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O lugar da História ao contar histórias

A comunidade judaica acusou Mel Gibson de ter feito um filme “simplista, faccioso e historicamente incorrecto”. O realizador de ‘A Paixão de Cristo’ negou o anti-semitismo, defendendo-se ao dizer que o argumento provinha do Novo Testamento, sem tirar nem pôr. A Igreja Católica regozijou-se pelo retrato “fiel às escrituras” dos últimos dias de Jesus, baixando a guarda no que diz respeito à desconfiança com que tem encarado as produções cinematográficas que abordam temas sensíveis para a sua instituição.

20 de maio de 2006 às 00:00

O vigor dos grandes clássicos como ‘Os Dez Mandamentos’, ‘A Túnica’ ou ‘A Maior História de Todos os Tempos’, exemplos de como Hollywood sempre foi politicamente correcto ao abordar os dogmas católicos, lucrando financeiramente com tal política, deu lugar a obras de uma atitude mais provocadora onde o móbil acaba por ser, também, a promessa de maiores lucros, por via da controvérsia.

O que há de tão atractivo na teoria da conspiração e na ideia de que tudo o que nos ensinaram está errado reside no direito de cada pessoa questionar as suas próprias crenças. No caso de ‘O Código Da Vinci’, a palavra-chave para essa atracção é ‘Jesus’. É uma figura religiosa tão acessível e polémica que se torna, para qualquer empreendedor como Dan Brown, uma verdadeira caixa registadora.

INTOLERÂNCIA

A versão para o grande ecrã não podia deixar de preocupar o Vaticano. A intolerância para qualquer teoria ou forma de entretenimento que pise os calos ao dogma já tem barbas. Recorde-se, em 1979, os pedidos para o boicote de ‘A Vida de Brian’, a paródia dos Monty Python sobre um homem normal confundido com o Filho de Deus. Como se tratava de uma comédia que ninguém levou a sério, não causou tanta ‘urticária’ como ‘A Última Tentação de Cristo’ (1988), o filme de Martin Scorsese considerado blasfemo ainda antes de estar terminado.

Tal como ‘O Código Da Vinci’ de Ron Howard, a obra de Scorsese era baseada num livro ‘maldito’ – publicado em 1955 e banido pelo Vaticano – da autoria de Nikos Kazantzakis, excomungado pela Igreja Ortodoxa grega. Tudo porque, na cruz, Jesus fantasiava um casamento com Maria Madalena. Um tema recorrente no que toca a provocar a reacção da instituição.

A maioria das pessoas que vai ver ‘O Código Da Vinci’ não estará interessada em fazer pesquisa para comprovar as teorias apresentadas. Porque também se trata de um filme ‘simplista, faccioso e historicamente incorrecto’. Não se pode confundir uma história com a História. O medo de uma Igreja intolerante é que tal aconteça.

Difícil encontrar algo que funcione num filme que é um acto falhado dos pés à cabeça mas, apenas pela necessidade de preencher este espaço, refira-se a interessante composição de Silas feita por Paul Bettany, o esforço do veterano Ian McKellen para se sublevar à vulgaridade do papel e o ambiente criado pelos lugares históricos onde decorreram parte das filmagens.

Ron Howard não conseguiu desvendar o código de transformar um fenómeno da literatura num ‘blockbuster’. O filme não existe para além do livro e até o envergonha. Como obra isolada, é aborrecida, previsível, mal realizada e interpretada (Tom Hanks é um mero narrador), para além de tratar os espectadores como ‘atrasados’, tantas são as explicações gráficas.

Título original: ‘The Da Vinci Code’

Realizador: Ron Howard

Argumento: Akiva Goldsman, baseado no livro de Dan Brown

Intérpretes: Tom Hanks (Langdon), Audrey Tautou (Sophie), Ian McKellen (Sir Teabing), Paul Bettany (Silas), Jean Reno (Bezu)

Apesar de poder filmar no Museu do Louvre, Ron Howard não pôde apontar câmaras ou luzes para a verdadeira ‘Mona Lisa’, substituída por uma réplica.

LISBOA – Amoreiras, Colombo, Vasco da Gama, Twin Towers, Fonte Nova, Millenium Alvaláxia, Londres, Monumental, El Corte Inglés

FARO – Fórum Algarve

PORTO – Cidade do Porto, Dolce Vita, Norteshopping, Gaiashopping, AMC

RON HOWARD SEM O PARAÍSO

Tem algo de premonitório o título do seu próximo filme, ‘A Leste do Paraíso’, nova versão cinematográfica do livro de John Steinbeck. A carreira do realizador Ron Howard derrapou após o Óscar recebido por ‘Uma Mente Brilhante’, devido aos fracassos de ‘A Desaparecida’ e ‘Cinderella Man’, mas a oportunidade de remonta surgiu quando o seu sócio na Imagine Entertainment, Brian Grazer, foi contratado pela Sony Pictures para produzir a adaptação da obra de Dan Brown.

Tido como ‘tarefeiro’ em Hollywood, este antigo actor (desde criança) de cinema e televisão está longe de ser considerado um artista. E a acumularem-se as más críticas…

DAN BROWN RECUSA '24'

Joel Surnow, criador da série ‘24’, acreditava que ‘O Código Da Vinci’ poderia ser a base de um grande argumento para a terceira temporada do programa, mas Dan Brown não tinha a intenção de ver a sua obra adaptada à televisão. Vendeu os direitos à Sony Pictures por 4,6 milhões de euros.

Quando Ron Howard tomou conta da realização, pensou em Bill Paxton para o papel de Robert Langton, mas o actor já tinha outros compromissos. A busca da actriz que interpretaria Sophie Neveu foi mais morosa e obrigou a que caras conhecidas como Sophie Marceau, Virgine Ledoyen e Audrey Tautou fizessem testes. Ganhou a última, a famosa ‘Amélie’.

O CÓDIGO DO SR. JUIZ

A Sony Pictures aguardou com ansiedade o veredicto da queixa de plágio apresentada pelos historiadores Michael Baigent e Richard Leigh, que acusaram ‘O Código Da Vinci’ de ser composto por ideias e passagens do seu livro ‘O Sangue de Cristo e o Santo Graal’.

O juiz Justice Peter Smith escreveu o acórdão de 71 páginas que ilibou Dan Brown não sem fazer uma gracinha: introduziu uma mensagem em código no texto. Dois jornais descobriram a fórmula. O juiz usou a antiga sequência numérica Fibonacci para esconder a frase ‘Smithy Code Jackie Fisher who are you Dreadnought’. Uma homenagem ao almirante Fisher e ao seu barco de guerra de 1906.

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