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Correio da Manhã

Cultura
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“O filme mostra um Saramago desconhecido”

Miguel Gonçalves Mendes filmou o Nobel e a mulher na intimidade. ‘José & Pilar’ abre esta noite o DocLisboa
14 de Outubro de 2010 às 00:30
Miguel Gonçalves Mendes foi premiado em 2006 no DocLisboa
Miguel Gonçalves Mendes foi premiado em 2006 no DocLisboa FOTO: Vítor Mota

É a primeira vez que um filme português abre o DocLisboa. É uma honra? 

É um desafio, nervoso miudinho e uma honra. Foi no DocLisboa que há quatro anos ganhei um prémio (por ‘Autografia’, documentário sobre Mário Césariny) e, de repente, aqui estou a abrir o certame. E ainda para mais com o filme que é, sobre um dos maiores autores da Literatura portuguesa.  

Como é ‘José & Pilar’? 

É o primeiro filme com estas características: é um retrato da intimidade e do quotidiano de José Saramago com a sua mulher, Pilar. E isso provoca curiosidade para muitas pessoas até porque é um Saramago desconhecido de muita gente.

Como é José Saramago na intimidade? 

Ao contrário da imagem que muitos fazem dele, é uma pessoa extremamente doce, bem educada, generosa e com um humor brilhante. E o filme mostra as diferenças entre ele, muito português, melancólico e ela, espanhola cheia de força: eles complementam-se imenso. E ele dizia uma coisa engraçada: não tenho culpa da cara que tenho. As pessoas às vezes confundiam timidez com arrogância. 

O Saramago e a Pilar viram o filme. O que acharam? 

Ele gostou muito do filme. E, no final, disse uma coisa que gostei muito: que tinha tido dúvidas de algumas cenas que estava a filmar mas, visto o filme, que tudo fazia sentido. E que achava que o filme era muito mais do que só sobre ele e Pilar, que era um filme sobre a vida, sobre as relações. E virou-se ainda para a Pilar, que assistiu com ele ao filme (em Lanzarote, na casa do escritor), e disse-lhe: ‘Oh Pilar, isto é uma grande dedicatória de amor’. E ela respondeu-lhe: ‘Sim, José. Mas a minha vida também é uma dedicatória de amor a ti.   

Quando é que o filme foi feito? 

Foi nos últimos anos de vida dele, entre 2006 a 2008, no período em que adoeceu e estava a escrever ‘A Viagem do Elefante’. Toda a gente temeu pela vida dele, inclusive ele próprio teve receio de não conseguir acabar o livro. No fundo, é a história de um homem que vai escrever um livro, adoece e teme não conseguir acabá-lo mas consegue recuperar e terminá-lo e ainda escreve outro a seguir (‘Caim’). 

E como é que Saramago acedeu a ser filmado na intimidade? 

Desde sempre que gosto da obra dele: li todos os livros e adoro a forma como constrói as personagens. Para ele, o ser humano tem sempre o lado bom e mau. E essa visão apaixonou-me. Depois, já o conhecia desde o meu primeiro filme, ‘Dona Nieves’, em que lhe pedi para ele fazer uma pequena narração de um texto do ‘Memorial do Convento’ a que ele acedeu. E depois propus-lhe este meu projecto, para mostrar o lado mais pessoal dele. Ele começou por dizer que não e não mas, como a Pilar diz, eu fui um chato educado e fui insistindo e ele acabou por aceitar.

E onde foi filmado e durante quanto tempo?

Demorou quatro anos a ser filmado, um ano e meio de montagem e recolhi 240 horas de imagens entre Lanzarote e as viagens de trabalho para promover o seu trabalho pelo Mundo. Ao início foi difícil angariar dinheiro mas enviei uma carta para as produtoras internacionais que mais admirava e conseguir ter a El Deseo, de Pedro Almodóvar e a O2, de Fernando Meirelles a trabalhar comigo.  

Essa co-produção abre-lhe portas para o mercado internacional...

O filme já tem data de estreia, em Novembro, no Brasil, com 16 cópias. E também em Espanha. Por cá, estreia a 18 de Novembro nas salas. A antestreia é dois dias antes, na data do aniversário de Saramago.  

Em nenhum momento Saramago censurou alguma cena ou pediu para não o filmar em certos momentos? 

Não. Nem ele nem a Pilar. Nunca disseram nada nem antes, nem durante, nem depois. O que também demonstra uma grande coragem. 

As pessoas vão conhecer outro Saramago? 

Sim, vão conhecer um Saramago que não conheciam antes. Vão ver um Saramago  diferente do que estão habituados. E vão gostar muito dele. Talvez se gere um processo de pacificação de algumas pessoas em relação a ele.

No final, ficou amigo de Saramago? 

Ele já cá não está para o confirmar mas acho que sim. mas o que sinto que foi o meu maior privilégio foi ter contactado com estas duas pessoas maravilhosas: o José e a Pilar.  

Já falou com a Pilar para o filme ir para o acervo da Fundação Saramago? 

Não. Mas o filme está aí, vai para o acervo de todos os que o queiram ver.

O que acha do facto de Pilar estar agora tão próxima de Portugal e ter pedido nacionalidade portuguesa? Saramago e ela sempre foram críticos em relação ao nosso País... 

Saramago dizia que esquecer-se da sua terra seria esquecer-se do próprio sangue. Em relação à Pilar, os portugueses foram injustos para ele. E também para ele. Não temos que concordar com todas as opiniões deles mas é inegável o contributo de Saramago para a divulgação da língua portuguesa e para a projecção de Portugal no resto do Mundo.  

DEZ DIAS DE (BONS) DOCUMENTÁRIOS

O DocLisboa arranca hoje, às 21h00, na Culturgest, com ‘José & Pilar’ (estreia a 18 de Novembro). A viúva do Nobel marcará presença no arranque do certame que, durante dez dias (até 24), mostra na Culturgest, cinemas Londres, São Jorge City Classic Alvalade e Cinemateca o que de melhor se faz no mundo do cinema documental.

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