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Rachel Joyce: “Interessam-me as pessoas normais”

A escritora britânica Rachel Joyce esteve em Lisboa para divulgar o seu primeiro romance, ‘A Improvável Viagem de Harold Fry'. Um homem num percurso de fé.

22 de junho de 2014 às 14:00

Correio da Manhã - Escreve há 20 anos para rádio, televisão e teatro. Agora publica o primeiro romance. Porque demorou tanto tempo?

Rachel Joyce - Na verdade sempre quis escrever um livro... Acho que todos estes anos me serviram para aprender o ofício da escrita. A saber construir uma estrutura, desenvolver uma intriga, escrever um diálogo. Não tive formação em literatura... Quer dizer, estudei inglês na faculdade, e sempre gostei muito de ler. Sempre li muito. Mas escrever é outra coisa. Tinha de esperar. Acho que tinha de ser mais velha.

- Dedicou esta obra ao seu pai, que morreu de cancro, como a personagem que desencadeia a ação?

- Escrevi a história primeiro como peça radiofónica, para o meu pai, que estava a morrer. Sabíamos que ele tinha semanas para viver. Comecei a escrevê-la como forma de lidar com a situação.

- A partir de que momento passou a ser um romance?

- Ia mostrando o trabalho ao meu marido, apenas, mas uma amiga minha, que eu até nem conhecia muito bem, pediu-me para o ler. E foi nessa altura que achei que ia chegar ao fim. Que valia a pena terminar e tentar a publicação.

- Sentiu que estava a escrever uma obra muito especial?

- Não fazia ideia nenhuma. Sabia que estava a escrever algo verdadeiro. E simples. Não tentei fazer floreados com a escrita. O meu marido disse-me que a história tinha apelo universal, mas mais do que isso... não tinha ideia. Tudo o que queria era ser publicada. O resto foi um temporal.

- Demorou muito tempo a escrever?

- Foi bastante rápido. O primeiro esboço demorou seis meses, embora seja difícil falar em esboço porque estou sempre a escrever e reescrever. Depois de seis meses, senti-me pronta para mostrar o resultado.

- O livro vendeu mais de dois milhões de cópias. O que é que mudou, para si, com a publicação da obra?

- Dois milhões. Nem consigo imaginar o que isso é. Nada. Não mudou nada, a não ser o facto de as pessoas, agora, quererem saber mais sobre mim. Escrevi para rádio todos estes anos e nunca ninguém quis saber quem eu era. Escrevia uma peça atrás da outra, e era tudo. Agora não é assim, há muita curiosidade. O que é estranho, porque sou uma pessoa reservada. É irónico ter escrito um livro sobre alguém que viaja, porque adoro estar em casa e passo lá a maior parte do tempo, com a minha família.

- Então o que foi melhor, nesta primeira experiência?

- Ter a sensação de que consegui alcançar um objectivo que tinha há muito tempo. Sempre tive o sonho de publicar. Desde muito nova. No dia que consegui o contrato para publicação deste romance, lembrei-me de algo que fiz, na adolescência. Aos 13 anos, enviei, em segredo, e sob pseudónimo, uma história para ser publicada. Recebi uma carta de rejeição. Demorou muito tempo até receber o meu ‘sim', mas agora sinto-me uma privilegiada, porque posso continuar.

- O Harold Fry, o seu herói, faz uma caminhada de 87 dias para tentar salvar a amiga que está a morrer de cancro. Costuma fazer caminhadas?

- Sim, mas não de forma organizada. Não tenho o equipamento certo e nunca tenho mapa. Também nunca sei por onde vou. Limito-me a sair. Aliás, acho que vou caminhar porque quero sair de casa. E quando levo um mapa, é certo que me vou perder.

- Mas a viagem que Harold faz é possível. Mil quilómetros, em 87 dias.

- Facilmente. Um verdadeiro caminhante fá-lo-ia em muito menos tempo. O Harold é lento, mas eu queria escrever sobre um homem cujas únicas viagens a pé são quando sai de casa e entra no carro. Portanto, dei-lhe muito tempo. E quando as outras pessoas se juntam a ele e formam um grupo, isso atrasa bastante a caminhada.

- O livro é muito emotivo. Chorou enquanto estava a escrever?

- Não. Nunca choro quando escrevo. Choro quando leio o trabalho de outras pessoas. E na vida também choro, constantemente. Facilmente. Mas a minha própria escrita não me faz chorar. Percebo que há momentos em que as personagens estão a sentir emoções muito intensas, às vezes dolorosas, mas não choro.

- É uma pessoa religiosa?

- Não vou à igreja. Quando tinha 13 anos disse à minha mãe que queria fazer a primeira comunhão. Mas pouco tempo antes do acontecimnto, disse-lhe que afinal já não podia, porque não tinha fé. Ela respondeu-me que não tinha alternativa: já tinha convidado as pessoas para o almoço, para celebrar. Tive de ir adiante com a coisa. As igrejas atraem-me, mas não o serviço religioso. A verdade é que todos nós andamos à procura de alguma coisa. A tentar acreditar em algo maior, algo a que pertecemos. Como o Harold.

- Este não é um livro sobre vampiros de 20 anos... Continuará a escrever sobre pessoas normais?

- Sem dúvida. Já há livros suficientes sobre pessoas extraordinárias. e a mim interessam-me mais as pessoas normais, como nós. Não vou escrever sobre vampiros de 20 anos. No dia em que o fizer, podem fuzilar-me. Esse será o dia para parar de escrever.

PERFIL

RACHEL JOYCE tem 50 anos e vive numa quinta em Glouchestershire, Inglaterra, com o marido e quatro filhos. Foi atriz, escreveu argumentos para TV e peças radiofónicas. ‘A Improvável Viagem de Harold Fry' conta a história de um homem que inicia uma caminhada a pé para tentar salvar a amiga que tem cancro. O livro recebeu o National Book Award para primeira obra de estreia e foi finalista do Man Booker Prize. No ano passado, publicou ‘Perfect', e este ano, em outubro, deverá lançar terceiro romance, onde recupera as personagens de ‘A Improvável Viagem'.

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