar que eles têm por lá uns rapazes chamados U2…
Acontece que ‘White Ladder’ já era o quinto álbum deste moço nascido em Manchester e que juntamente com o seu sucessor, ‘A New Day at Midnight’, contabilizam seis milhões de cópias vendidas. Por curiosidade, há mais de uma década já Gray era editado em Portugal, através de ‘Flesh’ (1994). Mas havia muita gente distraída, demasiado colada aos ‘tops’ internacionais, para anotar a chegada deste arquitecto de canções simples e intimistas, quase rústicas, gravadas sem tiques nem truques, em estúdios que o próprio comparou a quartos de dormir.
A hora da mudança chega com ‘Life in Slow Motion’, disco que envolve outros meios e outros poderes – a começar no produtor Marius de Vries que, entre outros, já trabalhou com os U2 e com Madonna. Reacção imediata: estragou-se, perdeu-se na teia dos grandes orçamentos. Felizmente para a música, nada disso acontece. Bem pelo contrário: a utilização de ondulantes cordas em três canções e de pujantes naipes de metais em duas nunca faz tangentes à ‘pompa e circunstância’. Os sinos, o violoncelo, a melódica, os efeitos de guitarra, salpicados pelo disco, nunca surgem como um exagero estético.
Partindo desta constatação, quase apetece assegurar que o disco já está ganho: porque o forte de Gray esteve sempre na composição, aqui menos autobiográfica e menos ‘huis clos’ mas sempre tocante. Basta passar em revista ‘The One I Love’, ‘Lately’, ‘From Here You Can Almost See The Sea’, ‘Ain’t No Love’ e ‘Now and Always’ para ficarmos diante de pequenas pérolas, tão despretensiosas como genuinamente brilhantes. Agora, com uma vantagem: a multiplicação de meios permite que cada uma, embora cumprindo o seu papel no todo, ganhe mais vida própria, mais autonomia, até pela eficácia e riqueza dos arranjos.
Há aqui uma entrada que faz lembrar Coldplay? E ali um piano que parece evocar os melhores momentos de Elton John? Há passagens em que Gray parece atravessar o Atlântico para ir beber o elixir da eterna juventude de Bob Dylan? E será que Gray já faz escola, se nos lembrarmos do notável álbum de estreia de James Blunt? Tudo isto será difícil de desmentir. Mas, pelo espírito e pela perenidade das canções, pela utilização sem poupanças que faz da sua voz (cfr. a genial ‘Lately’), se precisasse de lhe nomear um ‘padrinho’ escolheria Van Morrison sem a menor hesitação.
Disco de Outono, para ouvir sem pressa e – com esta abertura de horizontes – para ir descobrindo canção a canção, ‘Life In Slow Motion’ será um álbum de consulta, um ‘case study’. Para demonstrar o que pode valer um crescimento sustentado. E feliz.
A música deste CD é assinada por três compositores (Handel, Scarlatti e Antonio Scaldara), nascidos no século XVII e falecidos no seguinte. Coincidiu em cheio com a época em que Roma – o Vaticano – interditava a ópera, levando os músicos a disfarçar tudo de ‘oratórios’. Em ‘Opera Proibita’ percebem-se bem as fintas à ‘censura’ e a grandeza destes trechos. Que, ainda por cima, estão entregues à melhor soprano da actualidade: CECILIA BARTOLI. Atenção: é a primeira gravação mundial destes temas.
Em Inglaterra, a edição é limitada e está agendada para amanhã. Mas algum privilégio tínhamos de manter: por cá, já está disponível a edição em CD de ‘Amigos em Portugal’, a histórica gravação de Vini Reilly – que é como quem diz THE DURUTTI COLUMN – em Paço d’Arcos, publicada originalmente pela Fundação Atlântica. Tempos gloriosos, próximos de ‘LC’ e ‘Another Setting’, com as guitarras de Reilly em plena forma. Vale para coleccionadores, mas é válido para quem queira apenas ouvir boa música.
Já aqui escrevi o que penso sobre a ressurreição dos QUEEN com PAUL RODGERS no lugar que é (será sempre) de Freddie Mercury – em causa estão exclusivamente as contas bancárias dos sobreviventes e do neófito. ‘Return Of The Champions’, CD duplo, serve apenas para adensar a ideia do golpe do baú, misturando os hinos do grupo residente com canções dos grupos por onde passou o recém-chegado (Free, Bad Company). Experimentem ouvir ‘Bohemian Rhapsody’ e ‘Radio Ga Ga’. Encontramo-nos nos originais.
O próprio autor define o álbum como ‘atípico’ – quem sou eu para o contradizer? MARTIN SOLVEIG é um mocinho que gosta de alternar as funções de compositor, produtor e ‘disc-jockey’ e que experimenta as duas primeiras em ‘Hedonist’. Sem grandes resultados: entre a electrónica, a dance, o funky e o disco, a coisa fica sempre a meio caminho. Curta para ser convincente. Longa para ser conveniente. Falta refrão onde sobra maneirismo. As diferentes vozes não ajudam à fixação. Acto falhado.
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