Falámos com Susan Sarandon, em San Sebastian. E actualizámos a sua opinião sobre a crise económica, a família, o activismo político e até o sexo. Como sempre, revelou-se uma mulher fascinante.
Correio da Manhã - Em ‘A Fraude' é a segunda vez que se assume como ‘mulher' de Richard Gere. Do seu ponto de vista, acha que é um ‘marido' fácil?
Susan Sarandon - Nós divertimo-nos imenso os dois. Mas gostaria até de voltar a trabalhar com ele. Talvez agora como a sua amante... (risos)
- Por falar no Richard, ele descreveu-a como uma ‘mulher de armas'. Algo que já sabíamos...
- Mas eu não me sinto dura, isso depende dos papéis. Até sou uma pessoa bastante vulnerável. O Richard (Gere) tem a mania de me chamar ‘dama'. Ele e o Kevin Costner. Parece que sou de uma outra era...
- Mas será que em sua casa, com os seus filhos, continua a ser dura também ou com o passar dos anos as coisas tornam-se mais fáceis?
- Agora eles já são crescidos, por isso tenho de intervir menos. Gosto de estar com eles, até porque são divertidos. Hoje têm 20 (Miles), 23 (Jack Henry, ambos com Tim Robbins) e 27 (Eva Amurri, com o realizador Franco Amurri). Quando eram mais novos, era dura com algumas coisas. Batalhava com o excesso de televisão, videojogos e violência. Mas por exemplo, não fiquei em pânico quando o meu filho se embebedou pela primeira vez. Acho que devem aprender a beber com moderação. O mesmo se passou com a marijuana. Não me vou matar se fumarem erva. Para mim, isso não é muito relevante. Interessa-me mais, por exemplo, a forma como tratam as mulheres. Nesse aspecto tivemos oportunidade de os ensinar a respeitar as pessoas. Por outro lado, eles visitam-me muito em Nova Iorque, o que é óptimo para mim. E regressam com os filhos. É uma casa sempre cheia de gente. Mas aprecio-os agora que são mais maduros. Por isso, é bom não ter de ser dura com eles.
- Posso perguntar-lhe qual é a relação que mantém com o seu corpo? Por parece estar cada vez mais sexy...
- Sabe porquê? Porque sou uma boa ouvinte. Acho que é esse o segredo do meu sucesso. Ouço os outros. E isso não tem nada a ver com o sexo.
- Costuma ouvir piropos a dizer que está sexy?
- Sim, acho que sim. Até os meus filhos me dizem isso. Mas, por exemplo, no ecrã uma tensão sexual tem mais a ver com aquilo que se diz, sobretudo de uma forma que nunca ouviram alguém dizer. E isso provoca uma ligação, a tal química. Mesmo que não seja sexual. Por isso é que eu disse que nunca tive lições de representação, limitei-me a ouvir o que as pessoas diziam.
- A Susan tem um passado de activismo político. E neste filme fala de uma justiça que não funciona. Parece-lhe que hoje em dia temos de ser mais activos?
- Acho que toda a gente tem de acordar e tomar responsabilidade pelas suas vidas. Exigir justiça e mudanças económicas. Se tudo cair, então será uma boa oportunidade para mudar tudo também. De uma forma ou de outra, acho que é bom encarar a mudança com optimismo.
- E de que forma?
- De uma forma que seja mais representativa, um pouco como uma democracia (risos). Onde o dinheiro não decide tudo.
- O Richard (Gere) foi muito claro acerca de resolver tudo de uma forma não violenta. Mas o que verificamos é que hoje em dia muita gente já entende que essa via não é suficiente...
- Bom, se alguém nos atacar será difícil não ripostar da mesma forma. Mas eu acredito em mudanças não violentas. Isto porque as mudanças com violência não perduram. Eu sou optimista porque trabalho com muitas pessoas e não estou interessada na política. Mas acho que os jovens estão hoje mais bem informados. Parecem interessar-se mais. Vejo isso nos meus filhos. O meu mais novo faz perguntas muito interessantes. Mas voltando à sua pergunta, muito do que se passa em redor do mundo é bastante violento. Ao mesmo tempo, há muita gente que está farta de violência. Ainda que muitos anos de domínio sejam difíceis de mudar. No entanto, é desejável uma mudança de sistema económico. Isso com certeza.
- Falando de mudanças, os EUA tiveram uma boa oportunidade de mudança com Obama. Acha que vai ser reeleito? Está decepcionada com ele?
- Isso são duas perguntas (risos). Estou desapontada com muitas das pessoas que ele contratou. Acho que acertou em algumas coisas, mas poderia ter resistido mais e não ceder a compromissos. Conseguiu muitas coisas. Quanto às eleições, estou bastante preocupada, porque se trata de uma questão de dinheiro. Normalmente quem tem mais dinheiro ganha. E há muitos milionários de direita que têm gasto fortunas em publicidade na televisão e lançam muita confusão. Dito isto, se for eleito o outro partido, será também uma oportunidade para as pessoas acordarem de vez. Às vezes, as coisas têm de se desintegrar para que se ganhe consciência. Mas eu fiquei abismada quando o Bush foi reeleito. Nessa altura, as pessoas não compreenderam. Provavelmente, não sou a pessoa indicada responder a perguntas políticas. No entanto, pela minha experiência, sei que há muita gente com capacidade e com dinheiro para mudar. O que eu acho é que é necessário educação com tolerância. Eu escolhi ser optimista, em qualquer situação.
- Vi-a recentemente em ‘Cloud Atlas'. Como foi participar nesse projecto megalómano?
- Viu o ‘Cloud Atlas'?
- Sim, vi em Toronto.
- E gostou?
- Estou ainda a digeri-lo.
- Pois tem de ver uma segunda vez. A primeira vez por ser realmente demasiado. Mas na segunda vez tudo se torna muito mais claro.
- E como foi trabalhar com o Andy e a Lana Wachowski?
- Adorei. Eu queria tomar parte desse projecto. E fiquei maravilhada por me convidarem a fazer esses papéis. E fiquei feliz com o resultado. Eles são todos muito divertidos. O Tom (Tykwer) também. Conheci-o quando fizemos ‘Speed Racer'. Quando lá cheguei estavam todos a usar próteses, parecia o Cirque du Soleil... (risos) Espero que o filme tenha o sucesso que merece.
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