Autora esteve em Lisboa a promover 'Remédios Literários – Livros para Salvar a sua Vida de A a Z’.
Ella Berthoud esteve em Lisboa a promover o livro ‘Remédios Literários – Livros para Salvar a sua Vida de A a Z’ (Quetzal), uma obra que dá continuidade às consultas de biblioterapia que dá em Londres desde 2008. A ideia é que, para qualquer mal que nos aflija, já um livro que pode ajudar…
Eu e a Susan [Elderkin] também achávamos que sim, no princípio. Achávamos que tínhamos inventado o conceito. Mas depois começámos a investigar, e chegámos à conclusão de que afinal não éramos assim tão geniais [risos]. A ideia vem de Platão, embora de forma diferente… Platão falava do efeito catártico do teatro, da poesia e, de uma forma geral, das histórias. Também houve uma experiência durante a Segunda Guerra Mundial… Alguns médicos recomendavam livros da Jane Austen aos seus pacientes traumatizados.
Sim. Acho que consideravam que eram livros tranquilizadores… Que faziam os pacientes pensarem nos seus lares, em Inglaterra, num mundo mais calmo, a quilómetros de distância do campo de batalha. A ideia de fazer biblioterapia foi usada nessa altura, na década de 50. Depois voltou a ser usada na década de 60, com crianças: alguns psicólogos recomendavam determinado tipo de livros a jovens com problemas. Portanto, a ideia tem andado por aí…
E as pessoas pagam mesmo para que a Ella e a Susan lhes recomendem livros para "ficarem melhor"?
Sim, sim. É incrível, não é? E não pagam tão pouco quanto isso. Uma consulta de uma hora custa 100 libras [cerca de 129 euros]. Damos as consultas na School of Life (literalmente, a Escola da Vida), fundada por Alain de Botton, em 2008, em Bloomsbury, Londres. Na verdade é uma loja situada no coração de uma das partes mais encantadoras da cidade, onde se faz toda a espécie de cursos para a mente.
E em que consiste a sessão de biblioterapia?
É muito intenso. Quando alguém se inscreve como cliente, para fazer biblioterapia, enviamos-lhe um questionário. Deve responder a questões como: o que costuma ler; porquê; em que sítios costuma fazê-lo; como gosta de ler; com quem gosta de ler; qual foi o último livro que leu e adorou; qual foi o último livro que começou a ler e abandonou; as razões porque o fez… Tudo isso. Depois, há uma parte de perguntas pessoais: se a pessoa é casada, solteira, viúva ou divorciada; se tem filhos; que problemas tem na sua vida; se está com vontade de fazer uma mudança radical… Depois, lemos as respostas e marcamos um encontro com a pessoa. Um encontro de uma hora, ao longo da qual abordamos todos esses assuntos, de forma mais pormenorizada, e no fim damos à pessoa uma recomendação. Que leia um livro que será o ideal para ela.
Sim, mas também lhe enviamos uma lista com outros seis, explicando as razões da recomendação. Não é só uma lista, há uma explicação "médica", se quiser. Também discutimos muito com os clientes os seus problemas com a leitura, porque hoje em dia as pessoas queixam-se da falta de tempo e de disponibilidade para ler. Ou porque estão ocupadas, ou distraídas com a internet… Discutimos formas alternativas de ler, como fazer sessões de leitura em voz alta com o parceiro, ou ouvir audiolivros… Sugerimos sempre que tenham um bloco onde apontam os títulos dos livros que vão lendo, para que não se esqueçam deles. Há muitos conselhos a dar a quem quer ler. Finalmente, fazemos acompanhamento do processo por mail. O preço da consulta também inclui conversas electrónicas sobre a experiência.
E resultados? As pessoas que vos consultam sentem-se melhor depois de lerem os livros recomendados? Ficam ‘curadas’ dos seus problemas?
Os resultados são muito positivos. Não há propriamente uma ‘cura’ – todos os problemas são uma realidade dinâmica – mas as pessoas sentem-se mais aliviadas. E algumas das que nos procuram fazem-no pela simples razão de que gostam, e precisam, de falar de livros. Ficam contentes só com o facto de lhes recomendarmos novos livros para ler.
No livro, os problemas elencados são curiosos: desde a solidão à depressão ou à ansiedade; passando por situações de divórcio ou da saída de casa dos filhos. Imagino que também recorra aos livros para se sentir melhor?
Desde que comecei a ler, aos cinco anos. E depois tornou-se muito claro, para mim, que era o que estávamos a fazer, eu e a Susan, a partir do momento em que nos conhecemos na Universidade de Cambridge. Oferecíamos livros uma à outra quando andávamos tristes, quando sofríamos um desgosto de amor, quando enfrentávamos uma crise existencial e não sabíamos o que fazer com o nosso futuro. Deixávamos um livro à porta uma da outra. A certa altura percebemos o que estávamos a fazer: estávamos a usar a ficção como uma forma de terapia. Primeiro era inconsciente, mas depois começámos a falar disso abertamente. Decidimos que sermos ‘médicas de livros’ era uma ideia fantástica.
Quanto tempo passou, desde o momento em que tiveram a ideia até a porem em prática?
Dez anos. Porque entretanto a Susan tornou-se romancista, eu tornei-me pintora. Nesses dez anos fomos felizes nas nossas profissões, mas mantínhamos o projeto em banho maria e de vez em quando falávamos disso. Até ao dia em que nos encontrámos por acaso com Alain de Botton, que conhecíamos vagamente de Cambridge, e ele estava a dar os primeiros passos com a Escola da Vida. Fizemos-lhe a proposta e ele achou a ideia ótima. Foi assim que tudo começou.
Fale-me de um livro que tenha feito uma grande diferença na sua vida.
Provavelmente aquele que mais me afetou, e do qual falo constantemente, é ‘Jiiterburg Perfume’, do Tom Robbins. É um autor americano que escreveu sete ou oito livros, incluindo ‘Até as Vaqueiras Ficam Tristes’, que inspirou o filme. Uma mistura entre Thomas Pynchon e Carl Hiassen, que juntam diversão e sabedoria. ‘Jiiterburg Perfume’ é a história de um homem que procura, e encontra, a imortalidade. Li-o com 18 anos, que é a idade certa para o fazer, mas voltei a lê-lo depois.
Não receia que um livro que tenha tido tanto impacto deixe de lhe dizer seja o que for, quando o volta a ler, anos depois?
Sim, mas acho que devo revisitá-lo mesmo correndo esse risco. O outro livro ao qual volto repetidamente é ‘Metamorfoses’, do Ovídio, que recomendo vivamente. É um livro que nos reconforta relativamente à ideia de mudança e de morte.
Estudou em Cambridge. No entanto, não recomenda apenas alta literatura às pessoas. E não lê apenas alta literatura…
É verdade. Como leitora sou omnívora. Leio desde David Foster Wallace até Jojo Moyes, portanto basicamente tudo, desde o mais difícil ao mais leve. E acho que é saudável. Há momentos em que precisamos de alimentar o cérebro com os escritos de Fernando Pessoa, outros em que só queremos mergulhar num thriller de leitura compulsiva, daqueles que não conseguimos largar até às tantas da madrugada. O ideal é ter as duas experiências ao mesmo tempo. No meu caso, acrescento-lhes ainda os audiolivros, sobretudo das leituras mais leves, porque os livros, se forem muito bem escritos, perde-se a beleza das palavras ao ouvi-los.
Leu todos os livros que recomenda neste manual?
Sim, todos. É um compêndio de tudo o que lemos, eu e a Susan, desde a adolescência. Portanto, estão lá os livros da Jane Austen, do Thomas Hardy e da Daphne du Maurier, que lemos aos 14 ou 15 anos, e as coisas mais recentes. Foi muito fácil chegar aos títulos que queríamos recomendar. Começámos com 700, mas tivemos de reduzir para 500, senão o livro tornar-se-ia impossível de manusear. Mesmo no fim, houve um livro acrescentado à última hora: tinha acabado de ser foi publicado e respondia à ‘cura’ para a calvice. Foi o ‘Sun Dog’, da Monique Roffey.
Como encontraram recomendações para todos os males? Até a calvice?
Para alguns problemas mandámos mails aos nossos amigos e conhecidos. Pedimos conselhos a escritores como Geoff Dyer, Patrick Gale ou Louisa Young, ou a intelectuais de Cambridge. Muitos também vieram dos nossos clientes. Quando começámos a preparar o livro, em 2011, já tínhamos uma lista de obras que as pessoas diziam ter ajudado nesta ou naquela situação, porque tínhamos tirado imensas notas. Qual é o melhor livro para ler quando a nossa mãe tem cancro, por exemplo. Coisas assim…
Nesta lista de livros recomendados, também estão autores portugueses. Também leram Agustina Bessa-Luís ou Júlio Dinis?
Nem todos, não, porque não leio em português e não há traduções de tudo... Já tínhamos escrito sobre José Saramago, que tanto eu com a Susan adoramos. E conhecemos a obra de Fernando Pessoa. Mas depois o Francisco José Viegas, da Quetzal, ajudou-nos a acrescentar uns quantos nomes portugueses. Tenho de os ler rapidamente…
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.