“Sócio, vai haver festa!” É assim que Futre entra no filme ‘Hotel Transilvânia’. Quer dizer, é a voz dele que ouvimos na dobragem da múmia ‘Murray’, um dos inquilinos do ‘Hotel Transilvânia’, a animação de monstros simpáticos que esta semana chega às salas de cinema. E que está nomeada para o Globo de Ouro. Mas Futre recorda também os seus momentos de glória e aborda ainda da crise do Sporting. E vai avisando: “Eleições não!”
Correio da Manhã – Pelos vistos, o nome de ‘Sócio’ já pegou. Até o ‘Murray’, a personagem que interpreta em ‘Hotel Transilvânia’ usa a expressão...
Paulo Futre – Sim. Eu acho que só digo duas vezes ‘sócio’, mas a primeira palavra que digo no filme é ‘sócio’. Digo assim; “Sócio, vai haver festa!”
- E o ‘concentradíssimo’?...
- Sim, o ‘concentradíssimo’ também digo duas vezes. Estou curioso para ver o filme, para ver se reconheço a minha voz.
- Foi difícil, esta experiência?
- Para mim, eu vejo-a como o ‘aquecimento’ no futebol. Não se sabe se os pitons vão ser de alumínio ou de borracha, se vão ser altos ou baixos; se a relva vai estar boa ou não, se vai chover. Aquelas complicações que tens sempre no aquecimento antes do jogo. Foi o que senti aqui também, pois estás a ouvir o inglês e tens de chegar a esse tom. Depois o ‘time code’, que é uma confusão, pois temos de entrar naquele preciso momento. Ao princípio foi um pouco complicado, mas depois adaptas-te e começas a divertir-te.
- No entanto, já tinha sido actor numa novela… Interessa-lhe este tipo de experiência?
- Pois, mas na novela interpretava o meu papel, era um director desportivo. Era futebol, ou seja, estava a actuar, mas era o meu mundo. Aqui não, não tinha nada a ver com o que fiz até agora.
- Até porque tinha de cantar...
- Também cantei, é claro. Também cantei. Acho que é um momento talvez mais difícil, pelo menos dava mais medo. Ensaiei várias vezes até ficar perfeito. Depois, durante dois dias a música não ma saía da cabeça, porque é bonita.
- Uma coisa que acho que toda a gente gostava de saber é: de onde lhe vem toda esta energia que coloca em tudo o que faz? Seja a jogar à bola, seja aqui a fazer esta personagem, mas também na vida...
- Sempre fui assim, sempre fui assim. Agora, é claro, quando durmo, durmo a sério. Quando jogava dormia doze horas por dia. Agora não posso, mas às vezes umas dez horas. Também gosto de estar na minha paz, tranquilo, mas quando vou fora de casa, sou assim. Era assim quando jogava e espero manter esta energia durante muitos anos.
- É interessante, quando se vai ao Google e se coloca o nome de Paulo Futre, lê-se assim: “Um dos maiores jogadores portugueses de todos os tempos”. E que jogou nos três grandes do futebol português. Assim rapidamente como é que avalia essa sua passagem?
- Tive o grande privilégio de jogar nos ‘três grandes’ de Portugal. Tive o grande privilégio de jogar em vários países. Tenho o grande privilégio de ser um dos maiores jogadores de sempre do terceiro clube maior de Espanha, o Atlético. Por isso, quando veio o ‘chinoca’ e o ‘sócio’ e todo o ‘boom’ que se seguiu, é porque estava aí o passado extraordinário como jogador de futebol. Eu fui o ídolo para a minha geração e para as gerações mais velhas, que são agora os pais de miúdos de dez, doze anos.
- Como é que os seus filhos, sobretudo o Fábio, que está mais ligado ao futebol, convivem com este ambiente? Está a vê-lo, por exemplo, a jogar na Seleção A?
- Vai ser difícil, porque o Fábio teve muitos problemas de joelhos. Foi operado e está agora a tentar voltar. Mas não é fácil, pois quando tens operações aos joelhos, e também aos tornozelos, é complicado. Sobretudo quando és muito jovem. Eu tive a sorte de me lesionar nos joelhos já com 27 anos, já tinha feito uma grande carreira.
- Naquelas jogadas fenomenais que vimos, aquelas arrancadas, com toda aquela adrenalina, o que pensava? “Sou invencível”, “tenho de ir para a frente”?
- Sim, era um jogador muito vertical, um jogador que adorava o ‘um contra um’, de ir para cima dos defesas. Não tinha medo do choque. Muitas vezes, sabia que me vinham “partir a perna”, entre aspas, mas mesmo assim ia para a frente. Era um jogador corajoso. Não só em Portugal, porque em Espanha apanhei ainda os “grandes assassinos”, também entre aspas, que estão a terminar agora a carreira, os grandes ‘dinossauros’: o Ballesteros do Levante; o David Navarro, que deu agora uma cotovelada ao Cristiano Ronaldo. São os últimos ‘assassinos’ do futebol espanhol, que eram tremendamente duros. Não era fácil jogar em Espanha naquela altura.
- Como se define como futebolista?
- Fui um jogador sempre corajoso, vertical e depois tinha uma coisa única que era mais rápido com bola do que sem bola. Era impossível apanharem-me quando ia com a bola controlada.
- É o ídolo para muita gente, mas quem foram para si os seus ídolos?
- O meu ídolo foi, sem dúvida, o Chalana.
- Não é um perfil algo semelhante ao seu?
- Só por ser esquerdino, mas éramos completamente diferentes. O Chalana era um génio. Eu era jogador do Sporting na altura, mas ia sempre ver o Benfica por ele. Ia lá para o terceiro anel. Era um jogador do outro mundo. Aprendi muito com o Chalana, era a minha referência, queria ser como ele. Foi o meu grande ídolo, da minha infância e adolescência.
- A sua vida continua cá e lá, entre Lisboa e Espanha?
- Hoje, um bocadinho mais por cá. Cerca de 80 por cento cá e 20 por cento lá.
- Há muitos projectos a acontecer. Quais lhe ocupam mais o tempo?
- Bom, estou hoje em quatro programas semanais. Vamos ver, tenho um projecto para o próximo ano. Não posso ainda dizer, mas tem a ver com televisão. Hoje estou na Bola TV, com o José Manuel Freitas, no Porto Canal, com o Júlio Magalhães, com a Júlia Pinheiro à terça-feira e ainda no programa ‘Toca a Mexer’, também na SIC. É engraçado, pois não tem nada a ver comigo, com aquilo que faço. Estou a divertir-me muito.
- Quando olha para a sua carreira, qual é o seu melhor momento?
- A Champions com o Porto. É o momento mais marcante. É o meu momento, mas também o do Porto. E foi um dia especial para Portugal porque ganhámos uma Champions para Portugal. Depois, tenho outro dia inesquecível que é quando o Atlético de Madrid ganha a Taça do Rei, em 92, no Barnabéu contra o Real Madrid. Foi como se tivesse ganho a Champions. Se perguntassem aos adeptos do Atlético se queriam a Champions ou esta final no campo do Real Madrid, no campo deles, de certeza que preferiam a Taça do Rei. Foi um dia histórico para mim, fiz um jogo espectacular, fiz um golo. Como era o capitão fui levantar a Taça com o Rei de Espanha, que me falou em português.
- O que é que ele disse?
- “Parabéns. E é uma honra dar esta taça a um Português.” Como sabes, ele viveu muitos anos em Portugal.
- Sim senhor. Já agora, como é que vê esta crise do Sporting? Depois de ter participado num processo eleitoral, acha que poderia interessar-lhe uma nova tentativa? Há alguma solução para este Sporting?
- Não é fácil. O Sporting tem uma grande dívida. Por isso, tem de haver alguém que venha com uma solução milagrosa para este problema porque quem for para lá, com esta crise mundial, até os bancos vão fechar a torneira para os clubes. Não vai ser nada fácil. Tem de vir alguém com uma solução séria.
- Não são então os chineses?...
- Os chineses podiam ser uma solução.
- Adquirindo o clube?
- Era bom para trazer ingressos, sem dúvida. Mas mesmo assim não era solução, pois podíamos ir fazer três ou quatro jogos à China, como vai o Real Madrid. Não é fácil... Está aí a Troika...
- Acredita em eleições?
- Não estou de acordo. Tinha de existir uma pessoa com uma solução, mas uma solução séria, com as pessoas certas para solucionar a vida do Sporting. Isso seria o melhor. Mais do que eleições, confusão, lixo a dizer mal uns dos outros. Isso era péssimo para o Sporting.
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