Aos 37 anos, o realizador catalão, que se estreou nas longas-metragem com o filme de terror ‘O Orfanato’, de 2007, regressa agora com o impressionante relato de uma família que viveu o tsunami de 2004. O filme estreia esta quinta-feira nas salas nacionais.
Tivemos a rara oportunidade de falar como realizador precisamente durante parte da rodagem das sequências mais dramáticas da enxurrada das águas que leva Naomi Watts (Maria Belón) e o jovem Tom Holland (Lucas). Sequência essa filmada no enorme tanque, o maior da Europa, nos estúdios Cuidad de la Luz, bem aqui ao lado, em Alicante. Em entrevista ao CM, Bayona (como gosta de ser chamado) explicou o significado desta grandiosa produção.
Correio da Manhã - Pode falar um pouco da origem do projeto?
Juan Antonio Bayona - Tudo começou com um produtor que me abordou e me contou esta história. Fiquei tão comovido que contei a história à minha família, aos meus amigos. Percebi que havia algo que eu queria perceber porque me comovia. À medida que fomos falando do tsunami, disse-lhes: "Vamos fazer o Impossível!" Fizemos um ‘story board' com cada cena e criámos animações para alguma cenas. Há um ano e meio que falamos no projeto. Por isso fico tão emocionado quando falo desta história.
- Como incorporou o material documental que já existia?
- O que fazemos tem de ser muito real, mas por vezes a realidade tem de ser equilibrada com a mente das personagens. É um equilíbrio que fazemos. Tudo o que fazemos aqui e na Tailândia é muito real. Apenas com ligeiros arranjos digitais. Mas na Tailândia, a escala do nosso set é gigantesca.
- Que história é esta?
- Queria fazer uma história muito pessoal. Mas prefiro que as pessoas descubram por elas nos cinemas. Mas o tratamento que fazemos das personagens é algo universal. É claro que cada pessoa reage de forma diferente, mas achamos que existe também uma forma universal de reagir, uma espécie de verdade universal. Por exemplo, no guião decidimos não mencionar a nacionalidade das personagens, porque queremos torná-los universais.
- Sentiu algum tipo de responsabilidade em tratar este tema, por se tratar de um desastre tão avassalador que afectou tantas pessoas. Deve ser algo complicado para si também...
- Sem dúvida. A verdade é que foi há poucos anos, por isso é ainda algo recente. No início começámos por falar com famílias de sobreviventes. Há muitos sobreviventes, mas também muitos que perderam alguém. Queríamos estar em contacto próximo com eles durante todo o processo. E fomos mostrando parte do filme à medida que íamos fazendo. Queríamos saber a opinião deles e ao mesmo tempo não chocar a memória deles.
- Este é um filme de ação?
- A história decorre apenas em algumas horas e as personagens não podem ter uma ideia do que estão a viver. Tem de ser tudo emoção. Têm de estar dentro da emoção. Trata-se de sobrevivência.
- Inspirou-se alguns filmes para captar este tipo de emoção?
- Quando se lê o guião [de Sérgio Sánchez, colaborador habitual de Bayona] percebemos que não é possível encontrar nada semelhante. O tipo de história é como decorre... Eu gosto de pensar que é parecido com alguma coisa. Embora se perceba que é mais sobre sobrevivência do que algum aspecto que se pareça com outro filme.
- Viu alguns filmes catástrofe?
- Mas este não é um filme catástrofe. É um filme anti-catástrofe. É um filme sobre o tsunami e sobre as pessoas que foram afectadas. É isto que temos de respeitar. É claro que se vê o tsunami no filme. Mas não deixa de ser muito ligado às personagens. Se não, seria apenas um documentário. O filme lida mais com a incerteza, do que nos poderá acontecer num momento destes. Eles não têm a consciência do que é estar vivos, até que vivem o tsunami.
- Porquê o título ‘O Impossível'?
- Porque foi a palavra que mais vezes encontrei durante a minha pesquisa. As pessoas falavam de viver o Impossível e de fazer o Impossível. Impossível é uma palavra absoluta. É como lidar com algo que é maior do que nós. Gosto que seja uma palavra ambígua onde o público se possa projetar. E não uma história onde se diz o que as pessoas devem sentir.
- Qual foi para si a parte mais complicada desta sequência fulcral?
- Tudo o que teve a ver com esta sequência foi muito difícil, devido a todo o movimento da água e de tudo o que é levado pela água. Ainda que soubéssemos como muito do material que colocámos na água seria levado. Mas quando somos levados pela corrente ficamos numa situação semelhante a muitas dessas pessoas.
- Quantas câmaras usaram?
- Foi tudo filmado com três câmaras. Por isso há sempre uma câmara que mostra um plano mais próximo dos atores.
- E como foi filmar neste estúdio?
- Foi fantástico. Temos um laboratório, um estúdio de projeção. Podíamos filmar um plano de manhã e vê-lo à tarde num grande ecrã.
- É apenas coincidência que os seus dois filmes tenham crianças que desaparecem [‘O Orfanato']?
- Não sei. O que faço é baseado no meu instinto. A primeira vez que ouvi esta história fiquei tão emocionado que percebi que havia algo que queria fazer. Trabalhámos no guião muito tempo, um ano e meio.
- Diria que os grandes planos, os planos mais caros, serão feitos aqui em Alicante?
- Aqui o desafio é técnico. Na Tailândia teremos pela frente um desafio emocional. Temos falado com muito sobreviventes. O mais difícil é o sofrimento. Dos pais que procuram os filhos. O filme é isto. Não queremos mostrar corpos como se fossem adereços. Queremos envolver o público de maneira a sentir que o próximo segundo pode ser o último.
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