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Correio da Manhã

Cultura
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Manoel de Oliveira filma uma obsessão fatal

‘O Estranho Caso de Angélica’ é um filme antigo mas cheio de actualidade. Apesar de guardada na gaveta de Manoel de Oliveira, já desde o fim da II Guerra Mundial, a história chega agora aos cinemas e cruza épocas com o desprendimento de quem, aos 102 anos, tem a legitimidade de fazer o que bem lhe apetece no grande ecrã.
28 de Abril de 2011 às 12:47
'Angélica' (Pilar Lopez) é uma jovem acabada de falecer quem um jovem se apaixona no momento em que a sua lente parece devolvê-la à vida
'Angélica' (Pilar Lopez) é uma jovem acabada de falecer quem um jovem se apaixona no momento em que a sua lente parece devolvê-la à vida FOTO: d.r.

Há monovolumes de hoje na trama ambientada nos anos 50, há chuvas torrenciais a lembrar a tragédia da Madeira, há poluição sonora impensável há seis décadas, há uma crise que quase fala da entrada do FMI no país. Oliveira, na sua antiguidade, mantém o espírito vivo de sempre. E visionário...

Isaac (Ricardo Trêpa) é um judeu que foge do massacre da II Guerra Mundial e que se instala numa pequena cidade do Douro, numa pensão acolhedora e familiar. É homem de poucas falas e grande obsessão pela fotografia. Chamado a fotografar Angélica (Pilar Lopez), uma jovem acabada de falecer, o jovem apaixona-se por ela no momento em que a sua lente parece devolvê-la à vida. Só para ele.

Atormentado por visões – encenadas com efeitos especiais muito ao estilo dos idos anos 30 e 40 – da bela que o chama a voar pelos sonhos e céus, Isaac vai definhando na solidão deste amor imaterializado que materializa agora um sonho de Oliveira com quase 60 anos.

“Pensei em fazer este filme logo a seguir à II Guerra Mundial. Hitler tinha morto seis milhões de Judeus e eles estavam a ir para Portugal e para os Estados Unidos”, disse Manoel de Oliveira em conferência de imprensa no Festival de Cannes de 2010, onde o filme se apresentou em competição na secção ‘Un Certain Regard’.

Fê-lo agora. E fez bem. Sendo mais um daqueles filmes que provoca amores e ódios, ‘O Estranho Caso de Sngélica’ perde, sobretudo, no seu protagonista. A Trepa, neto do cineasta e seu actor exclusivo, falta-lhe expressividade sincera num papel de poucas falas, exigente mais no corpo do que nas palavras que não se dizem...

Visão poética, a sépia, da fotografia, paixão antiga de Oliveira que não descurou o romantismo musical. O piano ora feroz ora traquilo de Maria João Pires também tem ‘voz’ neste ‘estranho caso’...

manoel de oliveira o estranho caso de angélica
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