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O bizarro mundo de Beckett chega à Comuna

O estranho – e aparentemente inesgotável – universo de Samuel Beckett é o ponto de partida para ‘A Felicidade... Amanhã’, espectáculo que o encenador Álvaro Correia acaba de estrear na Comuna, em Lisboa, onde poderá ser visto até ao final de Março.

12 de fevereiro de 2010 às 00:28

A partir de quatro textos do autor irlandês (Nobel da Literatura em 1969) – ‘Não Eu’, Play’, O Que Onde’ e ‘Acto Sem Palavras’ – construiu-se um espectáculo poético e evocativo onde oito actores se divertem numa sequência de cenas que, sem conseguir organizar-se num todo apreensível, servem de espécie de amostra do melhor que Samuel Beckett (1906-1989) escreveu na sua prolífera carreira.

No palco da Sala Nova da Comuna o espectador reconhece as personagens típicas de Beckett: vagabundos andrajosos, seres semi-perdidos, entregues a tarefas aparentemente inúteis e compulsivas, a gestos repetitivos e inconsequentes. Nem sequer faltam a dupla Bucha e Estica – que Beckett desenhou nos inseparáveis ‘Vladimir’ e ‘Estragon’ (de ‘À Procura de Godot’) ou ‘Hamm’ e ‘Clov’ (em ‘Fin de Partie’).

Em termos temáticos, predominam as obsessões beckettianas: o tempo, a doença, a decrepitude física, a inutilidade de todo o esforço. A certa altura, uma personagem (interpretada por Carlos Paulo) diz: “O tempo passa. Só isso. Entenda quem puder.”

Álvaro Correia confessa que a escrita de Beckett sempre lhe interessou – sobretudo os textos que utilizou na construção deste espectáculo. “Beckett escreve sempre sobre a condição humana. Há sempre este conjunto de personagens que o autor coloca numa situação limite, de grande constrangimento físico, e que, no entanto, têm de continuar o seu caminho. Têm de viver. Como nós. Independentemente do sentido que isso faça”, explica.

O espectáculo foi construído a partir de improvisações com os actores – para fazer as ligações entre as peças. O resultado é um espectáculo muito visual – um Beckett que oscila entre a coreografia e o quadro estático – e melancolicamente belo. Com interpretações de Carlos Paulo, Rui Neto, Marco Paiva, Maria Ana Filipe e Tânia Alves, entre outros.

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