Carlos Matos Gomes adoptou o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz para demarcar o militar de carreira que toda a vida foi, do escritor que passou a ser desde que, em 1982, se estreou com ‘Nó Cego’, hoje, um clássico da literatura colonial. Co-autor do álbum ‘Guerra Colonial’, acaba de voltar à ficção com ‘Fala-me de África’ (ed. Casa das Letras), que chegará à RTP em 2008, sob o título ‘Regresso a Sizalinda’.
"Vale Ferraz era a quinta de um tio do meu pai que era um fabuloso contador de histórias. A escolha do pseudónimo é uma homenagem, mas na sua origem está o facto de entender que não devia responder pelo mesmo nome enquanto ficcionista e militar no activo. Daí assinar os livros de História com nome próprio e os de Ficção com pseudónimo... Já o Torga dizia que não usava o mesmo nome nas receitas e nos poemas”, conta o antigo coronel.
Conheceu tanto quanto se pode conhecer as ex-colónias ou a África Branca como, posteriormente, lhe chamaram... E, contraída a nostalgia dos grandes espaços, não há antídoto.
”A minha relação com África é geracional. Somos a geração da guerra colonial. Por um lado, havia a grande aventura da juventude que era a guerra e o jogar a vida nela; por outro lado, havia a grande aventura da última geração do império, do grande continente, dos grandes espaços, de tudo o que África tem de misterioso, fantástico, cosmopolita até, de tão fácil que era a adaptação, mas aos vinte tudo é fácil e se nos desembarcassem na lua achávamos o mesmo”, ironiza.
Dos anos da guerra fez páginas de histórias, sempre a mesma, diz: “Ando há sete livros a contar a mesma história: a dos derrotados mas não vencidos, a dos que lutaram sem recompensa nem reconhecimento. O homem não precisa de heróis, mas as sociedades sim e inventar heróis é o papel do ficcionista.”
Contudo, este ficcionista tem da experiência africana momentos marcantes, muito para além da guerra.
“A guerra colonial não é o elemento marcante, o que marca é África. A guerra está para o sexo, o orgasmo, a violência como África está para o amor, a paixão, a atracção... Ainda hoje julgo que o meu grande momento foi o do primeiro contacto com a terra, a cor, o cheiro, o calor, logo ali, no desembarque no porto de Luanda. Uma cidade de que nem gosto especialmente, prefiro as interiores como Benguela, cenário deste livro que é a minha ‘África Minha’”, prossegue.
O processo criativo é outro dado inesperado... Quem diria que disciplina militar não é com ele?! “O homem não é um animal de hábitos, eu não sou! Andei anos a toque de corneta e nunca me habituei... Não tenho rituais nem rotinas. Sou mais de projectos do que de calendários. Durante a fase da criação, funciono por impulsos, fora da lógica do ciclo das horas. Depois, vem a fase da construção, de dar a ler, de rescrever”, diz.
Admira Lídia Jorge e Mário de Carvalho, desdenha da escrita terapêutica e do bloqueio de escritor: “Tudo mentira! O escritor é um ciclista e todos os dias tem de pedalar, e muito, para cumprir etapas e percursos”, sustenta.
RITUAL
“Abrir a janela todas as manhãs para saber se o dia vai ser de sol ou de chuva... Prefiro, de longe, dias de muita chuva e de muito frio.”
UM VÍCIO
“Vinhos novos do Ribatejo! É um vício relativamente raro, não está muito na moda, mas eu sou ribatejano e, pronto, gosto de vinhos novos e tintos do Ribatejo.”
UMA REFERÊNCIA
“O meu pai e o meu avô mas, mais ainda, a minha avó materna que, aos 18 anos e com uma filha pequena, atravessou os Estados Unidos sem falar uma palavra de inglês. Era uma resistente e uma optimista a minha avó Honorina.”
FILOSOFIA DE VIDA
“Procurar em cada dia ter a base para o dia seguinte. Isto está ligado aos meus medos... Não temo a velhice nem a morte, mas a dependência, a decadência. Nunca precisei de nada nem de ninguém, é isso.”
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