“Em ‘Hymns Of The 49th Paralell’, K. D. Lang vira-se para os ‘hinos’ dos seus compatriotas canadianos: onze canções que, em bloco, garantem um dos álbuns mais elegantes para suportar o Outono”
Quantas razões se aplicam para se avançar para um disco de versões? Tantas quantas as imagináveis. Atentemos nos quatro casos de hoje: falta de repertório novo tido como compatível, acontece com Alison Moyet em ‘Voice’; homenagem explícita a heróis-referência, resposta para Paul Weller e ‘Studio 150’; fervor nacionalista, misturado com critério estético acima de suspeita, e está explicado ‘Hymns Of The 49th Parallel’ de K. D. Lang; um puro e surpreendente exercício de estilo, razão de ser dos Nouvelle Vague e do álbum homónimo.
Por partes: Moyet é, sobretudo, uma voz. O que lhe dá, depois de anos de menoridades, plenos poderes para ir direita aos patrimónios de Michel Legrand (bela versão de ‘Windmills Of Your Mind’), dos Gershwin, de Bacharach, de Brel, até de Costello. E, com mais risco, a Bizet e Henry Purcell. O resultado é sóbrio, um imaculado ‘easy listening’, que fica a dever-se à suavidade orquestral regida por Anne Dudley (ex-Art Of Noise, lembram-se?). Falta um nadinha mais de chama…
Com Weller é tudo mais simples: as canções de Tim Hardin, Gil Scott Heron, Bacharach (outra vez…), Godon Lightfoot, Bob Dylan e Neil Young são chamadas ao seu estilo, seco e directo, à sua própria personalidade musical. Sem ‘nuances’ nem desvios, guitarras e secções rítmicas sem floreados. Podiam ser, em resumo, boas canções de Weller – que não ganha um só novo adepto, porque não muda, mas mantém os fiéis. Entre os quais me conto.
Depois de um disco sobre Nashville, ‘Shadowland’, e de outro com versões de diversas proveniências, ‘Drag’, K. D. Lang vira-se para os ‘hinos’ dos seus compatriotas canadianos. E tem por onde escolher: Leonard Cohen, Neil Young, Joni Mitchell, Jane Siberry, Bruce Cockburn e Ron Sexsmith carregam certificados de garantia. A mais-valia tem duas frentes: a voz cada vez mais solta e profunda da cantora e uma instrumentação magnética, quase sem baterias mas com o encanto da guitarra de Ben Mink e, sobretudo, um regresso em jeito do orquestrador Eumir Deodato. Onze canções que, em bloco, garantem um dos álbuns mais elegantes para suportar o Outono.
Finalmente, os Nouvelle Vague: Marc Collin, Olivier Libaux, mais sete cantoras. O elenco dos revistos: Joy Division, Depeche Mode, Tuxedo Moon, The Clash, PIL, Dead Kennedys, Sisters Of Mercy, XTC, The Cure, Killing Joke, Undertones, Modern English e Specials. O denominador comum: todos os temas ganham arranjos de Bossa Nova, fresca, capaz de embalar o mais empedernido. É uma aventura única, já que a próxima não terá a mesma graça. Mas não lhe chamem ‘chill’ ou coisa que o valha: é um trabalho tão sério como sedutor, capaz de durar uma noite inteira ou de aguentar até ao regresso do Sol. Confesso: nunca pensei ouvir ‘Love Will Tear Us Apart’ ou ‘Making Plans For Nigel’ com desenho carioca. Confesso mais: ainda bem que ouvi e que ainda não parei.
n Brasil presente, parte I: por mais que se queira considerar ‘A Foreign Sound’ como um intervalo no génio criativo de CAETANO VELOSO, a verdade é que o baiano volta a confirmar – dez anos após ‘Fina Estampa’, cinco depois de ‘Omaggio a Federico e Giulietta’ – que também é um intérprete de primeira água. ‘Standards’ (de Cole Porter e dos Gershwin a Bob Dylan e aos Nirvana) e surpresas no Pavilhão Atlântico hoje (24) à noite, com orquestra de cordas. Pergunto: alguém resiste ao mano Caetano?
n Brasil presente, parte II: ainda hoje, mas no Coliseu do Porto, com viagem amanhã, para a lisboeta Aula Magna, toda a atenção é devida ao regresso de BEBEL GILBERTO. Espantados os fantasmas das comparações, assumido o destino musical (até pela carga genética inevitável em quem é filha de João Gilberto e Miúcha), ei-la a aventurar-se mais na composição: ‘Bebel Gilberto’ cresce muito face a ‘Tanto Tempo’, mantendo o difícil equilíbrio entre Bossa Nova e electrónica. Podemos confirmá-lo, agora.
n É provável que a ressuscitada legião de fãs portugueses/as dos DURAN DURAN peça a minha cabeça numa bandeja, mas confesso que tentei. Em nome do passado, do reencontro dos músicos originais quase vinte anos depois. Mas ‘Astronaut’ é uma desilusão, apesar do apetecível cartão-de-visita, ‘(Reach Up For The) Sunrise’. Banalidades e truques baratos, muita parra (efeitos) e pouca uva (canções). ‘Funky’, senhores? É preciso sabê-lo. E ‘dance’ para quê? ‘Still Breathing’ (escapatória), mas pouco.
nNem os três temas novos nem o facto de o CD ser gravado para um sistema ‘surround’ 5.1, nem mesmo as actualizações de ‘Oxygene’, ‘Equinoxe’ ou ‘Magnetic Fields’ conseguem salvar esta estreia de JEAN-MICHEL JARRE em nova editora. ‘Aero’ funciona como uma mistura entre o ‘greatest hits’ e a demonstração dos caminhos agora seguidos. Mas funciona mal, ultrapassado e sonolento, se exceptuarmos ‘Souvenir Of China’ e ‘Zoolookology’, já roubados aos seus melhores álbuns. Não vale a viagem no tempo.
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