Margarida Pinto Correia, actriz, é uma das intérpretes de “Caixa de Sombras”, encenação de Marco d’Almeida que se estreia hoje no S. Luiz com o apoio CM. Um regresso desejado aos palcos na pele de uma coleccionadora de amantes...
- Em “Caixa de Sombras”, a Margarida dá corpo a Beverly, uma “espalha brasas” que, pelo menos aparentemente, não tem nada a ver consigo.
- Não é bem assim. Eu admiro imenso a Beverly. Disse-o logo no início dos ensaios e toda a gente ficou muito admirada, mas a verdade é que aquela mulher não me é estranha e eu podia facilmente ter descambado numa Beverly. Ela é uma pessoa que ataca as coisas pela frente, que vai a todas, isso também é muito meu. Simplesmente fiz um percurso diferente. Deixei-me de aventuras loucas e escolhi um porto de abrigo.
- O seu currículo é curioso, porque entre a muita experiência que tem como jornalista, aparecem os espectáculos de teatro e as séries de televisão...
- Fiz o percurso contrário do que é habitual. Eu fazia imenso teatro na escola e quando me convidaram para me estrear como actriz, na Cornucópia, foi porque alguém me conhecia desses tempos... E sempre frequentei workshops de actuação, quer nos Estados Unidos, onde vivi e onde cheguei a fazer um musical (!), quer em Portugal. Mas as coisas foram acontecendo de outra maneira e só aos 29 anos é que tentei a entrada no Conservatório. Embora não tenha conseguido - falhei na última prova - isso não me desviou do meu caminho: eu sabia que o teatro é a coisa mais maravilhosa do mundo, que é no palco que me sinto realmente completa.
- Apesar disso, continuou sobretudo a fazer rádio e televisão...
- Continuei, até agora. Nos últimos anos estive fechada para obras, nas revistas, mas em Janeiro decidi que não queria mais. Que queria voltar ao teatro. Saí, informei as agências de casting de que estava disponível para trabalhar e cá estou.
- De quem partiu o convite para fazer este trabalho?
- Do Diogo (Infante), com quem já tinha trabalhado antes, no espectáculo “Um Vestido para Cinco Mulheres”, no S. Luiz, e a quem eu tinha telefonado a dizer que tinha vontade de voltar ao palco.
- O que é que lhe interessou no projecto, para além dessa vontade de regressar ao teatro?
- Muitas coisas. O convite era aliciante pela proposta de encenação do Marco (d’Almeida), que eu acho brilhante, pelos actores com quem contraceno, pelo regresso ao S. Luiz... Depois, quando li a peça, fiquei pregada ao chão. O texto é um bocadinho da vida de todos nós. Todos nos confrontamos, mais tarde ou mais cedo, com a morte e alguns só percebem a importância da vida justamente quando estão perto do fim.
- Alguma vez se confrontou com uma situação de doença terminal?
- Sim e acho que o autor fez uma grande proeza. Ninguém sabe falar sobre a morte - é um dos maiores tabus da nossa sociedade - e o Michael Cristofer conseguiu falar da morte de forma natural e, por vezes, até com humor.
- Acha que a temática da morte pode afastar o público?
- Sou uma daquelas que acredita que não se deve desistir porque as coisas são difíceis. Pelo contrário. Acho que este espectáculo vai puxar muita conversa, muita discussão. É daqueles espectáculos de teatro que se levam para casa e nunca mais se esquecem.
Margarida Pinto Correia estudou em Portugal e nos Estados Unidos. Estreou-se em teatro em 1982, na Cornucópia, no espectáculo “Mariana Espera Casamento”, numa encenação de Luís Miguel Cintra. Formada em Relações Internacionais, é amplamente conhecido o seu trabalho como jornalista, repartido por todos os meios: jornais, revistas, rádio e televisão. Em 1995, protagonizou “Woyzek”, de George Büchner, do grupo brasileiro Sátyros, e em 1997 integrou o elenco de “Um Vestido para Cinco Mulheres”, encenado por Diogo Infante no Teatro S. Luiz. Desde 2000, tem participado como actriz em várias séries de televisão.
UM ESPECTÁCULO SENSÍVEL
A estreia de “Caixa de Sombras”, do norte-americano Michael Cristofer, assinala a primeira encenação de Marco d’Almeida, que o grande público conhece da série “A Jóia de África” e que recentemente protagonizou “Hamlets” ao lado de Diogo Infante.
Este espectáculo, que reúne um elenco verdadeiramente luxuoso - onde pontuam os nomes do mesmo Diogo Infante, Margarida Pinto Correia, Fernanda Borsatti, Isabel Abreu, Custódia Gallego e Adriano Luz, ao lado dos jovens Pedro Barbeitos e Pedro Caeiro - fala de um tema de difícil digestão - as doenças terminais e a morte - de forma sensível, comovente, por vezes divertida.
Para Marco d’Almeida, esta é uma estreia promissora na direcção teatral: o jovem actor mostra, no S. Luiz, que sabe dirigir actores e gerir o ritmo de um espectáculo bastante complexo. Para o público, ver Margarida Pinto Correia na pele de uma mulher totalmente louca poderá ser uma surpresa, mas Diogo Infante é um espanto como escritor à beira da morte. O melhor papel da sua carreira.
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