Há algo de diabólico neste ‘remake’. E não há aqui uma referência – a numerologia que perdoe – às 6 letras da palavra. Nem ao pequeno Damien, filho do demo encarnado e figura central do filme. O verdadeiro génio do mal esconde-se sob a fachada de um brilhante produtor de Hollywood, que observou o calendário atentamente até encontrar o sinal desejado: 06-06-2006. Os três seis, o número da Besta…
Há um filme de 1953, de John Huston e com Humphrey Bogart, intitulado ‘Beat The Devil’, que é como quem diz, ‘Ganhar ao Diabo’. A história nada tem a ver com o sobrenatural e o senhor do inferno só é chamado à baila como mera expressão: ‘ganhar ao diabo no seu próprio terreno’. Eram tempos inocentes, em que o nome podia ser evocado em vão.
Vinte anos mais tarde, em 1973, ganhar ao diabo no seu terreno passou a ser uma tarefa bem mais complexa. ‘O Exorcista’ esculpiu consciências no que toca à possessão diabólica e popularizou os meios para expulsar espíritos malignos de corpos inocentes.
Se os filmes reflectem a sociedade, a obra de William Friedkin deu o seu contributo àquilo que a revista ‘Time’ já apregoava na Páscoa de 1966, numa das suas famosas capas, em forma de pergunta: “Is God dead?” (“Deus está morto?”)
A década de 70 foi, em Hollywood, o tempo do diabo, tendo sido ‘O Génio do Mal’ original, em 1976, um dos mais célebres e lucrativos estandartes de uma procissão de filmes que incluíam não só a figura do anticristo como uma nova vaga de assassinos em série que ora matavam na sexta-feira 13, ora massacravam no Texas, ora ensombravam no ‘Halloween’.
A OCASIÃO FAZ O LADRÃO
O Mal fazia as delícias dos produtores. Havia muito dinheiro a ganhar e nenhuma oportunidade foi desperdiçada. Porque as décadas seguintes viram o diabo definhar no grande ecrã, imagine-se a emoção quando a data 06-06-2006 se aproximou. Os sinais não podiam ser melhores: ‘Exorcista – O Princípio’ estreou em 2004. Como nos dois originais dos anos 70, a manifestação do espírito maligno precedeu o nascimento do filho do diabo.
A nova versão de ‘O Génio do Mal’ pretende justificar a existência com os males do Mundo actual. Não é só a data 666 que faz mexer o departamento de ‘marketing’, mas também o atentado terrorista que levou à queda da Torres Gémeas, o tsunami na Ásia, a guerra no Iraque e todas as desgraças humanitárias que sirvam para enquadrar a versão num ambiente diabólico.
Quanto mais trompetas do Apocalipse forem tocadas, mais feliz estará o produtor que há muito tinha uma bolinha marcada no calendário para a data de estreia. A ocasião faz o ladrão…
Talvez tenha feito um pacto com o diabo, mas o actor Gregory Peck soube bem como assinar o contrato para ‘O Génio do Mal’, de 1976. Baixou o salário para 250 mil dólares mas garantiu 10 por cento dos lucros. Como o filme rendeu 60 milhões só nos EUA... Para o realizador Richard Donner foi uma estreia em grande no cinema, após quase duas décadas na televisão. Tão convincente que lhe passaram para a mão ‘Super-Homem’. O êxito deixou o público a salivar por mais. À sequela, ‘Damien: Omen II’ (1978), seguiu-se ‘Conflito Final’, em 1981. Um quarto filme, feito para televisão, chegou a estrear em cinema em alguns países, em 1991.
A MALDIÇÃO DO OUTRO
Se a actual versão estreou mundialmente a 06-06-2006, a primeira também aproveitou, o melhor que pôde, a numerologia. E os produtores lá encaixaram uma antestreia a 06-06-1976. E para trás ficara uma suposta maldição que recaíra sobre as filmagens. Gregory Peck, por exemplo, cancelou a tempo a viagem para Israel, pois o avião que o transportaria caiu e não deixou sobreviventes. Richard Donner não só viu o seu hotel ser bombardeado pelo IRA como foi atropelado por um carro. Os cães rottweiler contratados para a cena do ataque no cemitério viraram-se contra os tratadores. Entre outros episódios que fizeram o mito...
SEMENTE DE MIA FARROW
Muito antes de se tornar na musa e mulher de Woody Allen, nos anos 80, Mia Farrow conheceu o lado negro. A actriz tornou-se famosa com ‘A Semente do Diabo’ (1968), obra de Roman Polanski, mas apenas esporadicamente, em ‘A Ameaça’ (1971) e ‘Full Circle’ (1977) insistiu num género que, confessa, não gosta, por lhe meter demasiado medo. Aos 61 anos, regressa ao terror no papel da devota ama Mrs. Blaylock e, curiosamente, tem a seu cargo outra criança ligada ao diabo. Quando o realizador John Moore a convidou, fez questão de sugerir Julia Stiles, com quem contracenava na altura no teatro, para o papel principal.
Quem comparar com o original de 1976, sai mais agradado por ser basicamente o mesmo filme do que desiludido por não acrescentar nada. John Moore quis “passar o testemunho à sua geração” e entendeu que a força da história estava nos personagens, no terror contido e não em efeitos especiais. Para quem não viu o original, o produto não é aborrecido.
Pergunta pertinente: era mesmo necessário este ‘remake’? Ao público actual já não basta o terror contido. O pequeno Damien é a peça fulcral do enredo. É uma interpretação feita de gestos, silêncios e olhares, algo que o estreante Seamus Davey-Fitzpatrick resvala quase para o ‘erro de casting’. John Moore exagerou nos sustos fáceis e já muito batidos.
Título original: ‘The Omen’
Realizador: John Moore (foto)
Argumento: David Seltzer
Intérpretes: Liev Schreiber (Robert), Julia Stiles (Katherine), Pete Postlethwaite (Brennan), Mia Farrow (Mrs. Blaylock)
Harvey Stephens é o actor que interpretou o pequeno Damien em 1976. Aparece brevemente neste ‘remake’ como repórter fotográfico.
Lisboa – Colombo, Vasco da Gama, Twin Towers, Fonte Nova, Millenium Alvaláxia, Olivais, El Corte Inglés
Faro – Fórum Algarve
Porto – Cidade do Porto, Norteshopping, Gaiashopping, AMC
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