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MARILYN POR MILLER

Obsessão e exorcismo é a explicação avançada pelos amigos para a peça de teatro que Arthur Miller escreveu e encenou sobre Marilyn Monroe, encontrada morta na madrugada de 5 de Agosto de 1962. Causa provável: suicídio para uns, conspiração para outros. A solidão foi morte certa.

05 de agosto de 2003 às 00:00

"Finishing the Picture" teve há uma semana a sua antestreia privada e, diz quem viu, é um decalque de "Os Inadaptados" ("The Misfits"), o filme de 1961 que Miller, de 87 anos, então marido da actriz, não só escreveu para ela mas sobre ela. Com Marilyn contracenavam Clark Gable e Montgomery Cliff, por quem a actriz nutria, respectivamente, um respeito reverencial e uma amizade cúmplice. Mas nem tudo são rosas. Marilyn não aparece ou aparece tarde e incapaz de filmar. É o princípio do fim. E até hoje não falta quem defenda que Marilyn recebeu o papel de Roslyn mais como uma humilhação do que uma homenagem: uma traição à sua intimidade.

Das razões que levaram o terceiro e último marido de Marilyn a repetidamente escrever sobre ela, o que voltou a acontecer logo após a morte da actriz com "After the Fall", multiplicam-se as explicações e, entre a obsessão e o seu exorcismo, as opiniões dividem-se.

Indivisível é a reacção-choque à nova peça de Miller e hiper-realismo é apelido. Aqui, Marilyn é "Kitty", personagem que nunca surge em palco mas de quem todas as outras falam. Depressiva, surge fechada num quarto de hotel, entupida em álcool e barbitúricos, irritável e irritante, indiferente aos argumentos com que uns e outros insistem para que volte ao trabalho.

"Finishing the Picture" foi apresentado como esboço preparatório do trabalho final e, conhecida a reacção de amigos, conhecidos e simpatizantes, o escritor decidirá o que fazer a seguir. À data não são ainda conhecidos local ou data de estreia.

BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA

A reprodução pura e dura da realidade no lugar da ficção atribuída à peça de Miller é teoria particularmente bem defendida por Martin Gottfried, autor da biografia não autorizada do escritor, a publicar em Setembro.

"Arthur Miller: his life and work" inclui um capítulo inteiramente dedicado à realização de "Os Inadaptados" onde se lê: "Miller não fazia mais do que assistir impotente à decadência de Marilyn que, por esses dias, estava quase incoerente. Tomava comprimido atrás de comprimido, o que a deixava ansiosa e dependente. Perante isto, ele passava a noite com ela, evitando qualquer gesto e palavra que a perturbasse e irritasse", escreve.

A obra contempla ainda episódios e detalhes que, alheios a Marilyn, raiam a crueldade. É o caso da referência a Daniel, filho de Miller com a sua mais recente mulher, Inga Morath, a quem o escritor se terá referido como "o mongolóide".

Com efeito a criança é portadora da Síndrome de Down, vulgo mongolismo, está internada numa instituição e Miller nunca a visita, isto, sempre a fazer fé na biografia em causa. A polémica está garantida.

RTP NÃO ESQUECENEM DEIXA ESQUECER

À semelhança do que sempre acontece nesta data, a televisão não esquece Marilyn Monroe e, este ano, coube à RTP as honras da efeméride, tarefa que está a cumprir desde ontem e por toda a semana, com um ciclo de cinema que repõe cinco dos seus filmes. Depois de "Os Homens Preferem as Louras", exibido ontem, hoje é a vez de "Niagara" (00h00) e amanhã de "O Pecado Mora ao Lado" (23h30). Seguem-se "Parada de Estrelas" (01h00) e "Paragem de Autocarro" (00h00). De fora fica "Os Inadaptados", de 1961: o último filme acabado e, também por isso, o mais emblemático.

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