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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

‘Nha Casa’, a caça de Thairo Kosta

“Transformar a dificuldade em oportunidade, é isso que a minha música retrata”, revela o músico.

26 de maio de 2024 às 17:24
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‘Nha Casa’, a caça de Thairo Kosta

Thairo Kosta nasceu no interior da ilha de Santiago, em Santa Cruz. Atualmente reside nos Estados Unidos, mas no passado mês de abril regressou a Cabo Verde para apresentar o álbum que lançou recentemente, ‘Nha Casa’. Foi no Plateau da cidade da Praia, durante o Atlantic Music Expo. Thairo pretende representar a identidade cabo-verdiana no mundo. “Gosto de criar a música que me representa. O objectivo de misturar o finação, funaná ou batuque com o hip-hop, é ter a minha própria identidade”, refere o cantor, sobre o que considera ser o hip-hop crioulo.

Partir para os Estados Unidos foi um passo fulcral na vida de Thairo Kosta. A sua vida mudou. “Hoje posso dizer que sou uma pessoa independente. Tenho a possibilidade de gravar as minhas músicas, criar as minhas ideias, sem depender de muitas pessoas. Aqui em Cabo Verde não é fácil, quando não tens condições. Nos Estados Unidos tenho a facilidade de conseguir tudo o que quero. Foi muito importante para a minha carreira. Hoje, tenho o meu próprio álbum. Trabalhei muito para conseguir encontrar essa oportunidade. As minhas músicas representam os cabo-verdianos que estão lá fora. A mensagem que transmito é para que as pessoas entendam que as coisas não são tão fáceis como pensamos. Às vezes temos que nos sacrificar, lutar para encontrar o espaço, a identidade, o destino. Fiz uma música nos Estados Unidos com o título ‘Nha caminho ê mi ki ta fazi’ (Eu é que faço o meu caminho), porque não preciso de depender das pessoas para fazer o meu caminho. Tenho que lutar para encontrar a oportunidade de mostrar às pessoas que são capazes de realizar os seus sonhos. Eu não posso mudar uma pessoa com quarenta anos, mas com a força da revolução da minha música, posso mudar uma criança, que daqui a quarenta anos pode ser a mudança do meu país. É isso que quero com a minha música. Referência, identidade, proteção. Quero ser a mulher negra, o homem negro, a criança negra, a minha comunidade, Cabo Verde, África”, esclarece o cantor, que pretende que as suas músicas sejam um alimento para que os que vivem em dificuldade, tenham força para procurar melhores condições de vida.

O disco que lançou recentemente chama-se ‘Nha Casa’, que em crioulo pode significar a minha casa, ou a minha caça. “É um álbum que fala da minha história, de Cabo Verde e da identidade africana. Com as dificuldades da escravatura, alimentação, roupa, habitação”, esclarece Thairo Kosta sobre as preocupações sociais presentes no seu trabalho. São vários os estilos gravados pelo cantor: tabanca, finação, cola São João, batuque, rap, reggae, Afro, drill.

“Vão encontrar tudo o que querem. Fiz o álbum para crianças, adolescentes, jovens, adultos, e para as pessoas com mais idade. Não vou dizer mais velhos, porque a minha avó me avisou que velhos são os sapatos. Vão encontrar amor. Para as pessoas entenderem que o amor é a identidade humana. É a marca que podemos carregar no nosso coração, para poder encontrar paz, alegria, e sucesso no que gostamos de fazer. O meu álbum tem um duplo sentido. Em bom crioulo, a minha casa e a minha caça. Porque sabes que tens que ir à caça para caçar alguma coisa. Então eu fiz a caça dos artistas de quem eu gosto, para estarem aqui, na minha casa. Para poder celebrar a música cabo-verdiana. Para celebrar as mulheres, e mostrar que elas têm poder na sua postura”, informa o cantor, que criou o projeto Monoparental. É também um tema do seu disco. Fala de um problema muito presente em Cabo Verde, em que as crianças são criadas, muitas vezes com a ausência do pai. “ Se és mãe ou pai de verdade, nunca vais negar a tua responsabilidade. Temos uma página no facebook, que é ‘responsabilização parental’. Fala das dificuldades das famílias em Cabo Verde. É isso que a minha música retrata, transformar a dificuldade em oportunidade, e podermos representar a nossa comunidade. Sinto-me muito honrado quando vejo alegria na cara das mulheres africanas, elas inspiram-me. Fazem-me acreditar na possibilidade de podermos ser a pessoa que queremos”, revela Thairo Kosta.

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