Não é a primeira vez que Hollywood se deixa embrenhar pelo mundo da demência: os filmes passados em manicómios são quase sempre garantia de interpretações fortes, emoções à flor da pele e um teste às convicções morais. O caso mais memorável é talvez ‘Voando Sobre um Ninho de Cucos’, a obra em que Milos Forman nos mostra os passos de Jack Nicholson para o abismo.
Na galeria de filmes memoráveis passados em centros de reabilitação psíquica entra directamente ‘Shutter Island’, a quarta colaboração do realizador Martin Scorsese com Leonardo DiCaprio (uma dupla que cada vez se entende melhor, numa cumplicidade notória para o espectador...).
No entanto, o filme que já é a melhor estreia de sempre da carreira do cineasta de ‘Taxi Driver’ ou ‘The Departed – Entre Inimigos, tem uma particularidade que o enriquece: inicia-se no ambiente turvo do ‘film noir’, com as gabardinas “a la Humphrey Bogart”, o fumo dos cigarros a poluir um ambiente já de si pouco recomendável e a vontade de explorar as subtilezas do filme policial. Depois, o clima propriamente dito: em plena Guerra Fria, a temperatura é gélida, o céu abre-se, a chuva está omnipresente, como se fosse uma personagem secundária reveladora de muitos telhados de vidro.
É nesta envolvente da obra de suspense tradicional que ‘Shutter Island’ se impõe: numa ilha inóspita de Massachussets funciona o Boston’s Sutter Island Hospital, espaço completamente isolado a onde só se pode aceder de barco – e quando o bom tempo o permite! –, chegam dois polícias, Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e Chuck Aule (Mark Ruffalo), para investigarem o desaparecimento de uma paciente perigosa do espaço que é mais fortaleza do que local de recuperação.
À medida que a busca se acentua, a dupla começa a duvidar das motivações do centro, com técnicas particularmente violentas de tratamento e muitas insinuações de que algo não está bem. O mérito desta duplicidade vai não só para a forma complexa como Scorsese consegue conduzir o novelo narrativo, provando ser também um veterano em matéria de contenção, como nas interpretações notáveis de todo o elenco – há um punhado de actores secundários de relevo, todos excelentes, como Ben Kingsley, Patricia Clarkson, Max von Sidow e Michelle Williams.
O 'GRAN TORINO' DE 2010
É então que se dá a transferência, o filme sobre a inconstância psicológica ganha força em relação ao ‘film noir’ e mostra que as surpresas ainda conseguem ter um lugar no cinema comercial de hoje.
No final, e se o suspense não for revelado prematuramente, ‘Shutter Island’ torna-se num impressionante e sólido retrato de personagens. Em particular da vivida por Leonardo DiCaprio, cada vez melhor actor. Neste filme sombrio, a sua personagem revela-se atormentada. E esse tormento não é fácil ou redutor. Está extraordinariamente bem filmado por Scorsese, que também se sai muito bem nos momentos de abstracção.
Com tudo no sítio certo, ‘Shutter Island’ arrisca-se a ser o ‘Gran Torino’ de 2010: uma obra inatacável de um realizador sábio, que escapa de forma inacreditável às temporadas de prémios, mas que ganha um cunho instantâneo de clássico.
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