O disco é de uma beleza arrepiante. Mais um feito transversal ao tempo e aos modos (...) Não apetece largá-lo e à sua lírica cristalina.
Estávamos a caminho da meia dúzia de anos de jejum, que o envolvimento de Marisa Monte no triângulo mágico dos Tribalistas é história à parte. Acabou-se o penar: de uma vez, o silêncio quebra-se em dose dupla, hora e meia de sublimes criações, recriações e recreios – sem receios. Marisa é pragmática e nós aplaudimos: se voltasse ao trilho dos palcos só com um dos discos agora publicados, teria de cumprir o ciclo até ao fim antes de poder mostrar o outro. E os espectáculos não ganhariam 27 canções, distribuídas por dois mundos em que a cantora não é visita, mas uma arquitecta com capacidade de intervenção sobre a paisagem.
Vamos por partes: quem olhar a discografia de Marisa e as suas notáveis produções da Velha Guarda da Portela e de Argemiro Patrocínio, sabe do respeito e do amor pelos ambientes do samba. ‘Universo Ao Meu Redor’ está longe de ser um corpo estranho no trajecto da cantora. Pelo contrário: violão e cavaquinho, percussões várias, paixões e desilusões são presenças destacadas no disco em que as colaborações com Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes têm um peso muito semelhante à tradição que seria criminoso deixar perder. Jayme Silva, Casemiro Vieira e D. Yvonne Lara valem um trio de luxo, a que se juntam Moraes Moreira, Paulinho da Viola (criador da obra-prima ‘Para Mais Ninguém’ e disponível para tocar violão e cavaquinho) e até Adriana Calcanhotto.
O disco é de uma beleza arrepiante, mais um feito transversal ao tempo e aos modos, capaz até de dar abrigo a David Byrne e à carta fora do baralho que é ‘Statue of Liberty’. Mas fica sempre longe de atropelos e descobre papéis para o violoncelo, para o velhinho órgão Farfisa, para a tuba, o fagote, a harpa, tudo num universo sambista. Não apetece largá-lo e à sua lírica cristalina.
A menos que seja por troca directa com ‘Infinito Particular’, em que, prolongando as parcerias com Brown e Antunes, Marisa abre a porta a uma diversidade estética que roda como um carrossel em torno da sua voz e de arranjos ricos, com pormenores de delícia, sem comprometer o essencial da canção. Pedro Baby, Seu Jorge, Leonardo Reis, Nando Reis, Jennifer Gomes, Marcelo Yuka, Rodrigo Campello, Dadi e Adriana Calcanhotto são autores convocados para a jornada que agarra, da primeira à última nota. Marisa tem tempo para amor e política, o pessoal e o transmissível, o útil e o agradável.
Cria espaço para clássicos instantâneos: ‘Infinito Particular’ em progressão circular, ‘Vilarejo’ a rasgar horizontes urbanos, ‘A Primeira Pedra’ e um ambiente marcado a metais, percussão e Fender Rhodes, ‘O Rio’ que vale como um canto para crianças, ‘Quem Foi’ e a perfeição que pode haver num fim de noite ou noutro fim qualquer, ‘Pernambucobucolismo’ desenhada para um mínimo instrumental e para a subida da voz aos céus, ‘Pelo Tempo Que Durar’ que tem o feitiço de um canto de sereia.
Marisa é que sabe: as suas canções continuam a ser o melhor do ‘barulhinho bom’. Com cada vez menos barulho, menos ruído, menos interferência. Salve, rainha!
Só há razões para amar ‘Toda Cura Para Todo Mal’, oitavo andamento dos brasileiros PATO FU. A carreira é sólida (desde 1993) e aqui se reforçam bom gosto e acutilância. Rock, pop, disco, balada (‘Sorte e Azar’ genial) e bónus – a presença da nossa Manuela Azevedo em ‘Boa Noite Brasil’. Óptimo.
Há poucos intérpretes assim, que se renovem sem trair o passado: NEY MATOGROSSO volta ao palco em ‘Canto Em Qualquer Canto’, revisita (‘Dos Cruces’, ‘Bandoleiro’), inova (até com temas dos portugueses Tiago Torres da Silva e Pedro Jóia, que também toca), esmaga. Arranjos imaculados e contágio seguro.
É encontro de palco à moda antiga: ANA CAROLINA e Seu Jorge, juntos e ao vivo, com violões e pouco mais. ‘Apenas’ isto: a reunião em alta de duas das vozes mais marcantes da geração que dá cartas no Brasil. Canções a solo e, sobretudo, com a fantástica convergência dos duetos. Matéria-prima própria, inédita (‘Brasil Corrupção’) ou relida (‘Tanta Saudade’, ‘Beatriz’), local e internacional (Serge Gainsbourg). Viagem de 15 canções, ‘Ana e Jorge Ao Vivo’ mostram que grandeza e simplicidade podem ser bons aliados.
Há pistas razoáveis (‘Foto Polaroid’, ‘Castelo de Farsa’) e versões curiosas (‘Atrevida’ de Ivan Lins, ‘Medo da Chuva’, de Raul Seixas/Paulo Coelho) no ‘Ao Vivo’, da brasileira ISABELLA TAVIANI. Mas faltam o rasgo, o lastro e a alma para passar do certinho ao contagiante. Hoje, a mediania é fatal.
Num momento em que o country está pujante e multiplica obras-primas, não faz sentido voltar a KENNY ROGERS. Mesmo que ele apresente, em ‘21 Number Ones’, um currículo vasto de passagens pelos vários ‘tops’ da ‘Billboard’. A música anda demasiado perto da banalidade. E a voz, sempre igual, não ajuda.
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