Joana Vicente, produtora, de ‘Censurado’, de Brian de Palma, é lisboeta e vive em Nova Iorque há 27 anos. Fundadora da Open City Films, pioneira na produção de cinema digital, já trabalhou com realizadores como Steven Soderbergh e Jim Jarmusch. E teve um filme nomeado para o Óscar.
Correio da Manhã – Como começou a trabalhar em cinema?
Joana Vicente – Com o António-Pedro Vasconcelos e como assistente de produção do Paulo Branco. Fiz ‘Azul, Azul’ [José de Sá Caetano] e ‘Cidade Branca’, do Alain Tanner.
– Nesse filme também foi actriz...
– O Alain convidou-me, não foi uma escolha... E ainda protagonizei ‘Late Fall’ [realizado pelo marido, Jason Kliot]. Mas nunca quis ser actriz.
– Como conheceu o seu marido?
– Em Lisboa. Na época ele trabalhava como assistente de realização de Samuel Fuller [‘Rua Sem Regresso’] e um amigo apresentou-nos. Vivemos um ano em Paris, casámos em Lisboa e fomos para Nova Iorque.
– Já estava decidida pelo cinema?
– Sim, pouco depois eu e o Jason começámos a produzir curtas-metragens e vídeos musicais a partir de casa. As coisas foram evoluindo e fundámos a Open City Films.
– Antes chegou a realizar um filme, ‘Games & Private Life’...
– Sim, a curta-metragem, em 1991. Estava cá o Bruno de Almeida e creio que até foi ele quem filmou. E realizei um clip para os Madredeus...
– Por que escolheu então a produção?
– Foi orgânico. Ser produtor é fazer muito parte do processo.
– E onde entra a HDNet, que produz filmes até cinco milhões de dólares, em suporte digital?
– Em 1999 começámos a pensar num modelo de negócio que controlássemos melhor. Filmar em digital reduz os custos e permite ganhar tempo. A primeira encarnação deste projecto foi a nossa ‘Blow Up’ e, em 2003, Mark Cuban e Todd Wagner, dois milionários norte-americanos proprietários do HDNet Movies [canal de TV em alta definição], chamaram-nos para dirigir a empresa. No fim deste mês deixamos a HDNet mas mantemo-nos na Open City.
– Foi através da HDNet que chamaram Brian de Palma para fazer ‘Censurado’...
– A ideia era propor-lhe carta branca para fazer o que quisesse mas com um orçamento muito menor do que os dos grandes estúdios. Fizemos ‘Bubble’ com Steven Soderbergh [‘Ocean’s 11’], que também está a filmar um documentário para nós, ‘Spalding Gray’. E contactámos De Palma em Toronto, em 2006.
– Foi a Joana quem o contactou?
– A primeira abordagem foi feita pelo nosso responsável de vendas internacionais. Uma semana depois Brian telefonou.
– O nosso assistente disse-nos: “Telefonou o Brian de Palma”. E o meu marido respondeu: “Esse é outro com o mesmo nome”. Mas o assistente insistia: “Não! É mesmo o Brian de Palma, ‘the real one’”. Telefonámos, ele veio e disse que queria adaptar o ‘Casualties Of War’ [‘Corações de Aço’] à Guerra do Iraque.
– Como é o Brian de Palma?
– É tipo urso (risos). Não tem facilidade em conviver. Nas filmagens, à hora das refeições, metia-se sozinho na caravana dele. Tem sempre um ar um bocadinho maldisposto.
– E o Steven Soderbergh?
– É como nós, um amigo, e viciado em trabalho: fez ‘Bubble’ em dois meses.
– Como é o meio cinematográfico norte-americano?
– Há dois tipos de mundos: o do cinema independente e Hollywood. Claro que pessoas como o Soderbergh e o De Palma, apesar de serem de Hollywood, têm muito de circuito independente. Porque, em geral, esta gente é completamente inacessível.
– O que sentiu quando um documentário seu [‘Enron: Smartest Guys in the Room’] foi nomeado para o Óscar?
– Uma honra enorme! Mas fomos roubados (risos). Os Pinguins [‘A Marcha dos Pinguins’] ganharam... E nem é bem um documentário!
"A FESTA DOS ÓSCARES É O MÁXIMO! É INTEIRAMENTE VIP!"
CM – Faz cinema independente mas vai aos Óscares. Um documentário seu, ‘Enron: The Smartest Guys in the Room’], foi nomeado em 2007...
J.V. – Sim, o meu mundo é o independente. Mas fomos aos Óscares quando fomos nomeados e acabámos por ir à festa da ‘Vanity Fair’ [a mais badalada das que sucedes à gala], a mais VIP da noite.
– A festa da ‘Vanity Fair’ é o máximo. Quando lá chegámos, o Jason [marido] disse-me: “Temos de procurar a zona VIP”. Aqui, se não se entra no VIP Room quase não vale a pena ir porque está tudo lá. Mas a festa da ‘Vanity Fair’ é a única que não tem pois toda ela é VIP (risos).
– Como é tropeçar, a cada metro quadrado, nas estrelas?
– É o máximo! Para mim acaba por ser o mesmo que para qualquer pessoa. Há sempre esta áurea à volta dos actores. Quando fomos, estavam lá muitos actores que entraram em filmes nossos: Jessica Alba, Terrence Howard, Sean Penn... Já conhecemos várias estrelas.
– Sim, quando se faz um filme cria-se uma ligação. Mas nós temos uma família, estamos um pouco mais fora do circuito.
A VIDA PARA LÁ DO TRABALHO
Joana Vicente esteve para vir ao Festival Europeu de Cinema do Estoril, em Novembro, mas acabou por faltar. O marido é judeu, filho de um sobrevivente do Holocausto, e a filha Hannah tinha o barmitzvah na mesma altura. Já Joana nunca se converteu, nem mesmo para se casar com Jason. “Casámo-nos em Portugal com um padre e um rabino mais liberal”, lembra. “Não somos muito religiosos, mas faz sentido passar a tradição aos nossos filhos”, diz. No Natal, a árvore mantém-se, tal como o hanuka judaico. E o Fim-de-Ano foi passado em família, “numa festa lá em casa”, na zona artística da cidade, Tribeca. Aos fins-de-semana o destino é Hamptons, a estância balnear chique frequentada pelos nova-iorquinos e nas férias de Inverno, “as preferidas dos miúdos”, a família ruma ao Utah. No Verão é tempo para o calor do México ou das Caraíbas. “E Portugal, claro!”
Joana Vicente nasceu em Macau, filha de arquitectos, e aos três anos veio para Lisboa. Passou parte da infância e juventude entre Moçambique, Madeira e Macau mas sempre com base na capital portuguesa, onde viria a formar-se em Filosofia na Universidade Católica. Já a experimentar o cinema, como assistente de produção de Paulo Branco, caiu de amores pelo nova-iorquino Jason Kliot, com quem viria a casar-se em 1989, em Lisboa.
Depois de um ano em Paris, onde assessorou a então eurodeputada Maria de Lurdes Pintassilgo e trabalhou na produção de rádio, estabeleceu-se em Nova Iorque. Inicialmente continuou na rádio (nas Nações Unidas) e logo depois apostou no cinema. Há 15 anos fundou a Open City Films, que já produziu mais de 30 filmes e ganhou inúmeros prémios. Em Junho, com o marido, chegou mesmo a ser recebida pelo mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg, pelos feitos em prol da cidade. Tem 44 anos e dois filhos, Hannah, de 13 anos, e Anton, de 11 anos.
O AMIGO STEVEN SODERBERGH
Joana Vicente diz que os realizadores de Hollywood são inacessíveis mas há excepções: Soderbergh, com quem filmou ‘Bubble’ é um deles. E é mesmo “um amigo”.
'CAFÉ & CIGARROS' DE JIM JARMUSCH
Joana produziu a comédia de culto de Jim Jarmusch sobre cigarros e café. No filme, destacam-se vários actores de renome: Cate Blanchett, Alfred Molina e Roberto Benigni.
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