Artistas acostumaram-se "a não ter qualquer tipo de apoio" na divulgação em meios tradicionais, mas as portas estão agora semiabertas.
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Vários rappers portugueses, que cresceram na Linha de Sintra, atingiram o sucesso sem a ajuda dos meios tradicionais de divulgação, como rádio e televisão, alcançando nas plataformas digitais discos de ouro e milhões de visualizações.
"Nós não tínhamos acesso a 'managers' [empresários], não tínhamos acesso à distribuição; então, nós vendíamos os nossos trabalhos de mão em mão", vestidos "com aquelas roupas largas", imagem dos artistas da música urbana, que engloba estilos como o rap e o hip-hop, conta à Lusa o músico Prodígio, nome artístico de Osvaldo Moniz.
O rapper, de 37 anos, nasceu em Angola, mas cedo veio viver para Queluz, na Linha de Sintra, onde criou os seus primeiros sucessos. Muitos deles tiveram como temas "álcool, miúdas, um bocadinho de boémia", o que terá, na sua opinião, contribuído para alguma penalização.
"A gente não passava na rádio" e "não éramos bem-vindos na televisão", conta.
O produtor musical Daus, nome artístico de Pedro Silva, confirma. "Os rapazes que vêm do urbano estão habituados a fazer com pouco. Então, criaram mecanismos e foi tudo criado à volta do não ter, de não contar com esse lado", quer a parte televisiva, quer a rádio.
"Normalmente, um artista urbano começa a explodir no próprio meio dele, na zona onde mora. Depois, vai se alimentando por aí, neste caso na Linha de Sintra, se for preciso", diz.
Em declarações à Lusa, acrescenta que estes artistas se acostumaram "a não ter qualquer tipo de apoio" na divulgação em meios tradicionais.
Mas as portas estão agora semiabertas, até porque este estilo musical começou a ser visto como capitalizável, o que é facilmente percetível pelas milhões de audições e visualizações que os rappers acumulam nas plataformas digitais.
E para isso há meios que não podem falhar, como o Spotify, um serviço de música, podcast e vídeo digital que dá acesso a milhões de músicas e a outros conteúdos de criadores de todo o mundo. Mas também o YouTube, hoje com menos relevância, mas ainda assim um canal importante para a carreira do artista.
A rádio continua a ser um bom canal para a parte de exposição do artista, bem como os festivais, que deviam estar mais abertos a estes talentos, que enchem salas, mas ainda assim são desvalorizados em relação aos que vêm de fora, diz.
Muitos destes "soldados urbanos" já vivem totalmente da música, como Ivandro. O seu tema "Lua", single lançado em 2022, permitiu ao cantor e compositor nascido em Angola e criado na Linha de Sintra alcançar um feito que coube a poucos, ao atingir um Disco de Diamante, só possível após 80.000 vendas e 'streams' (audição ou visualização pela internet).
O seu primeiro álbum ("Trovador", 2024) teve mais de 100 milhões de 'streams', sendo também Diamante, mas os primeiros passos na música foram dados ainda na escola de Mem Martins, onde agora sempre que regressa é recebido por um batalhão de fãs.
Ivandro tem uma agenda cheia de espetáculos. Tal como T-Rex (Daniel), que cresceu em Monte Abraão e recorda os primeiros passos na música, sentado numa cadeira no seu quarto e a usar um microfone comprado "no chinês".
Desde que viu a sua música transformar-se em dinheiro que entendeu que iria alcançar os objetivos financeiros. Os seus fãs ajudaram esse propósito e, em 2023, o seu álbum de estreia ("Cor D`Água") foi o mais ouvido, tendo já recebido vários Discos de Ouro e Platina.
Aos 28 anos, conta hoje com "pessoas capacitadas" para o ajudar a ganhar a vida com a música, seja através dos 'streams', dos concertos ou dos direitos de autor. E com a fé, que acredita ser o motor de todos os sonhos.
O rapper Landim, 37 anos, assistiu à explosão do rap em Mem Martins e lembra-se bem dos primeiros tempos, quando os recursos eram nenhuns, mas a criatividade sobrava.
À Lusa, conta que o 'freestyle' (improviso de rimas na hora) sempre funcionou como um exercício de ajuda à criatividade.
"Hoje em dia, em poucos minutos, consegues fazer uma música com o telefone, com dois ou três 'gadgets' [dispositivos tecnológicos] consegues fazer uma música. Antigamente era um bocadinho mais difícil, mas também se calhar era aí que estava o prazer de remar contra a maré", diz.
E prossegue: "Não havia Master, não havia Spotify, não havia YouTube, não havia distribuição digital. Não havia nada disso".
Hoje, apesar da difusão desta música através das redes sociais e dos 'streams' nas plataformas e dos milhões de seguidores, estes artistas continuam a queixar-se de não terem igual destaque na rádio ou nos festivais.
"A gente ainda olha muito para o estrangeiro e para o lado, como se a galinha do vizinho fosse melhor do que a nossa galinha", afirma, dizendo acreditar que a qualidade vai conseguir levar estes artistas até onde desejam.
O músico e produtor Fumaxa recorda-se bem do pouco que havia quando começou na música urbana, em comparação com as ferramentas digitais atuais e até uma inteligência artificial que, quer se queira quer não, assusta os criadores.
"Antigamente era um bocado mais difícil, não havia muito conhecimento. Eu com 14 anos não fazia o que o meu sobrinho faz. O meu sobrinho toca piano, porque aprendeu no YouTube. Nunca teve aulas e aprendeu tudo no YouTube", diz.
Considera que esta panóplia à disposição facilita muito e abre uma janela de oportunidades a vários jovens, que podem seguir o que quiserem, seja na música, seja no vídeo, seja no que for.
E até a inteligência artificial pode dar uma ajuda, ao nível de produção e da criação, observa, ressalvando: "A AI ajuda, mas é o artista quem mais manda".
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