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João Malheiro: "Sou daqueles que pensam que um título comum não mexe com as pessoas"

O jornalista João Malheiro acaba de publicar o seu romance de estreia, 'C*** d'Aço', que lançará no próximo domingo no âmbito da Feira do Livro de Lisboa. Pretexto para uma conversa em torno da escrita, do 25 de abril e da prostituição.

5 de Junho de 2013 às 01:00
João Malheiro: "Escrevo diariamente, mas o que escrevo é para publicar. Se não gostar, rasgo, deito para o lixo"
João Malheiro: 'Escrevo diariamente, mas o que escrevo é para publicar. Se não gostar, rasgo, deito para o lixo' FOTO: Pedro Catarino

Correio da Manhã – Há muito que planeava a estreia na ficção, ou este romance foi fruto do acaso?

João Malheiro – Na realidade, há muito tempo que vinha sendo convidado pela minha editora [a Quidnovi] para fazer uma incursão no domínio da ficção. Confesso que hesitei bastante durante anos, mas a determinada altura achei que, para quem já tinha escrito 19 livros, fazia sentido tentar algo num domínio novo.

- É daqueles que guarda poemas, contos e romances na gaveta?

- Não. Confesso que escrevo, diariamente, mas tudo o que escrevo é para publicar. Não guardo o que faço, a menos que não reúna os predicados mínimos de qualidade. Para mim, a escrita é um exercício de vontade imediata. Se não gostar, rasgo, deito para o lixo.

- Que história conta este romance, que tem um título tão provocatório?

- A ação do romance decorre numa terra que ficcionei, a norte do País, e corresponde à minha vivência da puberdade e adolescência. A trama decorre no período que vai de 1972 a 1976. Não é uma escolha inocente. Pretendi apanhar nesse período a agonia do regime ditatorial, a libertação do 25 de abril e os dois anos que se lhe seguiram, a atmosfera revolucionária e também contra-revolucionária que fracturou o País. Eu era muito miúdo, mas por razões familiares atravessei esse período com olhos de ver. Cresci mais rapidamente do que devia, matando o menino que existia em mim. Tornei-me precocemente adulto nessa altura.

- Mas para além da componente política, há uma história de amor?

- Há mais do que uma. Há várias, com duas intrigas amorosas dominantes. O amor não escolhe regimes políticos…

- Porquê a escolha de um título tão sugestivo, para um romance que não é erótico?

- Compreendo que o título seja, não direi chocante, mas que possa criar algumas reservas mentais. Sou daqueles que pensam que um título comum, trivial, não mexe com as pessoas. Voluntariamente, adotei um título controverso. E que vai, provavelmente, gerar alguns dissabores e alguns comentários menos abonatórios. Mas quando parti para o romance, já tinha o título. A figura que o inspira é uma das personagens centrais da obra. E o facto de a sociedade portuguesa ser, na minha opinião, tão extraordinariamente hipócrita, contribuiu para que não hesitasse na escolha do título.

- Quem é a senhora do título?

- Uma prostituta, dona do principal cabaret da terra. Chama-se Rosa Modesta, é senhora de uma personalidade muito vincada e responsável pela iniciação sexual de dezenas ou centenas de jovens da terra. Daí o nome. Mas o livro não pretende ser uma crítica às prostitutas. Sou contra a prostituição, mas admiro algumas prostitutas e acho que há mulheres, não prostitutas, mais prostitutas do que as prostitutas.

- Então qual o núcleo principal da ação?

- O enredo gravita em torno de duas comunidades estudantis: uma do ensino secundário; outra do ensino superior. É um romance para leitura jovem, protagonizado por jovens com um espírito transformista e de revolta. Claro que há um certo traço autobiográfico no livro... Há uma personagem que é quase o João Malheiro.

- Destina, portanto, o livro aos leitores mais jovens?

- Gostaria que os mais jovens o lessem, sim. É uma leitura que me parece interessante para pessoas que não tenham vivido o 25 de abril. Mas é evidente que, com toda a modéstia, o recomendo a todas as gerações. Tem, para além do mais, prefácio do maestro António Victorino d’Almeida e textos do Mário Zambujal (na minha opinião um senhor escritor, um dos mais brilhantes operários das letras em Portugal), do José Manuel Mendes, presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, e do José Jorge Letria, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores. Textos que muito me honram.

Cultura Livros João Malheiro romance 'Cona d'Aço'
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