Um grupo de música tradicional juntou-se à esquina com uma orquestra sinfónica, vários coros alentejanos e outros tantos solistas, a tocar a concertina e tudo o que viesse à mão. Assim nasceu 'Terra de Abrigo', o novo disco da Ronda dos Quatro Caminhos.
Correio da Manhã - Um disco com esta grandiosidade não nasce de um dia para o outro. Quando é que começaram a pensar nele?
António Prata - Este trabalho é uma audácia nossa. Era um sonho antigo da Ronda fazer um disco com uma orquestra sinfónica, mesmo sabendo das dificuldades do ponto de vista musical, artístico, técnico e, até, da composição. Por outro lado, o trabalho com os coros alentejanos foi uma ideia que amadureceu nos últimos anos. E como já conhecíamos o cancioneiro do Alentejo,as coisas aconteceram muito naturalmente, fruto da cumplicidade com a terra e com os grupos. Quisemos que fosse um disco partilhado, porque normalmente éramos nós que fazíamos tudo.
- O que os levou a pegar no cancioneiro alentejano?
- Acima de tudo a vontade de criar um disco com uma certa unidade. Percebemos que as canções do baixo alentejo poderiam converter o disco numa espécie de "mar da tranquilidade". Pode ser que um dia isso aconteça com outra região.
- Como é que se consegue juntar um grupo instrumental como o vosso, um coro alentejano e uma orquestra sinfónica?
- Não é fácil. Por isso mesmo este trabalho levou dois anos e meio a fazer. Foi muito complexo e teve várias fases, desde a escrita para a orquestra à selecção dos coros. No Alentejo há mais de 100 e como não podiam participar todos escolhemos sete. Depois vieram as gravações que demoraram eternidades em virtude da grandiosidade do projecto. Aliás, não conheço outro em Portugal que tenha contado com mais de 200 pessoas.
- Mas, na prática, como é que as coisas funcionaram. Estiveram todos a tocar e a cantar ao mesmo tempo?
- Não (risos). O disco decorreu em três fases distintas. Primeiro tivemos de fazer a escolha do repertório, escrever para a orquestra e gravá-la. Isso foi feito no Grande Teatro de Córdoba. Só depois com o "play-back" da orquestra é que gravámos os coros e os solistas por cima. Fomos ter com os vários grupos ao Alentejo e gravámos as vozes nas Casas do Povo de cada localidade. O que não foi fácil e levou uns meses largos, porque todos estavam habituados a cantar "a cappela". Finalmente, veio a montagem e a produção que demorou mais cinco meses.
- Passar um disco destes para o palco deve ser outro problema, não?
- Não vai ser fácil. Gostávamos de apresentar este trabalho numa sala nobre de Lisboa, pelo menos com alguns dos convidados. Mas não vamos ficar desiludidos se isso não acontecer. Quando avançámos para este projecto megalómano estávamos conscientes das dificuldades, até comerciais, porque os caminhos da música em Portugal não se pautam por estas audácias.
- Foi um disco para satisfação pessoal, portanto.
- Completamente. Depois de o fazermos, sentimo-nos como se tívessemos subido ao cume dos Himalaias. A grande questão que colocamos a nós próprios é a de saber o que vamos fazer agora, que montanha vamos subir. Os músicos da Ronda ficaram marcados por esta experiência e tudo o que viermos a fazer no futuro vai, certamente, ser influenciado por isto. É impossível, aliás, olhar para os nossos próprios instrumentos da mesma maneira.
- Onze discos em 20 anos é um ritmo de produção notável. Sentem--se uma referência da música portuguesa?
- Demos o nosso contributo para a preservação da música tradicional. Nesse aspecto estamos contentes. Por outro lado, não podíamos estar mais deprimidos por verificar que o panorama cultural em Portugal regride todos os dias na área da música. As pessoas não têm interesse pela sua cultura. Vivemos numa sociedade mediática, banal e pobre. As canções que se vendem são de uma pobreza melódica, harmónica e literária atroz e aflitiva. Há tempos ouvi um cantor da nossa praça dizer que tinha três mil cantigas na Sociedade Portuguesa de Autores. Incrível! Só ele tem mais composições do que o Mozart, o Wagner, o Beethoven e o Tchaikovsky juntos...
PERFIL
Formado em 1983, a Ronda dos Quatro Caminhos é hoje um dos mais consistentes projectos dedicados à música tradicional portuguesa. Em 1984 lançaram o seu pirmeiro LP, um disco homónimo que viria a ser editado em vários países europeus. Seguiram-se, entre outros, "Cantigas do Sete Estrelo" (85), "O Melhor da Ronda" (89), "Romarias" (91), Recantos (97), "Alçude" (2000) e "Terra de Abrigo" (2003). António Prata (violino), Carlos Barata (acordeão), João Oliveira (guitarra e voz), Mário Peniche (baixo), Pedro Fragoso (piano) e Pedro Pitta (bateria) são os elementos do grupo.
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