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O TEMPO CERTO DE ACORDAR

Há vinte anos, quando ainda tinha a pretensão de escrever frases definitivas, decidi copiar uma que fez história, com Jon Landau a ‘imortalizar’ Bruce Springsteen. A mim, coube-me ver e reportar uma série de concertos no Rock Rendez-Vous. E escolhi esta tirada: “Eu vi o futuro do ‘rock’ português – chama-se Rádio Macau”.

07 de dezembro de 2003 às 00:26

Muitas luas e muitas lutas se ergueram desde então, muitas caíram como folhas. Mas, como a verdade é, hoje, uma das poucas forças susceptíveis de ressurreição, chega o tempo de ‘Acordar’ (ed. Universal), três anos depois de ‘Onde O Tempo Faz A Curva’, onze anos distante da anterior aventura do grupo. Ficaram hinos, na mesma dose de uma coerência imbatível no nosso panorama. Ficaram concertos de sangues e suores, na mesma proporção de discos a que as marés e as modas não apagam.

Andaram espalhados por aí, Xana, Flak, Alexandre Cortez e Filipe Valentim, núcleo duro dos Macau. Com discos a solo, projectos diversos e dispersos: alguns deles foram menosprezados; outros eram deliberadamente dirigidos às ‘imensas minorias’ que, nalguns casos, valem como forma de descompressão. Quando se reuniram, vinham diferentes, mais maduros, com os ouvidos cheios das viagens desse longo intervalo. Mas, por mais rodeios que se ensaiem ao assunto, parece transparente que ‘Onde O Tempo Faz A Curva’ foi apenas um passo para o autêntico despertar que é este álbum. Onde se reencontra a essência de uma banda ‘histórica’ mas se exaltam aventura e risco, tais os saltos cumpridos pela sonoridade do grupo.

Xana é, de vez, a mulher capaz de passar à palavra o que se reparte por estas almas – a fluência multiplicou-se, a economia de linguagem só aparentemente pode ser interpretada como simplista. Flak reassume o papel de principal compositor, fazendo uso da sua teimosa aprendizagem e de um virtuosismo melódico que nunca tinha encontrado tanto céu aberto nos capítulos anteriores. Em bloco, os Macau passaram – magistralmente - das leis da raiva em ‘riff’ para as regras, mais perturbadoras, da fúria em fundo. Eu traduzo: desde os primeiros acordes de guitarra acústica (que julgo nunca ter sido tão usada como neste disco) de ‘Sempre Mais’ até ao encadeado lírico alucinante de ‘Um Novo Dia’, parecem predominar a calmaria e o polido. Ora vai chegando a hora de aprendermos que não há maior (e melhor) provocador do que aquele que nunca grita. Não precisa. E que é por trás da suavidade, melancólica ou enigmática, que se escondem as grandes inquietações.

São dez canções, mais um instrumental, em que aquilo que fica à vista vale apenas uma parte. Porque quando se regressa a cada uma, há sempre um pormenor que escapou e se destapa, sempre uma palavra que fugiu e se escancara, sempre uma nova leitura e um distinto prazer. Talvez seja isto a maturidade que se deseja: não rima como comodismo nem com formatos. Quando se fala de amor, este já não é maniqueísta; quando se canta o devir, já não se ignora o que ficou para trás; quando se traçam os retratos, estes são mais completos que a meia dúzia de (eficazes) traços que havia. Este disco é mais difícil de partilhar, porque intimista e, às vezes, ambiental. Não renega nada, mas cresce em todos os domínios. Para os Rádio Macau, sem tempos fracos, muito menos mortos, esta é a hora certa de (nos) ‘Acordar’. Eu ouvi o presente do rock português. E continua a ter o mesmo nome.

Em casos como os de KYLIE MINOGUE, a única mulher da iconografia ‘pop’ que consegue fazer sombra a Madonna, têm que assinalar-se as doces vantagens da maturidade. ‘Body Language’ (ed. EMI-VC) é um longo exercício de sedução, a que não faltam a dança e os temas quentes. Se o capítulo seguinte a ‘Fever’ era um enorme teste, a australiana ‘sex symbol’ superou a prova, com uma dúzia de apostas que, se não fazem uma revolução, chegam para encantar. E há tempo para uma das canções de 2003: ‘Slow’.

O primeiro volume surpreendia por trazer ROD STEWART rendido aos grandes ‘standards’ da canção americana. Como ele próprio disse, precisou da idade para sentir a música. Agora, ‘As Time Goes By – The Great American Songbook II’ (ed. BMG) traz mais 16 demonstrações de que, contas feitas, estamos mesmo diante de um grande intérprete. Atenção aos duetos com Cher, Queen Latifah e Lisa Ekdahl, para guardar no livro de memórias. E depois há ‘Smile’, ‘Someone To Watch Over Me’… Um disco para durar.

No princípio do ano, KELLY OSBOURNE, filha do mítico Ozzy e revelada ao Mundo por um ‘reality show’ da MTV, lançou um álbum, péssimo, chamado ‘Shut Up’ – bom seria… Agora, faz publicar um ‘novo’: ‘Changes’ (ed. Som Livre). Só que o é mesmo (até com a desgraçada versão de ‘Papa Don’t Preach’), mais quatro temas repetidos ao vivo e um dueto com o papá, que assassina o clássico ‘Changes’, dos Black Sabbath. Duas perguntas: para enganar quem, a nova embalagem? E, depois, não se pode exterminá-la?

Ao terceiro álbum, o quarteto ‘united colours’ que, paradoxalmente, se chama BLUE, continua à procura de rumo, de uma marca, de algo que o distinga de uma dúzia de ‘concorrentes’ dos dois lados do Atlântico. ‘Guilty’ (ed. EMI-VC) é pastoso, arrastado e, com única excepção, não traz uma canção que se recorde depois de terminado. O problema é que esse oásis é, outra vez, uma versão: depois de Elton John, no ano passado, agora aparece Stevie Wonder convocado para o diálogo. Mas não salva nada.

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