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Correio da Manhã

Cultura
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Morreu o actor fazedor de teatros

O empenho era uma das suas características, fosse no palco de um teatro, na advocacia ou na militância comunista. O público recorda-o da televisão, em particular na pele do professor da série da RTP, ‘As Lições do Tonecas’. O actor José Morais e Castro morreu ontem, ao início da tarde, vítima de cancro, no Instituto Português de Oncologia, em Lisboa.
23 de Agosto de 2009 às 00:30
Morais e Castro celebrizou-se nos últimos anos na televisão, no papel de professor do menino ‘Tonecas’
Morais e Castro celebrizou-se nos últimos anos na televisão, no papel de professor do menino ‘Tonecas’ FOTO: Jorge Godinho

A um mês de fazer 70 anos, deixa para trás uma carreira com mais de meio século, iniciada em 1956, no Teatro Gerifalto, com a peça ‘A Ilha do Tesouro’. Se o teatro era entendido como primeira paixão, a televisão apareceu cedo no seu percurso, com ‘O Rei Veado’ (1958), às ordens de Artur Ramos. Este também o dirigiu no cinema, em ‘Os Pássaros de Asas Cortadas’ (1963).

Em cima do palco, fundou ao lado de Rui Mendes, Irene Cruz e João Lourenço o Grupo 4 no Teatro Aberto (1968), trabalhou com Mário Viegas na Companhia Teatral do Chiado (1985) e, já em 2004, obteve os elogios da crítica com ‘O Fazedor de Teatro’, com a Companhia de Teatro de Almada.

No pequeno ecrã, foi um rosto celebrizado em telenovelas e séries da RTP, como ‘Cinzas’ (1993), ‘Verão Quente ‘ (1994) ou ‘Conde de Abranhos’ (2000), e em programas cómicos como ‘Euronico’ (1990) e ‘As Lições do Tonecas’ (1997), papel que se tornou muito popular.

"Era grande amigo, alguém com quem tive comunicações fortíssimas. Foram quatro anos de grandes audiências", disse ao CM o actor Luís Aleluia, que fez de ‘Tonecas’.

Ainda no pequeno ecrã, mais recentemente entrou em ‘Inspector Max’, da TVI (2004), e em ‘Quando os Lobos Uivam’, da RTP (2006).

Morais e Castro era militante do PCP, partido que integrou desde jovem. Era candidato pelas listas da CDU a Lisboa nas próximas eleições autárquicas.

FUNERAL NO ALTO DE SÃO JOÃO

O funeral de Morais e Castro realiza-se hoje, às 15h30, com a saída do Palácio das Galveias em direcção ao cemitério do Alto de São João, em Lisboa. O corpo do actor será cremado em cerimónia privada, a realizar por volta das 17h30.

Os restos mortais do actor estiveram desde o início da noite de ontem no referido palácio, por onde passaram familiares e amigos próximos, entre os quais o actor Francisco Nicholson e a mulher Magda Cardoso, as actrizes Manuela Maria, Irene Cruz e Rosa do Canto ou o cantor Carlos do Carmo.

Casado há mais de 30 anos com a actriz Linda Silva, Morais e Castro esteve internado cerca de um mês no IPO, após longo internamento na Casa do Artista.

REACÇÕES

"TRATAVA-ME QUASE COMO UM FILHO": Luís Aleluia, Actor

"Vou lembrar Morais e Castro como um grande suporte, um pilar. Não é que já não se ame o teatro, mas ele vivia a arte com amor. Estivemos com ‘As Lições do Tonecas’ durante quatro anos e dessa cumplicidade surgiram milhares de espectáculos até pelo estrangeiro. Tratava-me quase como um filho. O único espinho que leva é não ter terminado o seu trabalho de advogado contra a permuta de terrenos do Parque Mayer."

"UM GRANDE AMIGO E UM HOMEM BOM": João Lourenço, Encenador

"Morais e Castro era um grande amigo, um homem bom e foi alguém que traçou comigo um caminho muito importante no teatro dos anos 60 e 70 [João Lourenço foi, ao lado de Morais e Castro e dos actores Irene Cruz e Rui Mendes, um dos fundadores do Grupo 4, que se estreou em 1968 no Teatro Aberto]. Esse caminho que traçámos juntos foi de esperança e algo que me ajudou muito ao longo da minha carreira."

"ERA FIGURA DE EXTREMO PROFISSIONALISMO":  Rui Mendes, Actor e encenador

"Éramos amigos, quase como irmãos. Estreámo-nos juntos em 1956 com a peça ‘A Ilha do Tesouro’. Fizemos uma carreira próxima, onde formámos o Grupo 4. É uma figura importantíssima da nossa geração, de extremo profissionalismo. Era empenhado em tudo e será lembrado tanto pela televisão como pelo teatro. Talvez pudesse ter ido um pouco mais longe, nos últimos anos, mas a doença que teve foi horrível."

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