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Correio da Manhã

Cultura
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"Nunca me deixei iludir pelas coisas que me aconteceram"

Francisca Osório de Castro (Kika) lança o seu segundo disco 'Love Letters'.
Miguel Azevedo 8 de Março de 2017 às 19:41
Kika lança novo disco
Kika lança novo disco FOTO: Direitos Reservados

Tinha quinze anos quando lançou o seu primeiro disco. Entretanto passaram quatro anos. Como é que foi este período?
Foram quatro anos de aprendizagem. Eu tinha lançado o primeiro disco sem grandes expectativas e por isso tudo aquilo que poderia esperar foi superado. Neste segundo disco acho que consegui progredir muito musicalmente. Sinto-me muito orgulhosa com o que consegui fazer. E mesmo que isto não venha a correr assim tão bem, vou estar sempre orgulhosa. Só quero ver agora a reação das pessoas.

A grande diferença da Kika de hoje talvez se note mais ao nível vocal. Também sente isso?
Sim. Acho que a minha voz mudou muito. Ainda no outro dia pus-me a ouvir uma música do primeiro disco chamada ‘What Is Love’, que passou um bocadinho despercebida, e quase não me reconhecia. Já não me lembro de cantar assim. Recordo-me que na altura toda a gente me dizia que eu tinha 15 anos, mas que parecia que era mais velha. Agora ouço e acho que isso não é verdade. Acho que na altura soava precisamente como se tivesse quinze anos [risos]. Mas claro que ao longo deste tempo a minha voz tinha que mudar. Isso acaba por ter um impacto grande. Se as pessoas se lembravam de como eu cantava, claro que vão sentir essa diferença.

Quando diz que o primeiro disco superou as suas expectativas e, sabendo que na altura muito se falou na Kika, isso quer dizer que a sua vida mudou muito?
Não. Acho que não mudou quase nada. Eu não tinha expectativas porque é a minha maneira de ser. Na altura até os meus pais andavam um bocadinho tristes porque parecia que eu não estava feliz com o que me estava a acontecer. A verdade é que nunca me deixei iludir pelas coisas que me aconteceram. E talvez por isso a minha vida não tenha mudado nada. Os meus amigos são os mesmos e eu não sou pessoa de ser reconhecida ou falada na rua. Se isso acontecer é uma vez em mil [risos]. Está tudo igual.

Nunca se deslumbrou?
Não, de nenhuma maneira. Às vezes os meus pais até me diziam: "entusiasma-te!". Mas tinha sempre aquela coisa de achar que amanhã já ninguém se ia lembrar de mim. Nunca mais me esqueço de uma coisa que o RedOne [produtor] me disse: "Tem cuidado que não és tu que mudas. São as pessoas à tua volta." E depois eu sabia que se alguma vez a fama me subisse à cabeça que os meus pais me iam dar um abanão em casa.

A Kika tocou muito ao longo destes quatro anos?
Não muito. Toquei mais nos dois primeiros anos. Gostei muito de lançar o disco e foi um projeto muito interessante para mim, mas a determinada altura percebi que não queria fazer um tipo de música que as pessoas dançassem. Era isso que as pessoas esperavam de mim mas eu não queria. Antes prefiro que as pessoas se sentem e que desfrutem da música, nem que a sala seja metade. Por isso o que nós decidimos fazer foi um novo álbum com aquilo que quero ser. Se as pessoas gostarem, melhor. Se não gostarem não vou fingir uma coisa que não faz sentido. Eu não sei dançar e não quero luzes e bailarinos atrás de mim. Só quero uma guitarra e tocar músicas com as quais as pessoas se identifiquem.

Espera tocar mais agora?
Se me deixarem [risos]. Se me convidarem, terei todo o gosto. Mas primeiro tenho que perceber como é que as pessoas recebem este disco.

Os dois primeiros singles tiveram quase 1,5 milhões de visualizações no YouTube. Isso já dá uma ideia de como este disco pode ser recebido ou não?
Nem é tanto o número de visualizações que me faz ficar contente. O ‘Colorblind’ tem menos visualizações do que o ‘If This Is Love’, mas são as reações das pessoas através dos comentários que me enviam que me deixa mais feliz.

Sente que foi mais difícil fazer este segundo disco do que o primeiro?
Não, porque foi tudo muito diferente. O primeiro disco gravei-o a brincar. Nem sequer tinha falado com a editora. Para mim era um disco para ouvirmos em casa, em família. Não havia pressão nenhuma. Este disco não, já foi feito com alguma vontade de mostrar o que quero que seja a minha música. Só nesse sentido é que houve pressão, pelo facto de ter escolhido um estilo musical. Dizem que é diferente comprar um fato numa loja ou mandar fazê-lo à medida num alfaiate. O meu disco veio do alfaiate (risos). Nós quisemos fazê-lo assim e foi por isso que demorou tanto tempo. O Dan McAlister, que é o meu parceiro nesta coisa toda, já sabe bem quem eu quero ser.

Falemos destas cartas de amor. Aquilo que uma jovem de 20 anos tem para dizer é diferente daquilo que se diz aos 15?Na verdade não sou eu a dizer. Participo na composição de algumas canções, mas a grande maioria continua a ser do McAlister. Não são sobre mim, mas eu consigo interpretá-las. E são canções que podem ser sobre uma relação que correu mal ou sobre um grande amigo que foi embora. Não têm de ser necessariamente de amor ou desgosto amoroso, mas estas cartas não são as minhas cartas. Claro que as relações românticas são mais fáceis de identificar e há ali canções sobre corações partidos, mas eu nunca sofri disso [risos].

"SEI QUE SEREI SEMPRE ADVOGADA"

No primeiro disco, a Kika ainda era uma jovem estudante de liceu. Como é estão os estudos?
Estou a fazer uma dupla licenciatura na Católica. Estou a gostar muito, em particular de Direito. Acho que irei sempre ser advogada. Posso é vir a ser uma advogada que dá concertos em todo o lado [risos]. Mas encontrei uma coisa que me dá prazer.

Há muitos músicos formados que acabam por arrumar o curso na gaveta e nunca mais lhe tocam!
Para mim a formação académica é muito importante. Quero ter um plano B. Se, por exemplo, desistisse agora da música, já tinha perdido muito tempo e não ia ter onde cair morta [risos]. Quero ter uma segurança. Se calhar há uns anos não achava tão importante,  mas hoje quero mesmo dar continuidade aos meus estudos

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