Exposição em Londres conta com mais de 100 obras da artista portuguesa realizadas ao longo de 60 anos de carreira.
Exposição em Londres conta com mais de 100 obras da artista portuguesa realizadas ao longo de 60 anos de carreira.
Pintura, colagens, esculturas, desenhos, gravuras e pastéis de grande dimensão. Simplesmente intitulada "Paula Rego", a retrospetiva patente na Tate Britain, em Londres, permite uma visão completa do que é a obra de Paula Rego, um dos nomes maiores das artes plásticas a nível nacional e internacional.
A exposição conta com mais de 100 obras e, segundo o filho da artista, Nick Willing, representa uma vitória "simbólica" sobre a sobre a discriminação que sofreu enquanto mulher e estrangeira.
"É muito simbólico porque este museu, [durante] quase toda a vida da minha mãe, era um museu só para [artistas] homens brancos, mais ou menos, e uma mulher como a minha mãe estava sempre a bater à porta. Nunca a deixaram entrar, porque era uma mulher e era uma estrangeira e, até aos anos mais recentes, isso era uma coisa que não era apreciada em Inglaterra", disse Nick Willing à agência Lusa.
Segundo Nick Willing, curador, cineasta e que também esteve envolvido na organização da exposição, esta retrospetiva "é muito importante" para Paula Rego, uma vez que abrange 60 anos da sua carreira.
Nunca a deixaram entrar [na Tate Britain], porque era uma mulher e era uma estrangeira.
Retrospetiva reflete história pessoal e nacional
Os trabalhos em exposição vão desde os primeiros, dos anos de 1950, onde são visíveis referências ao regime ditatorial de António Salazar, ao qual se opunha, até às obras realizadas nos anos 2000. A obra mais antiga em exposição é "Interrogação", executada quando a artista tinha 15 anos.
Entre as obras mais recentes e que abordam questões sociais está a série "Aborto", produzida durante a campanha pela despenalização do procedimento em Portugal.
Além do contexto político e social, a obra de Paula Rego também reflete as suas experiências pessoais, nomeadamente da sua infância, da relação intensa com o marido, o artista britânico Victor Willing (1928-1988), que morreu de esclerose múltipla, e da própria luta com a depressão.
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Para Nick Willing, filho de Paula Rego, esta exposição é importante e significativa, porque não conta apenas a história pessoal da mãe, mas também a história de Portugal e da sociedade em geral.
"A fazer as coisas mais pessoais, mais pequenas da vida dela, ela consegue contar uma história que nós todos conhecemos. Isso é importante, porque a exposição tem a ver com todos os que vêm cá. Não é só mulheres, são homens também; não é só portugueses, são pessoas do mundo todo", vinca.
Nesta exposição, continua, "vê-se que é uma carreira mesmo importante, porque há tanto trabalho aqui que vê-se um talento e uma imaginação incrível, uma imaginação que foi criada em Portugal".
Uma contadora de histórias singular
Paula Rego nasceu em 1935, numa Lisboa sob o regime de António Oliveira Salazar. Filha de antifascistas, foi enviada para Inglaterra aos 16 anos, uma vez que os pais queriam que vivesse num país liberal. Estudou na Slade School of Art, em Londres, entre 1952 e 1956, e foi aí que conheceu Victor Willing, por quem se viria a apaixonar e com quem casaria em 1959.
Depois de se formar, a artista e a família passaram a dividir o seu tempo entre Portugal e o Reino Unido e em 1972 estabeleceram-se em definitivo em Londres, onde a artista continua a residir.
Paula Rego tornou-se a única artista mulher do grupo da Escola de Londres e distinguiu-se por uma obra fortemente figurativa e literária, considerada incisiva e singular pela crítica de arte. A pintora é reconhecida pela forma como influenciou a arte figurativa britânica e "revolucionou" a forma como as mulheres são representadas, através de telas como a série "Mulher Cão", dos anos 1990.
Contadora de histórias exemplar, a artista criou um universo pictórico só seu, repleto de personagens misteriosas e cenários surreais.
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Em 1988, no ano em que o marido morreu, Paula Rego expôs a solo na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e no Museu de Serralves, no Porto. O reconhecimento público no Reino Unido chegou nesse mesmo ano com uma exposição na Serpentine Gallery, em Londres, seguindo-se uma residência na National Gallery, em Londres.
Paula Rego cimentava, assim, a sua carreira e afirmava-se como uma grande artista contemporânea. No ano de 2010, foi distinguida pela rainha Isabel II com o grau de Dama Comandante da Ordem do Império Britânico, pela sua contribuição para as artes.
Em Portugal, Paula Rego foi elevada a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada pelo presidente Jorge Sampaio, em 2004, e no ano de 2009 viu nascer em Cascais a Casa das Histórias, inteiramente dedicada à sua obra.
Créditos das fotografias pela ordem de apresentação
Paula Rego Cast of Characters from Snow White 1996. Coleção privada, Londres © Paula Rego
Paula Rego Interrogation 1950. Coleção privada, Londres © Paula Rego
Paula Rego, Tate Britain © Tate (Oliver Cowling)
Paula Rego The Dance 1988. Tate © Paula Rego
Paula Rego The Artist in Her Studio, 1993. Leeds Museums and Galleries (Leeds Art Gallery) U.K. / Bridgeman Images © Paula Rego
Paula Rego The Policeman’s Daughter 1987. Coleção privada © Paula Rego
Paula Rego Self-portrait in Red 1966. Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado (Lisboa, Portugal) © Paula Rego
Paula Rego The Return of the Native 1993. Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal © Paula Rego
Paula Rego Possession I 2004 eção da Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea, Porto, Portugal © Paula Rego
Paula Rego The Flood 1996 © Tate
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