Aos 49 anos, a actriz que o grande público conhece da televisão enfrenta, no palco do Teatro da Trindade, o primeiro monólogo da sua carreira. Ao Correio da Manhã, fala da experiência de ser dirigida por Jorge Silva Melo num texto que foi escrito a pensar nela
Correio da Manhã – Como reagiu ao convite de Jorge Silva Melo para interpretar uma peça escrita por ele, propositadamente para si?
Elsa Galvão
– Caiu-me tudo [risos] mas disse-lhe logo que sim. E ainda bem, porque gosto muito do texto e é um trabalho que me dá muito prazer fazer. Sendo o meu primeiro monólogo, sempre me senti à vontade com o papel. Gosto desta mulher.
É uma criada...
Sim, uma criada que viveu no meio artístico dos anos 20 e que desenvolveu uma opinião sobre a arte. Mas é também, para além disso, uma pessoa sem amargura. Uma pessoa que não está zangada com a vida mas para quem, pelo contrário, as memórias do passado são memórias de felicidade. Esta personagem é uma lição de vida.
Estudou muito para se preparar para o papel?
A personagem levou-me a procurar os artistas, a estudar o surrealismo, a ver filmes de época para me imbuir do espírito daqueles anos que foram tão incrivelmente criativos.
Como é ser dirigida pelo Jorge Silva Melo? Ele é um director de actores muito intrusivo ou, pelo contrário, é omisso?
É um encenador que dá muita liberdade. Talvez até toda. Ao longo do processo, ele deu-me pistas... De vez em quando, chamava-me a atenção para pormenores do texto em que eu não tinha reparado. Mas de um modo geral deixava que fosse eu a apresentar as minhas propostas. Criou-se entre nós uma grande cumplicidade, que tornou todo o processo muito simples e muito feliz.
Tem trabalhado com vários encenadores ao longo da sua carreira... Que tipo de abordagem ao teatro prefere?
Cada peça é uma peça. Drama ou comédia, há que procurar o caminho certo para lá chegar. Parto para todos os trabalhos em branco, disponível. Não tenho receita, apenas entrega e concentração.
Sempre soube que ia ser actriz?
Quando era miúda queria ser actriz. Via muitos filmes… Depois foi acontecendo. Não tenho o Conservatório, mas tive sempre trabalho e portanto tenho a escola da experiência. Fiz muito café teatro, fui o palhaço rico da Teté, fiz animação, fiz revista... Fiz de tudo um pouco. Fazer foi a minha grande escola. Fazer e ver os outros, porque também se aprende a ver os colegas.
O cinema e as telenovelas também fazem parte do seu percurso...
Cinema fiz pouco. São os cruzamentos da vida: nunca me cruzei com pessoas do cinema e a nossa vida é muito feita de um encadeado de acasos. Telenovelas gosto de fazer. É diferente, claro, é muito rápido, há mais stress.
Sente falta de fazer grandes personagens de teatro: uma Mãe Coragem, uma Fedra...
Não. Não tenho essa expectativa. O que eu vou dizer é banal, mas todas as personagens são importantes. Não tenho qualquer atracção pelo protagonismo. Não tenho esse tipo de metas.
Quais são as suas metas profissionais?
Trabalhar. Representar sempre. Se tivesse sempre trabalho seria uma mulher feliz. É tudo o que desejo.
E encenar?
Já me propuseram, mas ainda não me sinto preparada para encenar. Acho que as coisas têm de acontecer naturalmente.
O que é o pior da profissão?
A ansiedade de ficar sem emprego.
Qual foi o período mais longo que esteve sem trabalhar?
Foi em 2010. Estive três meses sem trabalho. Foi difícil. A solução passou por começar a fazer qualquer coisa. Acho que tem de ser assim – é fundamental não ficar parado. Comecei logo a fazer pregadeiras, pus-me à máquina…
Aconselharia os mais jovens a escolherem ser actores?
É uma pergunta difícil. Por um lado, acho que devemos fazer aquilo de que gostamos. Eu seria infeliz se não estivesse a fazer isto. Por outro, agora há tantos jovens actores... Acho que antes havia mais hipóteses, apesar de tudo. Apesar de haver mais trabalho agora, também há muito mais gente.
Como reage quando as pessoas a reconhecem na rua?
Não sou assim tão conhecida que isso me possa aborrecer. Quando estive um ano no elenco fixo dos ‘Morangos com Açucar’, havia muita gente que me reconhecia, mas as abordagens eram sempre delicadas, simpáticas.
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