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Correio da Manhã

Cultura
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Poucos no adeus a Alçada Baptista

"O meu País é uma vergonha", dizia ontem João Botelho à entrada da Igreja das Mercês, em Lisboa. Decorria a missa de funeral de António Alçada Baptista, e o realizador estava desolado com a ausência de um representante ‘visível’ do Ministério da Cultura nas exéquias do escritor, falecido no domingo, aos 81 anos.
9 de Dezembro de 2008 às 00:30
Família e amigos acompanharam o corpo de Alçada Baptista até à campa onde fica sepultado, no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa
Família e amigos acompanharam o corpo de Alçada Baptista até à campa onde fica sepultado, no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa FOTO: Duarte Roriz

Afinal, a secretária de Estado da Cultura, Maria Paula Fernandes Santos, esteve presente. Mas tão discreta que ninguém deu por ela. A consternação pelo pouco impacto da cerimónia era sentimento partilhado.

"Merecia mais atenção este homem que deu tanto à cultura portuguesa e que eu tive a honra de ter como amigo", disse ainda João Botelho. "A nossa amizade era a amizade entre um católico com dúvidas – ele – e um ateu com dúvidas – eu. Foi um privilégio poder conversar com o Alçada, que tinha tanta paixão pela vida", concluiu.

À missa poucas foram as figuras públicas que compareceram. Entre os mais notáveis, Mário Soares, com quem Alçada Baptista se desentendeu quando escreveu ‘Conversas com Marcello Caetano’, e que ontem recordava o episódio com um encolher de ombros. "Na altura, eu estava no exílio e ele foi a Paris mostrar-me o livro, e eu não gostei dele –e disse-lho. No entanto, nunca deixámos de ser grandes amigos."

O comediante Raul Solnado recordou o sentido de humor do escritor português e Vera Roquette, que privou com Alçada nos últimos anos, diz que com ele aprendeu o significado da palavra tolerância.

O funeral, no Cemitério dos Prazeres, teve muito mais presenças e esteve mais de acordo com o estatuto do autor: o filósofo Eduardo Lourenço, o poeta Pedro Tamen, a escritora Inês Pedrosa, os jornalistas Leonor Xavier e José Carlos Vasconcelos e o actor Antonino Solmer foram alguns dos que acompanharam António Alçada Baptista até à sua última morada. Onde, nas palavras do amigo Raul Solnado, "está finalmente em paz".

DEPOIMENTOS

"Curvo-me perante o o homem de convicções que granjeou amizade de quantos o conheceram" (Cavaco Silva, Presidente da República)

"Foi uma personalidade que marcou, legando-nos um notável paradigma de integridade" (J. A. Pinto Ribeiro, Ministro da Cultura)

 

 

 

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