O massacre de Wiriyamu, que marcou os últimos anos da Guerra Colonial, é descrito em ‘O Anjo Branco’, romance de José Rodrigues dos Santos que chega amanhã às livrarias. O pai do autor é o protagonista
Correio da Manhã - Estava a viver em Tete quando ocorreu o massacre de Wiriyamu, feito por tropas portuguesas, que descreve no seu novo romance ‘O Anjo Branco'?
José Rodrigues dos Santos - Sim. Tinha oito anos na altura.
- A personagem principal é inspirada no seu pai, que foi um dos primeiros a ir a Wiriyamu. Soube que ele ficou sob custódia das Forças Armadas após descrever num relatório o que viu?
- Não tive consciência de nada. A minha mãe ocultou-o, como normalmente se oculta das crianças algo tão sério.
- Nunca lhe falou disso? Quando tomou consciência do que ocorreu a poucos quilómetros da sua casa?
- Creio que a minha mãe falou uma vez sobre o tema, mas não prestei muita atenção. Depois o José Pedro Castanheira fez para o ‘Expresso' uma série de reportagens sobre o massacre e contactou-me para saber onde estava o relatório do meu pai. Isso despertou o meu interesse.
- Ponderou fazer uma reportagem em vez de uma obra de ficção?
- Acho a ficção um instrumento muito mais poderoso para relatar histórias. Na reportagem limitamo--nos aos factos, enquanto na ficção podemos construir melhor as personagens e usar cenas para transportar o leitor para aqueles tempos.
- Mas fez investigação jornalística, procurando quem conviveu com o seu pai em Moçambique.
- Não direi que foi jornalística. Falei com testemunhas, li documentos e fui a Moçambique duas vezes para reconstituir os acontecimentos.
- O regresso a Moçambique e à cidade da sua infância correspondeu às expectativas?
- Foi fascinante. A maioria das pessoas pode facilmente visitar o sítio onde viveu na infância. Eu não. Tete fica no coração de África.
- O protagonista nem sempre resiste ao adultério. Hesitou em descrever o seu pai desta maneira?
- O amor faz parte da vida e temos de encarar tudo de uma forma natural.
- Falou com o comandante da companhia de comandos responsável pelo massacre de Wiriyamu. Como foi a conversa?
- Quis saber por que mataram eles aqueles civis. Porque é que mataram crianças? Posso entender vagamente, sem concordar, que matem um rapaz de 18 anos que suspeitam ser guerrilheiro. Mas uma criança de 5 anos ou uma mulher? Ele disse-me que era preciso estar lá com eles, naquele contexto, para perceber. Em ‘Fúria Divina' tentei explicar o que faz com que um radical da al-Qaeda mate civis inocentes. De certo modo foi um desafio semelhante.
- Há quatro anos, teve referências nada elogiosas à parte de ‘O Códex 632' em que uma personagem promete "fazer sopa de peixe com o leite das mamas". Incomoda-o se isso acontecer com ‘O Anjo Branco', que tem desde o primeiro parágrafo referências ao facto de o protagonista ter "um pénis enorme"?
- Você é que parece estar incomodado com isso. Perturba-o haver essas características genéticas na minha família?
- As suas filhas já leram os seus livros? Tratando-se da história de um avô, vai deixar que leiam este?
- Claro. Quem me dera ter familiares que tivessem escrito romances inspirados na vida de outros familiares. Aprenderia decerto muita coisa.
- Qual foi o motivo de não se incluir no livro enquanto personagem?
- Se arranjasse filhos à personagem principal, isso complicaria imenso o romance. Não quis encher ‘O Anjo Branco' de personagens sem relevância alguma para a narrativa.
"O LIVRO DIZ O QUE SE4 PASSOU, E PONTO FINAL"
CM - Lembra-se de quando decidiu escrever ‘O Anjo Branco'?
J.R.S. - Há duas origens. A primeira foi uma conversa com uma prima, após lançar ‘A Ilha das Trevas'. "Porque não escreves uma história baseada no que aconteceu com o teu pai?", perguntou ela. Concordei mas fui interrompendo para escrever outros livros. Faltava-me o que se passou quando o meu pai esteve na aldeia. Ele já tinha morrido, e a freira espanhola que foi com ele também.
- Como resolveu o problema?
- No ano passado, quando estava a lançar ‘Fúria Divina', uma senhora disse que tinha conhecido bem os meus pais e pediu para falar comigo. Combinei encontrar-me com ela para uma conversa de 15 minutos. Estávamos a meio quando ela disse que foi a Wiriyamu com o meu pai. Encontrei ali a testemunha.
- Face à polémica entre ex-militares e António Lobo Antunes, após declarações deste sobre abusos das tropas durante a Guerra Colonial, está à espera de ataques?
- Tudo o que está no romance, fora a intriga ficcional, está documentado. Não vejo como se possa contestar a verdade. Lobo Antunes assumiu pouco rigor na forma como se exprimiu, dizendo que o fez "de forma completamente metafórica" e que "factos não interessam nada". Não é o meu caso. ‘O Anjo Branco' não é um romance metafórico: diz o que se passou, e ponto final.
"PARA MIM ESCREVER NÃO É TRABALHO"
CM - Tem lançado um romance todos os anos. Como consegue conciliar a escrita com o trabalho na RTP e a sua família?
J.R.S. - Para mim escrever não é trabalho. Há quem vá ao centro comercial nas horas livres, há quem veja filmes, há quem passeie. Eu escrevo.
- Já pensou dedicar-se exclusivamente à escrita?
- Sou feliz a fazer o que faço. Para quê mudar? Gosto do meu trabalho enquanto jornalista e não vejo motivos para eliminar essa faceta da minha vida.
PAI UTILIZAVA AVIONETA COMO AMBULÂNCIA
José Rodrigues dos Santos diz que ‘O Anjo Branco' não é "necessariamente" um livro sobre o pai, referindo que a história do médico de Tete "é só o fio condutor" que transporta o leitor para a Guerra Colonial em Moçambique. Mas ‘José Branco' (o autor mudou este e outros nomes) é o protagonista desde a primeira página do romance que acaba com o embaixador em Londres a inquirir a Marcello Caetano sobre se ouviu falar de Wiriyamu.
Depois de tirar o curso de Medicina, José Paz Rodrigues dos Santos rumou a Moçambique, onde se tornou director do Hospital de Tete. E foi ao reparar no número de pessoas que demoravam dias a percorrer quilómetros para ter assistência médica que começou a percorrer localidades em viagens aéreas.
Contando com o apoio das autoridades e com o financiamento da Gulbenkian, criou o Serviço Médico Aéreo de Tete. Aos comandos de um pequeno Piper Cherokee, aterrava em pistas improvisadas para dar consultas e distribuir remédios.
"O distrito de Tete, onde fundou o Serviço Médico Aéreo, tem o tamanho de Portugal Continental. Era como se ele estivesse em Coimbra e voasse para Bragança e a seguir para Vila Real de Santo António. Era uma tarefa ciclópica", diz o autor de ‘O Anjo Branco', que chegou a acompanhar o pai nas viagens. "Lembro-me de entrarem doentes e feridos para o avião, que era usado como ambulância. E também das paisagens."
PERFIL
José Rodrigues dos Santos nasceu há 46 anos na Beira e passou a infância em Tete, também em Moçambique. Jornalista da RTP há duas décadas, estava em directo no início da Guerra do Golfo. Estreou-se no romance com ‘A Ilha das Trevas', em 2002.
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