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Sudoeste na Páscoa?

Coube aos Xutos & Pontapés darem o último dos 69 concertos da 10.ª edição do Festival do Sudoeste, que decorreu na Herdade da Casa Branca, Zambujeira do Mar. Uma despedida à medida das relações intensas, dos afectos e cumplicidades.

08 de agosto de 2006 às 00:00

De um lado umas rendidas 20 mil pessoas, do outro um grupo de cinco elementos que se tornou, por mérito próprio, numa instituição da música portuguesa. Um quarto de século a tocarem juntos, a fórmula repetida, o mesmo espírito de festa e diversão. O som não foi o ideal, tudo foi como sempre, simples, eficaz e sem floreados.

Repetiram-se as mesmas metáforas quase burlescas, as mesmas baladas serenas e embaladoras que fazem parte de um universo musical que acompanha três gerações de portugueses. É nesse sentido português de ser que reside o segredo do sucesso dos Xutos em particular e do Festival do Sudoeste em geral.

MARCAS SONORAS

Ao longo do seu concerto, Boss AC – que teve à frente a plateia mais jovem de todo o evento – repetiu até à exaustão a frase “o que é português é bom”. E para quem assistiu à qualidade de projectos como os Gaiteiros de Lisboa (com Pacman), David Fonseca, X-Wife ou Legendary Tiger Man, o elogio revela-se pertinente. E nem a boa imagem deixada por grupos como os quase desconhecidos, mas com futuro brilhante, The Kooks, os veteranos Prodigy (que atraíram o maior número de pessoas), os Daft Punk com o seu bacanal de luz e som ou os incansáveis e surpreendentes Morning Wood retiram nota alta à representação nacional.

CHEIRO A PERFUME

António Camilo, presidente da Câmara de Odemira, demonstrou ao CM o entusiasmo pelos “resultados práticos resultantes da mais-valia que o festival trouxe para a região”. Salientando a importância dos cerca de cinco mil espanhóis que passaram pelo evento contribuindo para a afirmação do produto turístico alentejano no país vizinho, o autarca mostra-se consciente de que a Zambujeira não consegue dar resposta capaz aos milhares que, no início de Agosto, a visitam.

Por isso, numa operação conjunta com a organizadora do festival, a Música no Coração, fixou-se o maior número de pessoas na zona do campismo, oferecendo concertos durante o dia e preparando o canal de rega para o banho. Não fosse o afogamento de uma jovem e a aposta teria sido bem sucedida.

“Este festival cheira a perfume”, diz o vereador Carlos Oliveira, apontando a beleza do convívio circundante. Presidente e vereador confessam que o objectivo da Câmara de Odemira é fazer com que a Herdade da Casa Branca venha a ser palco de outros eventos culturais. “A ideia é aproveitar esta mais-valia noutras ocasiões.” E lança o desafio: “Porque não realizar aqui um festival nas férias da Páscoa?”

1500 CASOS SEM GRAVIDADE

Ricardo Galanda, da Cruz Vermelha Portuguesa, informa que nos quatro dias do festival, o posto montado ao lado do palco recebeu cerca de 1500 visitas mas, apenas uma com gravidade: “Uma jovem com queimaduras provocadas pelo rebentamento de uma botija de gás. De resto, apenas picadelas de insectos e raros casos de excesso de alcoól.” A prevenção e a acção da GNR – revistou a pente-fino inúmeros automóveis à procura de estupefacientes e fez o teste do balão a centenas de condutores – parece ter surtido efeito.

GNR DETEVE 23 POR TRÁFICO

Os cem militares empenhados na manutenção da ordem no Sudoeste detiveram, nos quatro dias do festival, 23 indivíduos por suspeita de tráfico de estupefacientes. Foram apreendidas cinco mil doses de cannábis e pequenas porções de cocaína, ecstasy, LSD, anfetaminas e seiva psicocibina. A GNR elaborou ainda 20 autos por crimes e 105 por contra-ordenações, algumas das quais a indivíduos que conduziam sob o efeito do álcool. Destaque para o consumo de 150 mil litros de bebidas, cem mil dos quais cerveja.

FOGO PELA BOCA

Manuel António Lourenço,de 77 anos, foi ao festivalna primeira edição. “Gastei seis contos mas valeu a pena. Havia lá um gajo que bebia petróleo e jogava fogo pela boca. Até tive medo que se queimasse. Também ouvi o rock e gostei de ver os jovens a agarrarem-se uns aos outros”, confessou.

QUATRO CONTAS

Manuel António Conceição e António Guerreiro dedicaram toda a vida a guardar rebanhos e a arrancar cortiça, não tiveram tempo “nem para casar, nem para fazer filhos, nem para aprender a ler ou a escrever”. Nunca foram à escola e, dos três, só Conceição conseguiu descobrir, “porque não era assim muito parvo”, como “se fazem as quatro contas bem feitas”.

TOCADOR DE 'FLAITA'

Manuel Guerreiro, de 84 anos, exímio tocador de gaita da localidade de São Teotónio, nunca casou. Pergunta-se-lhe se as mulheres nunca lhe fizeram falta? “Valha-me Deus, pelo amor de Deus! Então isso lá faltava? Eu não casei mas não sou capado. À primeira vez, todas dizem que não querem, mas depois de eu lhes tocar uma flaitada caem que nem tordos”, conta Guerreiro, língua fluida, humor e rara genica para tocar a gaita com a bengala a tiracolo.

FUGITIVOS

A dona de um restaurante na Zambujeira estava igualmente atarefada, mas menos sorridente. “A minha mãe foi de urgência para o hospital, está às portas da morte e eu não posso fechar isto com a casa cheia de gente.” Chegada de França, onde mora e trabalha, dedica o mês de férias em Portugal a servir os clientes. Indignada, conta que lhe entupiram propositadamente a sanita e, “como quem não quer a coisa”, fugiram sem pagar a conta...

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