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“Homens e mulheres, temos de estar juntos, a lutar pelos direitos de uns e de outros”

<p align="justify" class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 10pt">Carlos Alberto Moniz acaba de lançar no mercado 'Resistir de Novo', um disco em que reúne as melhores canções de Abril, numa altura em que se celebram os 40 anos da Revolução dos Cravos.

28 de abril de 2014 às 20:19

Correio da Manhã - Há quanto tempo pensou neste projeto? Um disco que reunisse as melhores canções de Abril?

Carlos Alberto Moniz – Este disco levou 40 anos a fazer. Ou mais… [risos] Não, este trabalho surgiu porque há uns meses largos, seis ou sete meses, fui cantar duas cantigas com poemas do José Jorge Letria À Associação 25 de Abril. Uma das canções era ‘Resistir de Novo’. O Almirante Martins Guerreiro e o Coronel Vasco Lourenço, como se tivessem um mola no assento, vieram ter connosco e pediram-nos para que o tema fosse o hino da Associação para as celebrações do 25 de Abril. Dissemos-lhe que era uma honra para nós, e assim ficou.

É uma das poucas canções originais do álbum?

Sim. Tínhamos feito outra, há dez anos. ‘Os Capitães da Alegria’, que aparece neste disco com o título ‘E Um Dia Fez-se Abril’. Também é minha e do Zé Jorge. Começaram a dizer-nos que devíamos fazer um CD... Conversa puxa conversa, ideia puxa ideia, podia ter ido para estúdio com cinco ou seis músicos para gravar outras doze para fazer um álbum novo, mas em vez disso resolvi procurar algo de mais significativo. Decidi gravar canções que cantei muitas vezes, ao longo destes 40 anos, e que me tocaram.

Entre elas, ‘Os Vampiros’, do José Afonso…

Sim. Consegui o número do Rui Pato, guitarrista que gravou ‘Os Vampiros’ com o Zeca em 1965, e marcámos um dia para regravar a canção. Acabámos por gravar também ‘Qualquer Dia’, também do Zeca, porque era muito bonita. Depois fiz chegar o António Andias e o Durval Moreirinhas, que tinham gravado com o Luiz Goez o ‘É Preciso Acreditar’, e propus-lhes cantar essa canção com eles. Cantei-a à minha maneira, claro, porque não tenho a voz do Goez, e também não gosto nada das reinterpretações que se fazem por aí, que mudam as frases melódicas todas. Não gosto. Portanto, cantei como posso.

Outra canção histórica é a ‘Trova do Vento que Passa’…

Sim, toquei-a imensas vezes, pelo mundo inteiro, com o Adriano Correia de Oliveira. Gravei-a aqui em casa, na minha sala. Com um quarteto de cordas. Dois violinos, uma viola de arco e um violoncelo. Com Donovan Bettencourt, sobrinho do Nuno, dos Extreme. No Cacém gravei, com o Edu Miranda, duas canções: ‘Resistir de Novo’, com bandolins e guitarras acústicas; e ‘Canta, Canta Amigo Canta’, do António Macedo. O Macedo foi um homem que fez poucas cantigas, mas as que fez são muito marcantes. Esta ‘Canta, Canta Amigo Canta’, já a ouvi em todas as circunstâncias: em festas do PCP, em festas dos escuteiros, da Igreja… Toda a gente que se junta para despertar vontades e ideias canta esta canção.

Ao todo, quanto tempo demorou a gravação dos 14 temas que compõem o disco?

Três meses. Mas a festa ainda não acabou. Entretanto fiz um hino: ‘As Mulheres da República’. Pouca gente hoje sabe disto, mas na ditadura, quando uma mulher queria viajar, tinha de levar uma autorização assinada pelo marido. As mulheres não atingiam altos cargos na magistratura, por exemplo. Foram conquistando o seu espaço. E têm de continuar a conquistar. Senão tudo se dilui. A liberdade, se não for trabalhada, dilui-se. É absorvida. Não é um ser estável, mas algo em permanente mutação. Homens e mulheres, temos de estar juntos, a lutar pelos direitos de uns e de outros.

E as mulheres a quem dedica esta canção?

Às mulheres da Liga Republicana, que começaram a luta. Dediquei-lhes um hino, também com letra do José Jorge Letria. Falei com o maestro João Neves, e fui a Alcácer do Sal, onde ele está a trabalhar agora, com uma banda filarmónica, e gravei esse tema lá. Assim como ‘Canto Moço’, que achei que ficou tão bem com os sons dos instrumentos, que a deixei ficar só instrumental, a fechar o disco.

Como reagiram os artistas envolvidos neste projeto?

Pedi autorização a todos os autores vivos para fazer isto. Inclusivamente ao Fanhais, que cantou a ‘Cantata da Paz (Vemos, ouvimos e lemos)’, com música do Rui Paz e letra da Sophia. Ao Manuel Freire pedi-lhe para cantar o tema ‘Livre (Não há Machado que Corte)’. Gravei-a em Pedroso, ao pé de Vila Nova de Gaia, com uma banda rocalheira… O Manuel ainda não se queixou… E também gravei o ‘Ao que Isto Chegou’, uma canção que fiz em 1979 com o Alfredo Vieira de Sousa para uma peça da Barraca, com o mesmo título. A letra está atualíssima.

O José Mário Branco está representado no disco, através do tema ‘Mariazinha’…

Como sei que ele é uma pessoa especial – um homem que não tem paciência para tudo, o que eu acho muito bem – telefonei-lhe. Felizmente, ele trata-me muito bem. A canção, sendo aparentemente doce, tem uma doçura amarga. É a história de uma mulher que vai definhando… Até tive a lata de lhe pedir que tocasse viola comigo. E ele disse que sim. Fomos para Várzea de Sintra, para o estúdio do José Barros, do Navegante, e gravámos.

É uma forma especial de celebrar uma data muito importante também para si?

Uma declaração que faço aqui é que gosto de ser segundo plano. Estou a cantar as canções dos meus companheiros de estrada porque muitos já cá não estão. Mas quando estavam, gostava muito de os acompanhar, de tocar com eles. Nunca tive problemas desses. Agora é que apareço em primeiro plano, porque muitos desapareceram.

Acha que os artistas, de uma maneira geral, e sobretudo aqueles que estiveram mais ativos na revolução, estão estão perplexos com o que aconteceu nestes últimos 40 anos?

Quem tem consicência cívica, social, tem de andar sempre perplexo. Infelizmente, há muitos anos que andamos perplexos em Portugal, porque as coisas têm vindo a piorar sempre. Temos de estar sempre atentos. Agora é um número redondo – são 40 anos – e estamos a sofrer uma pressão europeia muito forte, mas a verdade é que a situação era inevitável. Um país que não produz, não pode pagar aos credores. E os credores sabem disso. Mas porque não deixam os pequenos países desenvolverem-se? É uma forma de conquista. Não é uma invasão militar, mas é uma invasão económica.

As suas canções revelam sempre as suas preocupações?

Não há canções inocentes. As canções servem ou para despertar mentes, ou para as adormecer.

Na altura do 25 de Abril, o seu rosto tornou-se bem conhecido dos portugueses. Para si, isso é uma grande responsabilidade?

Não fui dos que mais lutei. Fui um bom segundo plano, como disse há pouco. Corri mundo a acompanhar os meus colegas. Mas na televisão, um Fernando Tordo a cantar a ‘Tourada’ foi muito mais interventivo. Mas há muitas formas de intervenção. Considero-me interventivo quando vou cantar um bom poema, seja do Pessoa, seja um inédito, a qualquer lado. Estou a ser interventivo em nome da cultura. Mas não me sinto representante de nada. Tentei – e acho que consegui – andar com as costas direitas toda a minha vida.

Acha que é possível, desejável, recuperar o espírito do 25 de Abril?

Sim. Vejo que os jovens estão alerta. Pedem-me muito que cante a canção de Abril. E fazem-me sempre muitas perguntas. Têm muita curiosidade pelas coisas. Há esperança.

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