Hoje, o cinema de animação é uma galinha de ovos de ouro. Que o diga a Walt Disney. Atemorizada pela concorrência feroz da DreamWorks – a companhia de Steven Spielberg agora parte do Grupo Viacom – e para continuar na liderança do mercado, comprou por 7,4 mil milhões de dólares a Pixar, sua parceira na última década.
‘Pular a Cerca’, se comparado com ‘Carros’, confirma diferenças essenciais entre as abordagens. Os filmes da DreamWorks tendem a ser cómicos de uma forma muito temporal, para agradar à maioria de público num dado momento. A mensagem moral é, normalmente, atirada no último minuto, quando todas as piadas já foram usadas. É o caso do conceito de família que o guaxinim RJ aprende.
Os filmes Disney/Pixar são feitos para durar no tempo e oferecem lições de vida que não se desenvolvem ao longo da comédia. Tal não faz com que sejam melhores. Simplesmente, diferentes. E essa diferença tem sido, nos últimos anos, o palco de uma luta cada vez mais intensa, com vitórias e derrotas contabilizadas:
0-1 – O gongo do primeiro ‘round’ soou três anos após o inovador ‘Toy Story’ (1995) ter introduzido ao público a animação por computador em todo o seu esplendor. A Pixar tentou repetir o êxito com ‘Uma Vida de Insecto’, mas soube a ‘déjà-vu’. A DreamWorks lançara-se antes na corrida com uma certa ‘Formiga Z’.
1-1 – A Pixar chama Woody, Buzz e companhia para uma sequela, enquanto o rival confia na animação tradicional de ‘O Príncipe do Egipto’. Foi K.O. dos brinquedos a Moisés logo a abrir.
1-2 – A DreamWorks associa-se à Aardman e seus bonecos de plasticina a tempo de partilhar o sucesso de ‘A Fuga das Galinhas’ e faz subir ao ringue um ogre verde chamado Shrek. Nos Óscares 2001, que pela primeira vez incluem a categoria de filme de animação, a vitória sobre ‘Monstros e Companhia’ é unânime.
2-2 – A Pixar acredita num pequeno peixe-palhaço e Nemo bate recordes e diz as Sinbad quem é o verdadeiro rei dos setes mares.
3-2 – O contra-ataque surge com ‘O Gang dos Tubarões’ e a sequela de Shrek, resposta à altura que, no entanto, não resiste a ‘Os Incríveis’ nos Óscares 2004.
3-3 – A Aardman, com ‘Wallace e Gromit: A Maldição do Coelho-Homem’ oferece o Óscar à Dream-Works, enquanto ‘Madagascar’ convence.
‘Carros’ obteve mais receitas do que ‘Pular a Cerca’, mas não conseguiu o entusiasmo dos predecessores. ‘Ratatouille’ será, brevemente, a resposta animal da Pixar a RJ e companhia, mas o grande combate está marcado: ‘Toy Story 3’ contra ‘Shrek 3’. É de pesos pesados!
JOHNSON SOUBE ESPERAR
Poucos realizadores podem juntar Woody Allen, Brad Pitt e Bruce Willis no currículo, mas é o caso de Tim Johnson, depois de ‘Formiga Z’, ‘Sinbad – A Lenda dos Sete Mares’ e ‘Pular a Cerca’, filmes aos quais os actores deram as vozes. Confesso fã da tira de banda desenhada (publicada desde 1995 em inúmeros jornais nos EUA) que dá origem à última obra, Johnson teve de esperar para adaptar ao cinema os personagens criados por Michael Fry e T. Lewis.
A opção foi comprada por outro estúdio que, no entanto, deixou passar o prazo para o início de produção, até que a DreamWorks entrou em cena, comprou os direitos e desenvolveu o projecto.
MODELO ERA O DETECTIVE
Bruce Willis foi convidado para dar a voz ao guaxinim RJ depois de abortada a opção Jim Carrey. Não é a primeira vez que o actor interpreta através do som sem dar a cara. Fizera-o em ‘Olha Quem Fala’ e em ‘Olha Quem Fala Também’ e na animação, em ‘Beavis and Butt-Head Do America’ e ‘Rugrats Go Wild’. Descobrir o tom certo para ‘Pular a Cerca’ foi tarefa difícil... “Sentia-me assustado porque não tinha ideia se estava a ter piada. Até que um dia alguém me sugeriu, casualmente, para fazer como David Addison.” E assim, recorrendo ao carácter do seu personagem na série ‘Modelo e Detective’, Willis descobriu o modelo para o malandro RJ.
É uma comédia de burlesco, como se os velhinhos ‘Keystones Cops’ do cinema mudo se transformassem em animais e passassem de perseguidores a perseguidos. As lições de vida que normalmente este tipo de filme apregoa são resumidas ao essencial e não entopem a acção trepidante, o motor do enredo. Combinação perfeita: um esquilo e cafeína.
Como acontecia em ‘A Idade do Gelo’ com Scratch e a sua bolota, os personagens secundários tendem a roubar a atenção e, neste caso, é o esquilo Hammy quem expõe a fragilidade das duas figuras principais. É um filme para crianças que tenta seduzir o sector adulto mas, se os pais estão garantidos à partida, terá mais dificuldades em convencer os solteiros.
Título original: ‘Over The Hedge’
Realizadores: Tim Johnson e Karey Kirkpatrick
Argumento: Len Blum, Lorne Cameron, David Hoselton e Karey Kirkpatrick
Vozes (no original): Bruce Willis (RJ), Garry Shandling (Verne), Nick Nolte (Vincent) e Avril Lavigne (Heather)
O esquilo Hammy, candidato a personagem mais ternurento, a dada altura sugere que a cerca de arbusto se chame Steve, dizendo que “Steve é um nome giro”. Hammy tem a voz de Steve Carell.
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