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“Tenho medo da morte só enquanto experiência”

Gilberto Gil, músico, cancelou ontem um concerto em Madrid, devido a amigdalite, mas mantém os Coliseus de Lisboa (dia 17) e Porto (19). Ao CM, o também ministro da Cultura do Brasil levantou o véu sobre os shows e confessou seus temores

15 de abril de 2008 às 00:30

Correio da Manhã – O ano passado tocou num festival para 30 mil pessoas e desta vez vem para concertos íntimos. O que prefere?

Gilberto Gil – É muito gratificante os grandes públicos, mas, na verdade, a possibilidade de fazer concertos mais íntimos é mais prazerosa. É um outro tipo de prazer, mais pessoal.

– Nestes espectáculos vai ser só Gil, voz e violão, ou traz banda?

– Não. Vou ser só eu, voz, violão e o meu filho, Bem Gil, que vai tocar violão e algumas percussões.

– Além do álbum ‘Gil Luminoso’, há hipótese de tocar alguns temas que tem para o novo disco?

– Sim. Pelo menos três deles. São do próximo disco ‘Banda Larga Cordel’. Banda larga, numa alusão ao mundo das novas comunicações, e o cordel é relativo ao género literário popular do Nordeste, a literatura popular.

– Tem intenção de divulgar o novo disco na internet. É dos que acredita que a internet está a matar o negócio da música?

– Não! Está a repropor o negócio da música. São novas formas de negócio que estão surgindo. A internet é bastante prejudicial aos velhos modelos, mas ao mesmo tempo traz novas possibilidades de comércio, de promoção, de publicidade e de interacção com o público.

– É um instrumento mais democrático?

– É mais de acordo com as formas contemporâneas de sociabilidade, em que os indivíduos têm um papel mais relevante do que as instituições intermediárias do capitalismo ou do Estado. É uma relação directa que os indivíduos passam a ter com a democracia participativa, não mais representativa. É a possibilidade directa de intervenção dos indivíduos no processo democrático.

– Voltando ao novo disco. Uma das canções é uma reflexão sobre a morte. Preocupa-o isso?

– A canção chama-se ‘Não Tenho Medo da Morte’ e faço uma metáfora com o fim de um mandato presidencial, assim como o presidente dando posse ao sucessor. ‘Terei que morrer vivendo sabendo que já me vou’.

– Mas teme a morte?

– Tenho um medo físico da morte, portanto ainda é um medo da morte, mas só enquanto experiência de vida. Não tenho medo do que possa vir depois, o chamado, para uns, vazio, para outros, o paraíso, o inferno... [Risos] essas questões não me interessam. É como digo na canção: ‘o além já será então – não terei pé nem cabeça, nem fígado nem pulmão – como poderei ter medo se não terei coração’.

– E como é conciliar o ser ministro e a vida artística, agora que está em digressão, por exemplo?

– Estou de licença. O que acordei com o presidente, desde o início, foi que ele me licenciasse por pequenos períodos durante o ano, para que eu pudesse fazer as minhas giras, especialmente na Europa. Então, eu tenho reservado em média dois meses por ano para a música.

– E fala com o presidente quando está em digressão?

– Falo sim, e com vários colegas meus ministros. Os períodos que passo fora do Ministério não me afastam dele.

PERFIL

Gilberto Passos Gil Moreira nasceu emSalvador da Baía a 26 de Junho de 1942. Estreou-se em disco em 1967 (‘Louvação’) e, com Caetano Veloso e Tom Zé, fundou o Tropicalismo, música com profunda preocupação social, que o levou à prisão e ao exílio. Lançou cerca de 40 discos, é ministro da Cultura desde 2003 e defensor do Software Livre e da Liberdade Digital.

'O PORTUGUÊS VAI PODER SER MAIS RICO'

O Brasil ratificou o Acordo Ortográfico mas Gilberto Gil está ciente da polémica, que se faz sentir também no seu país. 'O Caetano Veloso, que é meu amigo, fez críticas muito contundentes a aspectos de acentuação, pontuação e criticou fortemente o desaparecimento do trema, que ele acha que pode causar confusões na fonética', disse. Para Gilberto Gil, o Acordo é necessário 'porque nasce de uma demanda feita por parte dos usuários da língua [...] e porque tem de se preservar aquilo que se considera ser o essencial para a alma da língua. O português vai poder ser mais rico. É o que creio', concluiu.

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