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Imagem promocional da micronovela
MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

O PORTO IMAGINADO POR BEATRIZ PACHECO PEREIRA

Bolas de neve, casa de bonecas, estátuas, gatos e tudo servem de pretexto para atacar personagens que se defendem de alguma coisa ou de alguém, de si próprias ou das outras. Assim são "As Fabulosas Histórias Dela", sendo ela Beatriz Pacheco Pereira.

02 de outubro de 2003 às 00:00

Dois dias depois de Lisboa, o lançamento é hoje no Porto, na Fnac de Santa Catarina, rua que também anda pelo livro ou não fosse ele todo traçado na geometria da cidade.

O subtítulo não engana,"contos do Porto imaginado", lê-se e, lá dentro, há uma cidade inteira que se conta. Conto a conto. Conhecida e amada. Sem contemplações nem benesses. O Porto é maior do que tudo o que sobre ele se escreva, podia ler-se.

"Aquando das obras, alguém tinha aceitado que os bancos da beira-mar, de ferro e madeira vermelha, fossem substituídos por umas cadeiras de cimento negro, afastadas umas das outras cerca de um metro, o que, portanto, impedia os namorados de se tocarem e beijarem, as crianças de correrem por cima a ver quem saltava mais alto e mais longe, os velhos de conversarem sem ser aos berros. 'Quem imaginou uma vista de mar só para egoístas, surdos, filhos únicos, solitários e solteironas, devia ser morto', pensara ela quando viu o descalabro pela primeira vez", lê-se.

E é sempre assim que se lê, como um cartão-postal, a cidade amada. Apesar de. Ou por causa de.

GRANDE-PLANO

Beatriz Pacheco Pereira é natural do Porto. Licenciada em Filologia Germânica, dedica-se, sobretudo, ao cinema, fundando, com Mário Dorminsky, a revista "Cinema Novo" e, anos depois, o Fantasporto. É ainda seu o título de "a primeira mulher a ter uma coluna de crítica de cinema num jornal diário em Portugal".

Não se espante pois quem achar na prosa, os ritmos e os planos mais próprios de se ver do que ler. Está-lhe no sangue. A cidade também.

"Num segundo apenas, pareceu- -lhe ver alguém. Correu doida até ao fim da rua, até à Praça de Carlos Alberto, a praça do rei enamorado da cidade, tanto que lhe deixou o coração, a praça que tinha belos plátanos, atacados por um fungo mortal, cortados havia pouco e substituídos por árvores raquíticas. As fachadas das casas, ostensivamente visíveis, disseram-lhe outra vez que, com o corte das árvores, tinham perdido o recato e estavam agora como prostitutas, expostas ao mundo", escreve.

E se o Porto assegura todos os cenários, por nomear ficam todas as personagens, e ficam bem, identidade é coisa que não lhes falta. São todas, ou uma única, mulheres-meninas que se agarram à vida como a bolas de neve e casinhas de bonecas, estátuas de fachada e gatos de jardim. E não o fazem para viver mais mas para morrer melhor... "Momentos cúmplices, sabe-se lá de quê. Ele, sobrevivendo sempre. Ela, morrendo de cada vez. Finalmente, quando se convenceu de que não havia nele, nunca, a necessidade absoluta dela, ficou à distância. Nunca lhe disse nada. E ele nunca soube da devastação".

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