Como vimos no artigo “Entender os Quatro troncos do Yôga”, o Yôga Antigo, o SwáSthya, acenta não só no filosofia comportamental que é o Tantra – tema tratado o mês passado – como no Sámkhya, a filosofia teórica, onde o Yôga – filosofia prática de Vida – se apoia sempre que precisa de alguma teoria. É este o tema que iremos explorar ao longo do mês.
Literalmente, Sámkhya quer dizer número, tendo diversos significados como: enumeração, busca, análise, cálculo, acto de examinar, discriminação e investigação das categorias da existência.
As duas características principais desse sistema são a ordem de classificação dos seus vinte e quatro princípios – tattwas – e a dissociação, ou discriminação, entre Púrusha – Homem – e a Prakriti – Natureza. Em resumo, o Sámkhya é classificado como uma filosofia naturalista, já que toda a sua estrutura fundamenta-se nas leis da Natureza.
Esta filosofia pode ser sintetizada como uma tentativa do homem em compreender a sua existência, explicando-a segundo leis naturais; e na dissociação entre algo que é mutável e aquilo que permanece imutável em todos os seres e por trás de todos os processos da Natureza.
De acordo com as fontes hindus, o Sámkhya foi sistematizado pela primeira vez por Kapila, personagem tradicionalmente muito conhecido, porém historicamente contraditório. Nas escrituras que o citam ele é identificado com o nome de Hiranyagarbha, um dos nomes de Brahma, ou como sendo uma personificação de Vishnu, ou ainda, de acordo com outras fontes, como sendo o próprio Shiva, o criador do Yôga.
A obra mais antiga sobre o Sámkhya é um livro chamado ”Sasti Tantra”, classificado como o ensinamento dos seis tópicos, ou ainda, como o livro das sessenta frases. Mas tais registos foram perdidos no tempo e, hoje, não passam de mitos. Este é o Sámkhya Pré-Clássico
Um dos livros mais famosos é o “Sámkhya Kariká”, de Íshwarakrishna, que significa literalmente estrofes do discernimento. A maioria dos pesquisadores concorda que a sua redacção remonta ao século II d.C. Nos sútras finais dessa obra está registado que Kapila revelou o conhecimento e este, através de tradição oral, acabou por chegar a Íshwarakrishna, que o codificou neste livro. Como no caso do Yôga Clássico – codificado por Pátañjali – esta codificação tornou-se um dos trabalhos mais importantes e o mais aceite, a partir do qual o Sámkhya foi elevado à categoria de darshana – ponto de vista – do hinduísmo. Eis, assim, o Sámkhya Clássico
Tal filosofia teve uma grande força até à época de Shankaracharya – 788/820 d.C. A partir de então, sobreviveu em constante declínio, até que no século XV experimentou um renascimento quando foi composta a escritura de base para classificar o Sámkhya como Moderno. Esse escrito dá pelo nome de Sámkhya Pravachana Sútra.
Daqui por diante, o Sámkhya passou a coexistir com ideias teístas, já que o Vêdánta, difundido alguns séculos antes por Shankaracharya, já se encontrava bastante arraigado na sociedade hindu.
Segundo o Mahabhárata – épico que conta a história da Índia – há três variantes de Sámkhya. a primeira, mais antiga, tem vinte e quatro princípcios, a outra, vinte e cinco, e a terceira, vinte e seis. Esta última categoria, inclui Púrusha e Íshwara – que significa Senhor; de acordo com o filósofo Mircea Éliade é o arquétipo do yôgi –; a variante anterior exclui Íshwara e, a outra, que é mais antiga, não menciona esses dois princípios. As categorias de 24 ou 25 princípios são denominadas de Niríshwarasámkhya – sem Senhor –, enquanto a mais moderna, de 26 princípios, é designada por Sêshwarasámkhya – com Senhor.
Para a semana continuaremos a conhecer um pouco mais esta fantástica filosofia, à qual se atribui hoje estar na origem do raciocínio matemático.
Com base no livro “Yôga, Sámkhya e Tantra”, Mestre Sérgio Santos, Presidente da Federação de Yôga do Estado de Minas Gerais, Director Geral da Unidade Savassi, em Belo Horizonte
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