Um dos mais reputados cineastas italianos falou ao cinema sobre o épico que retrata um lado obscuro e desconhecido da vida do ditador
Correio da Manhã - Porquê a escolha de Mussolini para este filme?
Marco Bellocchio – Para a minha geração, o fascismo foi algo muito importante porque gerou também um período de muita contestação. E quando descobri esta personagem (Ida Dalser/Giovanna Mezzogiorno) na vida de Mussolini, quis contar a sua história do ponto de vista privado.
- E concentrou-se na amante do ‘Duce’...
- As pessoas conhecem Mussolini, a mulher e a amante Clara Petacci, com quem ele morreu. E todos sabem que teve muitas amantes. Mas poucos conhecem esta Ida Dalser. E a sua história é um verdadeiro melodrama italiano. Neste sentido, fascinou-me a ideia de me concentrar na Ida Dalser.
Sim, primeiro que tudo ela. As pessoas pensam saber tudo sobre o fascismo mas nada sobre esta tragédia familiar, que é verdadeiramente louca. Nos meus filmes, sempre falei muito sobre a família, a importância do casamento e, para Ida, era muito importante ser casada. Quando eu era jovem, o sucesso de uma vida também se media pelo casamento. E depois o uso do filho que ela faz para reconquistar o Mussolini... E todas as suas acções: vender tudo para lhe dar a ele, anular a sua própria identidade social... É um grande confronto de emoções.
Mussolini era um monstro mas era um homem determinado. Esteve com a Ida mas, para ele, esta não era uma história primária e sim secundária. Em primeiro lugar, a política, o sucesso. Enquanto para ela ele era tudo. E nesta diferença nasce o drama da tragédia.
- Sim, claro, mas não o fiz com essa intenção. O poder absoluto de Mussolini reforça-se com o apoio e parceria da Igreja.
- Utiliza imagens de arquivo na fase final da vida de Mussolini. Porque optou por não envelhecer Filippo Timi na segunda parte do filme?
- Foi uma questão de estilo porque, na escrita do argumento, queria o reencontro com o mesmo actor, Filippo Timi, para a personagem do filho, Benito Albino.
Sim, era uma arte nova que chamava as massas. E servia de passatempo. Além disso, havia a propaganda nos resumos informativos antes dos filmes. E os fragmentos de imagens de arquivo são inseridos no meu filme como informações internas sobre as próprias personagens.
Sim, Verdi, Puccini... É uma forma de reforçar o tom revolucionário, épico, melodramático. Precisava de uma música forte que exprimisse potência e retratasse um período de grandes convulsões sociais.
- Próximo projecto?
- Estou a preparar um filme sobre a Itália dos nossos dias.
- Eu sou sempre de esquerda e por isso não sou suspeito de simpatizar com o fascismo. Mas houve um momento em que ele conquistou um grande consenso popular e as pessoas gostavam dele. Era um defensor da pátria. Mas depois aliou-se com Hitler e fez a guerra. Derrapou e distanciou-se da realidade. Perdeu-se o modelo fascista que já não tinha mais sentido.
- E o que pensa de Berlusconi?
- Não votei nele. E pergunto-me como as pessoas votaram nele uma vez mais... Este é um momento de incerteza e de grande medo. Ele faz uma política assente no medo.
- Mussolini e Berlusconi são parecidos?
- Não, apesar de os dois gostarem muito de mulheres, ainda que de formas diferentes. Mussolini tinha um projecto para mudar a Itália; o Berlusconi não. O que faz ele, qual é a ideologia dele? Não sei. Defende o seu próprio interesse e preocupa-se em manter-se rico...
Marco Bellocchio nasceu há 70 anos em Emilia-Romagna, no Norte de Itália. São seus filmes amplamente aplaudidos pela crítica como ‘O Diabo no Corpo’ e ‘Bom Dia, Noite’.
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