Nunca pensei, na minha vida, ver o que estou a ver”, diz João Lourenço. “Prepara-se a morte da arte”, garante o encenador perante a redução em cerca de 40 por cento nos subsídios às artes performativas. Nem por acaso, acaba de estrear, no Teatro Aberto, em Lisboa,‘Vermelho’, peça com que o norte-americano John Logan problematiza a nem sempre fácil relação entre quem paga e quem produz objectos artísticos.
Em 1958, o pintor russo naturalizado norte-americano Mark Rothko recebia a encomenda da sua vida: uma série de murais para decorar um dos melhores restaurantes de Nova Iorque, em troca de um pagamento milionário.
Este episódio verídico serviu de base para John Logan (argumentista de ‘O Aviador’) escrever uma peça que ficciona o encontro do artista plástico com um novo assistente, enquanto prepara os murais no seu atelier.
‘Vermelho’, peça que fez a sua estreia absoluta em 2009, é agora revista por João Lourenço e Vera San Payo de Lemos com António Fonseca no papel de Rothko e João Vicente na pele do assistente, Ken.
Em cena, ao longo de dois anos, acompanhamos o pintor nas suas deambulações sobre a essência da arte, a natureza humana e a arte pictórica do século XX, e temos oportunidade de o ver trabalhar – dividido entre o vermelho e o preto, cores predominantes no seu trabalho e que para ele significavam a obsessão entre a vida e a morte.
João Lourenço diz que partilha com o autor, John Logan, o fascínio pelo trabalho de Mark Rothko e que quando soube que havia uma peça sobre o pintor, quis conhecê-la.
“Este texto estava na nossa agenda há algum tempo. Interessou-me a discussão que propõe sobre a arte. Sobretudo numa altura como esta, em que só se pensa em cifrões, a peça é um pequeno oásis”, afirma, acrescentando que a escolha do elenco foi relativamente simples.
“Há muito tempo que queria trabalhar com o António [Fonseca] e o João [Vicente] apareceu-nos num casting e tinha todas as qualidades de que precisávamos para a personagem”, conta.
Freudiana quanto baste, a peça coloca-nos perante situação clássica da relação entre aluno e mestre em que, mais tarde ou mais cedo, o jovem tem de matar o velho – metaforicamente.
António Fonseca diz que não se preocupou com a reconstrução da personagem histórica, que e se ateve ao texto de John Logan.
“Fiz exactamente o que diz o autor: ele apresenta-nos uma personagem irascível, imprevisível, de mau feitio, quase o cliché dos grandes artistas”, adianta. “Pessoalmente, interessou-me bastante o facto de, ao mesmo tempo que o Rothko é, aqui, o caso típico do misantropo social, pensa na essência humana com tanta profundidade que só podemos adivinhar nele um grande amor pela Humanidade.”
Num cenário de João Lourenço e António Casimiro (ele próprio pintor), a ficha artística deste espectáculo contempla ainda a participação do estilista Dino Alves (que, com formação em artes plásticas, admite ter ficado com vontade de voltar às telas depois deste trabalho).
O espectáculo está cena de quarta a sexta às 21h30, domingos às 16h00. Até 26 de Fevereiro de 2012.
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